Peteca é coisa de carioca?

06/08/2011

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Na semana passada, meu querido amigo André Schetino publicou, no blog História(s) do Sport, um belíssimo post sobre a peteca em Belo Horizonte, dialogando com a dissertação de mestrado do também amigo Renato Machado dos Santos, que tive o prazer de orientar no Programa de Pós-Graduação em Lazer da UFMG.

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No Parque das Mangabeiras, em Belo Horizonte, há 10 quadras públicas de peteca. Foto e informação disponíveis no sítio da Federação Mineira de Peteca: http://www.fempe.com.br/files/quadras.htm.

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Indubitavelmente, Minas Gerais é a terra dos petequeiros. Na capital, Belo Horizonte, por exemplo, é comum encontrarmos quadras e apaixonados pela modalidade que é tanto um esporte quanto uma brincadeira infantil, uma prática que, segundo alguns estudiosos, já existia em muitas tribos indígenas do Brasil (ou pelo menos havia jogos muito parecidos).

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Tobdaé, a peteca dos Xavantes. Foto de Renata Meirelles. Disponível em http://img.socioambiental.org/v/publico/pibmirim/como-vivem/brincadeiras/IMG_0908.JPG.html

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Se Minas Gerais, notadamente Belo Horizonte, é a “meca” da peteca, ela também é praticada em muitos outros locais do país. Existem, por exemplo, federações em 8 estados. Sem falar nos milhares de praticantes informais espalhados por muitas cidades.

Nas praias do Rio de Janeiro também se pratica a peteca, como podemos ver na incrível foto de Sérgio Fonseca (disponível em http://www.papeldepao.com.br/arquivo.asp?mes=12&ano=2003).

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Na verdade, não é de hoje que alguns cariocas apreciam o jogo, que no passado se tornou mais uma das diversões daqueles que apreciavam as praias. Sabemos, inclusive, que uma das “estreias” mundiais da peteca, nos Jogos Olímpicos de Antuérpia (1920), se deu graças a nadadores cariocas que integravam a delegação brasileira, que praticavam o jogo nos seus horários livres.

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Angelo Gammaro, um dos nadadores da equipe olímpica brasileira em 1920.

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Os memorialistas da modalidade, aliás, informam que um dos precursores da modalidade em Belo Horizonte, Enéas Nóbrega de Assis Fonseca, teria conhecido a peteca no Rio de Janeiro, alguns informando, inclusive, que tal contato teria se dado no Clube de Regatas São Cristóvão.

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Foto de sócios e atletas do Clube de Regatas São Cristovão. Fonte: Careta, ano 1, número 27, 5 de dezembro de 1908.

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Na foto abaixo, vemos a prática da peteca no trecho final da Praia de Copacabana, na década de 1930. Destaca-se uma Avenida Atlântica ainda não duplicada e com muitas casas, imperando o ecletismo de estilos. Os trajes são mesclados: uma das mulheres já usa um maiô curto para os padrões da época, enquanto outras usam vestido. Os homens estão de camisa, provavelmente por não se tratar de um dia com muito sol.

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Já as imagens abaixo, disponíveis nos fotologs Rio de Fotos e Saudades do Rio, mostram que, na década de 1940, a peteca continuava sendo praticada. Vemos que a Praia de Copacabana já possuía um maior número de prédios.

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Foto de acervo do Silva, disponível em http://fotolog.terra.com.br/nder:1009

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Foto do acervo do Sr. Souza, disponível em http://fotolog.terra.com.br/sdorio:1357

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A bela fotografia de Jean Mazon nos mostra que a juventude dourada nos anos 1950 seguia praticando a peteca. Os costumes mudavam, a praia cada vez mais se tornava espaço de encontros e flerte, na orla de Copacabana as casas davam espaço aos prédios, para atender o grande número de interessados em viver perto do “paraíso”.

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Entre os amantes do jogo no Rio de Janeiro, como podemos ver na foto abaixo, se encontrava Joaquim Rolla, proprietário do Casino da Urca, que integrava várias equipes de peteca.

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Foto de Indalecio Wanderley. Disponível no fotolog Arqueologia do Rio de Janeiro: http://fotolog.terra.com.br/bfg1:498

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Mesmo que a peteca já não seja tão praticada no Rio de Janeiro como antes, como vimos na primeira imagem ela ainda se faz presente no cotidiano do carioca, não nos deixando esquecer sua trajetória em nossa cidade.

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Algumas diversões do passado já não mais existem nas praias do Rio de Janeiro. Por exemplo, em nossas areias houve época em que o tamborete era muito praticado.

