“É o novo ground”: o Clube de Regatas do Flamengo

25/06/2011

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Em nosso último post, apresentamos uma foto do campo do Paysandu Cricket Club, localizado nas Laranjeiras, na ocasião ocupado pelo Clube de Regatas do Flamengo, que por lá realizava seus jogos de futebol. Independentemente das preferências clubísticas, é essa uma das mais importantes agremiações da cidade.

Não passou despercebida a importância do clube a João do Rio, um dos literatos que melhor expressou o conjunto de mudanças que marcou o Rio de Janeiro na transição dos séculos XIX e XX. Em sua crônica A hora do football, publicada no livro Pall-Mall Rio, o inverno carioca de 1916 (lançado em 1917), o escritor observa a redução das resistências para com os esportes, que progressivamente tornavam-se uma prática valorizada pelos “modernos”:

“Fazer sport há vinte anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça, quando um dos meninos arranjava um altere. Estava perdido. Rapaz sem um pince-nez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era um homem estragado. E o Club de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde irradiou a avassaladora paixão pelos sports”.

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João do Rio

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Na visão de João do Rio, “O Club de Regatas do Flamengo tem, há vinte anos pelo menos, uma dívida a cobrar dos cariocas. Dali partiu a formação das novas gerações, a glorificação do exercício físico para a saúde do corpo e a saúde da alma”. Fundado como Grupo de Regatas, em 1895, seus associados eram principalmente jovens pertencentes aos setores urbanos das elites, entusiastas e praticantes do remo, habituées dos banhos de mar.

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Segunda sede do Flamengo, construída em 1920, no mesmo local onde fora fundado o Grupo de Regatas. Disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:990

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Conta Mário Filho, de forma romanceada, que por ocasião da criação do Flamengo, observando o entusiasmo dos jovens envolvidos, o padre Nattuzi procurou o Dr. Lourenço Cunha, pai de José Agostinho (um dos fundadores), lhe perguntando se não ficava preocupado com tamanho interesse, pois a fama das regatas “não era lá das melhores”. Cunha teria respondido que acreditava no esporte como uma escola de formação e disciplina, uma prática saudável, por isso não se importava.

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O fato é que depois de superada certa sensação de estranhamento ou desprezo por parte da população local, a sede do Flamengo, localizada na Praia do Flamengo, 22 (hoje número 66), tornou-se um centro de encontros, um local muito procurado por um setor da juventude que adotava novos parâmetros de sociabilidade e de exposição corporal: “Rapazes discutiam muque em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculana dos braços. Era o delírio do rowing, era a paixão dos sports” (João do Rio).

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A segunda sede foi destruída em 1979. No local hoje se encontra um prédio de escritórios. Foto disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:896

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A praia do Flamengo, na verdade, transformou-se num dos lugares mais fashions da cidade. O Hotel Central, um dos primeiros balneários da cidade, oferecia boas condições para os que desejavam com conforto se deliciar com os banhos de mar (futuramente dedicaremos a esse hotel um post). Regatas eram disputadas nas águas da Baía de Guanabara.

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Regata na Praia do Flamengo, em frente à sede do Clube, década de 1920. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/nder:1557

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Devemos também lembrar que o clube estava muito próximo do Palácio do Catete, chegando a compartilhar com a Presidência da República o cais que se localizava em frente à propriedade (podemos vê-lo na imagem abaixo).

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Detalhe de um postal da década de 1910, disponível no fotolog “Foi um Rio que Passou”, de André Decourt: http://www.rioquepassou.com.br/2004/03/21/1590/

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O futebol só entra na história do Clube em 1911, com a chegada de um grupo de jogadores dissidentes do Fluminense. Os primeiros treinos foram realizados em um campo aberto localizado na Glória, nas redondezas da sede.

