A velocidade invade as ruas

01/09/2011

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Encarado como substituto e superação da natureza (de cavalos e da força humana), o automóvel é um dos símbolos mais importantes do século XX. O automobilismo, em grande medida, é entendido como o exponencial dessa representação simbólica.

Em 1909,  promove-se a primeira prova automobilística do Rio de Janeiro: o Circuito de São Gonçalo. A ideia era realizar a corrida no Alto da Boavista, mas o prefeito à época, Souza Aguiar, com apoio da Câmara Legislativa, proíbe a realização na cidade, levando o Automóvel Clube do Brasil a transferi-la para o município vizinho.

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O autódromo de Jacarepaguá somente seria inaugurado em 1978. Entre os dois eventos, muitas corridas foram realizadas pelas ruas do Rio de Janeiro. Façamos um passeio por essas provas a bordo das fascinantes máquinas velozes.

A primeira imagem é de uma prova de 1925, promovida por ocasião da 1ª Exposição Automobilística do Rio de Janeiro. A pista foi instalada na região que fora construída com o arrasamento do Morro do Castelo, realizado por ocasião das comemorações de 1922. Atrás do público, à direita, temos a Baía de Guanabara.

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De 1935 temos uma bela foto do Circuito da Amendoeira, que se disputava ao redor do Morro da Viúva, numa das regiões mais valorizadas da cidade. No centro da imagem vemos a estátua de Cuauhtémoc, pelo México oferecida ao Brasil por ocasião das celebrações de 1922.

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Foto do acervo de Paulo Scali, disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:212

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Já o circuito da Gávea, disputado entre 1933 e 1954, com uma interrupção por ocasião da 2ª Grande Guerra, foi uma das mais importantes (se não a mais importante) provas do automobilismo brasileiro. No futuro, retomaremos o tema em um post exclusivo.

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Um breve filme de Adhemar Gonzaga sobre a edição de 1937 do Circuito da Gávea pode ser visto abaixo.

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Até a década de 1950 essa prova reinou absoluta, quando foi proibida por questões de segurança. A partir de então, vários locais da cidade, alguns inclusive inusitados, abrigaram as competições.

Por exemplo, durante alguns anos foi disputado o Circuito do Castelo, no centro da cidade. Na imagem abaixo, relativa à 4ª edição, realizada em 1954, podemos ver alguns dos prédios que ainda hoje se impõe na paisagem daquela região

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Nessa mesma década algumas provas foram realizadas em Botafogo, reunindo grande número de interessados. Abaixo uma imagem de 1956.

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Segundo Luiz D., o Circuito de Botafogo tinha início na Rui Barbosa, seguia pela enseada, passando pela frente do Cinema Guanabara (esquina com Voluntários da Pátria), seguia para a Pasteur, retornando para a Praia de Botafogo, de onde seguia em direção à partida.

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A Quinta da Boa vista também teve seu circuito, como podemos ver na imagem abaixo, da prova de 1957. Segundo informa Luiz D., o piloto do carro que aparece no canto inferior esquerdo é o lendário Juan Manuel Fangio, habituée participante do Circuito da Gávea.

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Da mesma forma, a na época ainda pouco habitada e distante Barra da Tijuca sediou algumas competições, entre as quais os 500 Quilômetros da Guanabara, que podemos ver abaixo numa foto de 1964 (disponível em http://www.fotolog.com.br/tumminelli/8709771). Essa prova reuniu grandes pilotos do automobilismo nacional.

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Até mesmo a Ilha do Fundão, já no seu formato atual, fruto da junção de várias ilhas para receber a cidade universitária, recebeu provas de automobilismo. Ao fundo podemos ver as primeiras construções da atual Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Até a construção do autódromo, destaca-se a forma precária da organização das provas, pelo menos no que se refere à segurança de público e pilotos, verdadeiros aventureiros, portadores da mensagem do progresso e da modernidade.

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Houve também na cidade corridas de motos, também apreciadas pela população. Vejamos uma imagem de uma prova disputada em 1955 ao redor do Maracanã.

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Os carros fascinam as mais diferentes faixas etárias. Se os adultos têm suas máquinas velozes, as crianças têm seus carrinhos de brinquedo e, para os mais ricos, seus autoramas.

Fascinante é um brinquedo que antes era mais comum entre as crianças mais humildes: o carrinho de rolimã, hoje menos presente no cotidiano das cidades.

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Por motivos profissionais, ficaremos duas semanas sem atualizar nosso blog.

O próximo post será publicado em 24 de setembro – O turfe pela cidade

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Antes das “rodonas”…as “rodinhas”!

04/06/2011

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A utilização de artefatos tecnológicos em práticas de lazer e de performance foi um dos mais interessantes desdobramentos do fenômeno esportivo (ver post sobre aviação). Duas modalidades devem ser destacadas: o ciclismo e o automobilismo.

Os dois esportes se desenvolveram no cenário carioca em distintos momentos, ambos celebrando e exaltando a cidade moderna. Vejamos, por exemplo, uma cena de uma das mais belas provas do automobilismo mundial: o Circuito da Gávea, cujas edições foram realizadas entre os anos de 1933 e 1954.