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Material para a prática do tamborete. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1504

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Já o frescobol tem vida mais longa, até hoje marcando presença em nosso litoral.

Ambos merecerão posts no futuro.

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No próximo post – O Hotel Central e os banhos de mar

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O surfe: uma novidade nas praias

30/07/2011

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Depois de receber, em maio, uma etapa do ASP World Tour, o campeonato mundial da Associação de Surfistas Profissionais, a Praia do Arpoador nessa semana sediou o SuperSurf ASP World Masters Championship, que reúne os surfistas mais velhos que fizeram história na modalidade.

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Na etapa do ASP World Tour realizada no Arpoador, sagrou-se vencedor Adriano de Souza, que se tornou o primeiro brasileiro a liderar o ranking mundial

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A Praia do Arpoador, que já recebera outras etapas do mundial (inclusive em 1976, ano da criação do circuito), é considerada um dos berços do surfe brasileiro. Por lá, no que antes era uma praia distante e deserta, a modalidade deu alguns de seus primeiros passos e passou por mudanças dialogando com a cidade em transformação.

A praia foi assim denominada, no século XVIII, porque os seus famosos rochedos abrigaram muitos arpoadores de baleias, quando essa prática era importante na economia da cidade. Foi só mesmo na década final do século XIX que a região começou a ser habitada, permanecendo a pouca densidade populacional até a década de 1940.

Abaixo uma foto do Arpoador no início do século XX, disponível no fotolog de Luiz Darcy.

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Como podemos ver na foto abaixo, na década de 1950 a região já estava mais habitada. Já se percebe ao fundo (no meio da foto) alguns prédios. O morro da lateral direita da imagem é o atual Parque Garota de Ipanema.

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É nessa década que um grupo da juventude dourada da Zona Sul começa a assustar os banhistas descendo as ondas em cima de “tábuas de madeira”. As primeiras pranchas, pesadas e de madeira, no decorrer da década seriam substituídas por outras confeccionadas de fibra de vidro, que facilitaram a prática. Na verdade, muitos já “pegavam jacaré” com pequenas pranchas de madeira, depois substituídas por de isopor, e pés de pato.

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Pranchas de surfe encostadas na Estação Telegráfica que existiu durante décadas no Arpoador. 1959. Destaque para o padrão das pinturas. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:472

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Abaixo vemos mais um flagrante da novidade. Um dos surfistas já usava uma bermuda com motivos florais.

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Surfistas no Arpoador. Década de 1960. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1348

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No contexto de uma cidade que valorizava cada vez mais a praia e a natureza (até mesmo porque crescia rapidamente), o surfe foi se popularizando. A chegada das pranchas confeccionadas com poliuretano, mais leves e ágeis, contribuiu para esse processo. Logo o mar do Arpoador estaria pontilhado de surfistas, como podemos ver na foto abaixo, disponível no fotolog Saudades do Rio (http://fotolog.terra.com.br/luizd:1019).

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Na década de 1970, o surfe seguiria a trilha de popularização. Nos anos iniciais, momentaneamente o point se transferiu para Ipanema, em função de um fato em certa medida inusitado: a instalação de um Píer.

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A estrutura foi montada para a instalação de uma tubulação que jogaria o esgoto da região no alto mar. Isso interferiu na formação das ondas, atraindo os surfistas.

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Píer de Ipanema. 1974. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/sdorio:2317

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Na areia também houve mudanças, com a formação de dunas. A região atraiu artistas, intelectuais, hippies, descolados em geral. Os surfistas passaram a dialogar mais constantemente com as ideias de contracultura, amor livre, uso de drogas.

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Uma nova juventude se forjava em uma cidade em rápida mudança e o surfe de alguma forma assumia o papel da prática esportiva preferida de um determinado grupo nesse momento.

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Na década de 1980, o surfe definitivamente conformar-se-ia como modalidade profissional. Sua popularidade aumentaria ainda mais: sua presença tornaria-se constante no cinema, nas rádios, nas emissoras de televisão.

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Arduíno Colassanti foi um dos símbolos dessa nova juventude dourada da Zona Sul. Foi um dos pioneiros do surfe e da caça submarina, símbolo sexual e ator em muitos filmes, inclusive tendo protagonizado o primeiro nu frontal masculino do cinema brasileiro, em “Como era gostoso meu francês”, de Nelson Pereira dos Santos.

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Arduíno Colassanti. Anos 1960. Disponível em http://therabadasport.wordpress.com/2008/09/

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Vale a pena uma visita à página do Museu Benett Foam, com imagens de pranchas antigas: http://therealsurfer.sites.uol.com.br/evolucaoprancha.htm#d

Abaixo três modelos pioneiros de pranchas. A de 1949 é provavelmente uma das mais antigas do país. A do meio é de madeirite. A da direita foi confeccionada pela primeira fábrica do Brasil: a São Conrado Surfboards.