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Campo onde o primeiro time de futebol do Flamengo treinava. Glória, 1911. Ao fundo o centro da cidade bastante iluminado. Acervo de Francisco Patrício. Disponível em http://www.rioquepassou.com.br/2005/12/20/gloria-e-centro-15-de-novembro-de-1911/

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Poucos anos depois a equipe de futebol passou a realizar seus jogos no antigo campo do Paysandu. A acreditar em João do Rio, foi uma festa a primeira partida do clube nessas dependências:

“O campo do Flamengo é enorme. Da arquibancada eu via o outro lado, o das gerais, apinhado de gente, a gritar, a mover-se, a sacudir os chapéus. Essa gente subia para a esquerda, pedreira acima, enegrecendo a rocha viva. Embaixo a mesma massa compacta. E a arquibancada, o lugar dos patrícios no circo romano era uma colossal, formidável corbelha de belezas vivas, de meninas que pareciam querer atirar-se e gritavam o nome dos jogadores, de senhoras pálidas de entusiasmo, entre cavalheiros como tontos de perfume e também de entusiasmo”.

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Primeiro time de futebol do Flamengo. Em pé: Lawrence, Amarante, Píndaro, Baena, Nery e Gallo. Sentados: Curiol, Arnaldo, Zé Pedro, Miguel e Borgerth. Disponível em http://www.maisfla.com/noticias/do-inicio-do-futebol-ao-fim-do-amadorismo/

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A despeito da importância de sua ligação com o esporte náutico, o Flamengo entraria mesmo para a história pela popularidade que angariaria no futebol.

Tinha mesma razão o grande João do Rio: “Não! Há de fato uma coisa séria para o carioca: o football!”.

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Na década de 1930, o Flamengo começa a se transferir para a Gávea, onde construiria um estádio e a atual sede. Na década de 1950, contudo, construiu uma sede no Morro da Viúva. Esse prédio, que hoje se encontra em condições não totalmente adequadas de preservação, está sendo negociado com o mega-empresário Eike Batista para ser transformado em um hotel de luxo.

Será que ele vai comprar a cidade toda?

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Não foi exatamente a minha preferência clubística que me levou a preparar esse post (inclusive futuramente serão dedicados posts a outros importantes clubes da cidade). De qualquer forma, a minha relação com o Flamengo é algo que marca profundamente minha memória e minha história. Já escrevi algumas coisas sobre isso, disponíveis no blog A Lenda, do amigo Rafael Fortes, e no sítio do Sport, laboratório que coordeno.

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Na próxima semana, o green! O golfe no Rio de Janeiro.

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O Cricket e o Hotel Internacional

18/06/2011

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Hoje temos um post duplo com o de Valéria Guimarães no História(s) do Sport.

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Não é equivocado dizer que o esporte foi um dos primeiros e mais notáveis produtos de exportação dos ingleses: tendo se sistematizado da forma que hoje conhecemos na Inglaterra da transição dos séculos XVIII e XIX, foi a bordo dos navios da marinha britânica que a prática inicialmente foi se espraiando pelo planeta, em cada localidade sendo apreendida com peculiaridades, dialogando com a cultura local.

Por aqui também as primeiras iniciativas esportivas foram organizadas por ingleses, que no Rio de Janeiro se estabeleceram por razões comerciais e políticas, notadamente após a chegada da Corte portuguesa em 1808.

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Chegada da Família Real Portuguesa ao Rio de Janeiro em 7 de março de 1808 (Geoffrey Hunt, óleo sobre tela, 60 X 91,4 cm). Disponível em http://www.arqnet.pt/portal/imagemsemanal/novembro0203.html. A Armada Britânica deu suporte às naus portuguesas na travessia do Atlântico.
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A colônia britânica instalada no Rio de Janeiro organizava constantemente piqueniques, bailes, passeios e “jogos ingleses”. Alguns desses eventos são registrados no diário de Graham Eden Hamond, que na cidade esteve em 1825, comandando o navio que trouxe Charles Stuart, embaixador responsável por negociar o reconhecimento português da Independência brasileira, e entre 1834 e 1838, como almirante em chefe da esquadra do Atlântico Sul.

Nas suas anotações de 8 de setembro de 1836, Graham informa que foi convidado para um jogo de cricket em São Cristóvão: “Há grande interesse no jogo e lamentarei não ter ido”.