Juan Manoel Fangio, Jose Froilan González e Chico Landi, subida da Avenida Niemeyer, Leblon, 1951. Acervo do jornal Última Hora. Disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:211

Esse tema certamente será motivo de muitos outros futuros posts. Hoje falaremos de uma diversão que bem antes das provas automobilísticas encantava pessoas de todas as idades. Embora não competitiva, era considerada como um sport e encarada como uma demonstração de adoção de hábitos modernos: a patinação.

Segundo alguns registros, a prática foi introduzida na cidade em 1870, com a instalação de um ringue na Rua do Costa (atual Alexandre Mackenzie), pequena via próxima à Rua Larga (atual Avenida Marechal Floriano Peixoto). Álvaro Borgerth, Alfredo Reis e Duarte Fiuza eram os donos do estabelecimento.

Obras de unificação das antigas Rua Estreita de S. Joaquim e Rua Larga de São Joaquim, dando origem à Av. Marechal Floriano. Disponível em: http://www.rioquepassou.com.br/2010/07/21/antiga-rua-estreita-de-s-joaquim/

Com a abertura de novos ringues, entre eles o “Skating Rink”, onde se podia alugar patins e contar com o apoio de instrutores, paulatinamente a patinação foi se tornando uma “febre” na cidade. Em 1878, é lançado um periódico dirigido aos aficionados, sempre com a preocupação de apresentar a diversão como um exemplo de modernidade, estabelecendo ligação com hábitos europeus: o Skating-Rink: Jornal Humorístico e Litterario dos Patinadores (mais informações podem ser obtidas em http://www.assis.unesp.br/cedap/cat_periodicos/popup/skating_rink.html).

Curioso perceber como, nesse mesmo ano de1878, a patinação ocupou espaço frequente nas “Notas Semanais” que Machado de Assis publicava em O Cruzeiro. O literato abordou a prática sempre com um tom irônico, manifestando uma certa desconfiança. Em 7 de julho, por exemplo, afirma: “Dize-me se patinas, dir-te-ei quem és. Tal será dentro de pouco tempo o mote da suprema elegância”. Em 4 de agosto, é mais crítico:

 “A vida fluminense compõe-se agora de óperas, corridas, patinação e pleito eleitoral; é um perpétuo bailado dos espíritos. (…). A patinação, que eu disse acima ser parte componente da nossa vida atual, começa a adicionar alguns hors-d’oeuvre, como a ondina, moça que respira debaixo d’água. Não gosto de ver esta ondina enrodilhada com a patinação; cheira-me aos saraus dançantes do Clube Politécnico, — duas coisas bem pouco conciliáveis”.

 Os ringues de patinação foram se tornando verdadeiros complexos de entretenimento: grande número de atividades eram oferecidas. Curiosos eram os festivais de patinação fantasiada, bailes de máscaras sobre patins e patinação dançante com orquestras.

Nas décadas iniciais do século XX, um dos locais mais fashions de patinação era o Bar da Brahma, de propriedade da Companhia de Ferro Carril do Jardim Botânico, instalado ao lado da Estação de Bondes localizada na Praia do Leme. Podemos ver o estabelecimento na imagem abaixo, da década de 1910 (no canto inferior direito).

Foto disponível no sítio de André Decourt, “Foi um Rio que Passou”: http://www.rioquepassou.com.br/2006/08/10/leme-anos-10/

Como informa Luiz D’, o Bar da Brahma disponibilizava, além do ringue de patinação, um terraço na praia (acima podemos ver as mesinhas e cadeiras na areia), um stand de tiro, aparelhos para exercícios ginásticos, além de oferecer espetáculos musicais. A foto abaixo, de autoria de Augusto Malta, disponível em “Foi um Rio que Passou” (http://www.rioquepassou.com.br/2010/11/10/leme-bar-da-brahma-e-av-atlantica-1915/comment-page-1/), permite-nos ver mais de perto o estabelecimento (a Estação bem à direita, o bar na sequência, com telhado de zinco).

Nos dias de hoje, a patinação segue sendo praticada por muitas pessoas, tanto como esporte de competição quanto como opção de diversão. Já a Praia do Leme está realmente bem diferente:

 

 

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 Quando eu era moleque, as crianças gostavam muito de patinar. Que eu me lembre, havia 3 tipos de patins. Os mais ricos já podiam comprar patins com botas ou tênis instalados. A maioria, contudo, como era meu caso, só podia comprar um que se adaptava ao pé. Os mais pobres usavam um de plástico, que sempre dava problemas. Aliás, as rodas não tinham o desempenho de hoje em função do material de confecção. Juntando-se a isso as calçadas e ruas mal pavimentadas…tombos espetaculares!

Eu não cheguei a ter patins, preferi ganhar um skate, da marca Bandeirantes, igualzinho a esse abaixo (só que o meu era vermelho).

Moral da história: nunca aprendi a patinar. Para ser sincero, nem a andar de skate!

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Meu amigo e irmão Coriolano escreveu para o História(s) do Sport um belíssimo post sobre a patinação em Salvador. Confira aqui.

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No próximo post: o quadrado da Urca.


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