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No próximo post – Peteca é coisa de carioca?

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Antes do templo do futebol, o palco dos cavalos: o Derby

23/07/2011

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Para os antigos frequentadores do Maracanã, nome como é mais conhecido o Estádio Jornalista Mário Filho, templo mítico do futebol mundial, as referências ao Derby não são desconhecidas. Jornalistas, por exemplo, em sua linguagem própria de narrar o espetáculo esportivo, constantemente, com diferentes conotações, faziam (e ainda fazem) uso do termo. A própria estação de trem que se localiza próximo ao “Maraca”, tão utilizada pelos torcedores em dias de jogos, durante muitos anos se denominou “Derby”.

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Cabine de controle da estação Derby Club em 1941. Disponível em http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_rj_linha_centro/fotos/maracana9411.jpg

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Essa estação foi criada em 1885, para atender os interessados em uma prática que cada vez mais se tornava popular na cidade: o turfe. Naquelas redondezas do Rio Maracanã, próximo à linha férrea, nesse mesmo ano fora inaugurado o hipódromo de um dos mais importantes clubes da história do Rio de Janeiro, o Derby Club, liderado pelo engenheiro André Gustavo Paulo de Frontin.

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O Prado foi instalado em terras compradas da Condessa do Itamaraty e foi um dos responsáveis pelo sucesso do Derby, pois se localizava mais próximo da região central e melhor atendido pela deficiente rede de transportes da cidade à época.

No mapa abaixo, de 1913 (disponível no belo sítio de Celso Serqueira: http://serqueira.com.br/mapas/derby.htm), podemos ver o hipódromo do Derby no mesmo lugar onde hoje se encontra o Maracanã. Podemos ver a linha férrea, a Quinta da Boa Vista e muitas ruas que mantém o mesmo nome (Ibituruna e Professor Gabizo, por exemplo).

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Confortável, oferecendo preços mais acessíveis para entrada e mais oportunidades para apostar (poules mais baratas), o prado logo se tornou o preferido de um amplo estrato da população, tanto de uma burguesia urbana em formação (que depois se envolveria com os clubes de remo) quanto dos mais populares.

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Prado do Derby Club lotado, em 1911. Destaca-se o grande número de automóveis e as arquibancadas lotadas. Foto publicada na Revista Ilustrada. Disponível em http://serqueira.com.br/mapas/derby.htm

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O antigo e tradicional Jockey Club chegou a financeiramente sentir o sucesso da nova agremiação. Na verdade, como podemos ver no mapa abaixo (disponível no fotolog “Saudades do Rio – O Clone”), a distância entre os hipódromos de ambos nem era tão grande, mas o Derby expressava melhor as novas ordenações políticas e econômicas da cidade, sendo uma expressão da ascensão burguesa.

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Na foto abaixo, do início do século XX, do acervo de George Ermakoff, disponível no fotolog “Zona Norte”, podemos ter uma ideia melhor do formato do hipódromo e visualizar como o Maracanã futuramente nesse mesmo espaço seria construído. Para que possamos nos orientar, embaixo da foto podemos ver a linha férrea. No meio da curva (ainda embaixo), a grande casa branca é o antigo museu do índio (hoje um prédio abandonado). Ao fundo, na parte superior, vemos os bairros da Tijuca e Vila Isabel. Não existia ainda a Avenida Maracanã e a Radial Leste.

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Para quem dúvida que as provas de turfe pudessem ser tão emocionantes quanto os atuais jogos de futebol, basta ver a beleza da imagem abaixo (disponível no fotolog “Rio de Fotos). O Derby, aliás, foi o primeiro da cidade a usar o cronômetro eletrônico e fotos para dirimir dúvidas nos resultados, novidades do progresso bem ao estilo do grupo prioritário de sócios.

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O Prado Itamaraty certamente acolheu incríveis disputas, acompanhadas com fervor por um público que mal conseguia se conter, a despeito das exigências da modernidade: o espaço público passa a ser valorizado, mas sua ocupação deve ser feita com parcimônia, uma ambiguidade típica daqueles novos tempos.

Em outras ocasiões voltaremos a abordar o turfe, o primeiro esporte a se estruturar em parâmetros modernos na cidade.

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Um dos personagens mais importantes do turfe é o jóquei. Encarado por alguns como forma de ascensão social, ocupando um papel intermediário entre o grande público, os sócios de clubes e os criadores de cavalos, em suas mãos se encontravam os sonhos de muitos que desejavam enriquecer (e a ruína de muitos que não conseguiram).