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Por aqui o cricket não chegou a se popularizar e ser muito apreciado, mas houve muitas agremiações de ingleses que à modalidade se dedicaram.

A agremiação pioneira parece ter sido fundada em 1864, no bairro de São Cristovão, o British Cricket Club, seguindo-se vários clubes de curta duração: o Artisan Amateurs Cricket Club, o Rio British Cricket Club, o Anglo Brazilian Cricket Club, o British and American Club.

Maior destaque merece o Rio Cricket Club, fundado em 1872, no bairro de Botafogo, que deu origem a dois clubes, ambos ativos até os dias de hoje. Um deles é o Rio Cricket e Associação Athlética, que se instalou em Niterói, em 1897 (uma curiosidade: foi nessa agremiação que foi disputado, em 1901, aquele que entrou para a memória popular como o primeiro jogo de futebol de um equipe carioca).

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Escudo e “ground” do Rio Cricket Club em 1908. Disponível em: http://reliquiasdofutebol.blogspot.com

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O outro clube é o Paysandu Cricket Club, atualmente Paissandu Atlético Clube, que carrega em sua denominação o nome da rua onde sua primeira sede foi instalada, em 1880, de frente para o Palácio Guanabara, próxima do local no qual futuramente seria construído o Fluminense Futebol Clube.

Vemos abaixo uma imagem (dos anos 1920) do campo do Paissandu já ocupado pelo Clube de Regatas do Flamengo (foto de autoria de William Nelson Huggins, disponível no fotolog Carioca da Gema, de Tumminelli)

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Esse campo ocupava uma vasta extensão no bairro de Laranjeiras (no qual moravam muitos membros das elites cariocas, mas que também possuía grande população operária, especialmente trabalhadores da Fábrica Aliança). No mapa abaixo (panorama atual retirado do Google Maps), o que está em vermelho é aproximadamente a sede do Paissandu; o campo à esquerda é o atual estádio do Fluminense.

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Curiosamente, um hotel da cidade oferecia um campo adequado para os hóspedes jogarem o cricket: o Hotel Internacional, localizado na antiga Rua do Aqueduto, atual Almirante Alexandrino, bairro de Santa Tereza, construído nos anos finais do século XIX para se diferenciar de outros estabelecimentos localizados no centro da cidade, mais baratos e menos confortáveis.

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Disponível no fotolog “Só Rio”: http://www.fotolog.com.br/sorio/67457709

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Chegava-se ao Hotel com facilidade, aproveitando a linha de bonde que partia do Largo da Carioca. Suas instalações eram cercadas de exuberante natureza. Eram também oferecidas instalações para o tênis e para o croquete. Foi um dos mais renomados hotéis da cidade até sua extinção na década de 1930.

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O cricket é um esporte fascinante, um dos primeiros a se estruturar na Grã-Bretanha, um dos que mais se difundiu pelos territórios nos quais os britânicos tiveram alguma ascendência. Como dissemos, por aqui a prática não se espraiou nem se tornou popular, mas em muitos países ocupa papel protagonista.

Para mais informações, ver os posts dos amigos Maurício e Jorge. Para informações sobre o críquete nacional, ver http://www.brasilcricket.org/

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Se o cricket não se popularizou, um jogo nele inspirado foi muito praticado pela molecada nas ruas do Rio de Janeiro: o “taco”, jogado com duas latas (na maioria das vezes de óleo, recolhidas no lixo, o que por vezes significava corte das mãos nas abas abertas; em alguns casos usava-se uma “casinha” de madeira), uma bola de frescobol ou tênis e duas madeiras velhas ou cabos de vassoura.

O ponto era marcado quando a dupla “cruzava” os tacos, algo possível quando se “zunia” a bola. O auge da humilhação era cruzar os tacos imitando o movimento de um cavalo de pau.

Uma explicação sobre uma das formas de jogar taco pode ser encontrada no vídeo abaixo

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No próximo post, “foi João do Rio que disse: é o novo ground da cidade!”: O Clube de Regatas do Flamengo.


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