Personagens muitas vezes injustiçados, perseguidos, considerados culpados de problemas nos quais desempenharam um papel apenas coadjuvante, merecem sempre uma referência e reverência.

Abaixo uma imagem de jóqueis que disputaram páreos no Derby Club, em 1911, trajando as fardas com as cores de seu haras e coudelarias.

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No próximo post – O surfe: uma novidade nas praias cariocas

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Uma antiga sacada no litoral carioca: o vôlei de praia

16/07/2011

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A intensa relação dos cariocas com o litoral de sua cidade, algo que marca a sua construção identitária, é mais recente do que por vezes pensamos. É somente em meados do século XIX que as praias começaram a ser mais procuradas: primeiro como opção terapêutica (os banhos de mar como indicação médica), depois como espaço de diversão. Progressivamente, tornaram-se lugar privilegiado de encontros e de prática das mais diferentes atividades de lazer. Entre essas, destaca-se o vôlei de praia.

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Projeto de arena que abrigará o vôlei de praia nos Jogos Olímpicos de 2016/Rio

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É somente nos anos finais da década de 1980 que a modalidade foi oficialmente reconhecida pelas entidades esportivas internacionais, pavimentando o caminho que a levou aos Jogos Olímpicos. Todavia, já na década de 1920 há registros de jogos de vôlei realizados em praias norte-americanas.

Ao que tudo indica, nessa década, também no Rio de Janeiro já havia praticantes do vôlei de praia, como podemos ver no centro da bela foto abaixo, disponível no fotolog “Carioca da Gema”: trata-se da Praia de Copacabana, na altura do posto 6 (próximo ao Forte), no ano de 1927. Curioso é o grande público que acompanhava a partida.

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Um passeio pelas imagens disponíveis nos fotologs dedicados ao Rio antigo nos permite encontrar várias evidências da prática do vôlei nas praias cariocas. Nas fotos abaixo, disponíveis em “Rio de Fotos” e “Saudades do Rio”, podemos ver, na primeira, os jogadores e a rede atrás das personagens principais, na Praia de Copacabana, em 1941; na segunda, os postes para montar a rede, na Praia de Copacabana, com a Avenida Atlântica ainda não duplicada (1947).

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Já a foto abaixo é dos anos 1950 e capta uma tradicional rede de vôlei que se localizava em frente ao Hotel Miramar (Copacabana). Nessa década, a prática já era muito popular e começaram a ser promovidos campeonatos mais organizados.

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Uma partida de um desses campeonatos, patrocinado pelo Jornal dos Sports, pode ser vista na imagem abaixo (Praia de Copacabana, década de 1960), disponível no magnífico fotolog de Luiz D’. Segundo sua descrição, uma das equipes era a da rede Reno, que se localizava na Praia de Ipanema. Luiz lembra ainda que jogava pela equipe Tatuís, cuja rede ficava no Posto 6.

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É também Luiz D’que dá um belo depoimento sobre uma das redes que se espalhavam pelas praias: a Lagosta, que se localizava na altura do Posto 8, Ipanema. Luiz lembra que a rede existiu por mais de 40 anos, servindo de local de encontros no qual se forjaram grandes amizades. Vale a pena ler seu relato completo em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1557. Podemos aí saber da dinâmica de funcionamento do grupo, a partir do olhar apaixonado de um frequentador.

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Rede Lagosta, anos 1960. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1244

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Nos comentários de um dos posts de Luiz D’ sobre tal rede, podemos perceber que muitos que frequentaram espaços similares manifestam a mesma alegria e saudade ao lembrar as histórias dos grupos com os quais se envolviam para praticar o vôlei nas praias.

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Rede Lagosta, década de 1970. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:2132

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Esses espaços/grupos menos academicamente discutidos estão certamente entre os temas mais importantes no que se refere ao estabelecimento de uma forte relação entre o esporte e a cidade, algo que nos diz muito sobre a construção de discursos sobre o que é ser carioca.

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Morador do subúrbio do Rio (como já disse antes, do glorioso Bairro Jabour), quando criança/adolescente pouco joguei vôlei nas praias, mas vivenciei o boom do esporte nos anos 1980. A molecada assistia às partidas da seleção brasileira pela televisão (se não me engano pela Record, narradas pelo Luciano do Vale) e no dia seguinte se reunia para jogar, sonhando em reproduzir as proezas dos atletas brasileiros (inclusive o espetacular saque Jornada nas Estrelas).

Havia, contudo, um problema: era caro o equipamento! Para não deixarmos de jogar, improvisávamos: uma bola qualquer que não machucasse muito o braço, uma corda como rede, o chão marcado com giz. A precariedade não tornava menos divertidos nossos jogos!

Em nome da saudade desses tempos, apresento uma rara imagem de um jogo de vôlei disputado no bairro da Penha nos anos 1950.

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As diferenças com o que se praticava na Zona Sul são notáveis, mas quem pode dizer que eram situações menos divertidas?

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Próximo post – “Um lugar esportivo: o Derby/Maracanã”

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Nas escolas: a Educação Física

09/07/2011

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Embora a Educação Física tenha mais profusamente se difundido nas escolas brasileiras a partir da década de 1920, já no século XIX podemos identificar sua existência em diferentes níveis de ensino, com distintos formatos. Da mesma forma, naquele momento surgem os primórdios de uma preocupação governamental com a disciplina, refletida inclusive nas tentativas de elaboração de uma legislação específica.

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Lição de ginástica sueca para os alunos do Colégio Pedro II (1909)

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De fato, desde 1823, logo após o país tornar-se independente, já se falava em Educação Física nos projetos de estímulo e estruturação do ensino nacional. Em muitas outras propostas e regulamentos, a partir de então, seria considerada como uma possível disciplina escolar.

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Atividades físicas oferecidas para as alunas do Instituto Profissional Feminino (futuro Orsina da Fonseca), colégio fundado, no Rio de Janeiro, em 1897. Foto disponível em http://www.flickr.com/photos/andre_so_rio/150443097/in/photostream/

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Não foi fácil introduzir a disciplina nas escolas públicas brasileiras, não só por problemas operacionais típicos de um sistema de ensino que ainda tentava se estruturar (por exemplo, a ausência de espaços adequados), mas também por existirem resistências ao caráter e à natureza das atividades físicas: havia uma supervalorização do “intelectual” e uma desvalorização das práticas “manuais”, encaradas de forma depreciativa.

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Demonstração de Educação Física na Escola Rivadávia Correia, 1921. Foto de Augusto Malta, disponível em http://fotolog.terra.com.br/nder:1117

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Quais escolas teriam, no século XIX, introduzido a disciplina nas suas grades curriculares? Em 1941, a Divisão de Educação Física, primeiro órgão federal ligado à área estabelecido no âmbito federal, por ocasião da publicação das estatísticas referentes aos levantamentos anuais que realizava entre os colégios, informava que 15 escolas afirmaram possuir Educação Física a mais de 50 anos e 18 a mais de 40 anos.

A disciplina era oferecida majoritariamente em escolas de origem estrangeira, entre as quais devem ser destacadas as dirigidas por congregações religiosas, e nas nacionais que estavam sintonizadas com os avanços pedagógicos mundiais.

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Colégio Abílio, em Botafogo, criado em 1871 pelo Barão de Macaúbas. É citado por Raul Pompéia em “O Ateneu”. Com métodos avançados para a época, oferecia aos alunos esportes e atividades físicas. Disponível em http://www.flickr.com/photos/11124678@N02/2445772842/in/photostream/

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No caso de instituições públicas, devem ser destacadas as Escolas Normais e o Colégio Pedro II, além das escolas militares.

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Parque esportivo do Colégio Militar do Rio de Janeiro, fundado em 1889. Postal de A. Ribeiro, coleção Klerman Wanderley Lopes Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1250

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O século XX traria um conjunto de novas dimensões sociais e culturais, entre as quais interesses econômicos e/ou relacionados à construção de uma identidade nacional, que criaria as condições para que a disciplina definitivamente se implantasse nas escolas brasileiras, ainda que por vezes siga persistindo uma certa desvalorização frente as outras matérias.

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Próximo post – “Uma novidade nas praias – o vôlei”.

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O green: o golfe no Rio de Janeiro

01/07/2011

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Vejamos a foto abaixo. Quem diria que ela tem relação com uma modalidade esportiva?

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Trata-se de uma fazenda que existia onde hoje está instalada a mais antiga agremiação de golfe do Rio de Janeiro: o Gávea Golf and Country Club.

A exemplo de congêneres europeus, o clube foi instalado em uma, na época, região pouco habitada e afastada do centro urbano, a qual se chegava com dificuldades pela ausência de bom sistema de transporte: Gávea/São Conrado.

Nas imagens abaixo, disponíveis no fotolog “Saudades do Rio”, vemos a localidade na década de 1910.

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Em 1926, um grupo de altos funcionários, de origem inglesa, da Tramway, Light & Power, instalou, em terras adquiridas da empresa que trabalhavam, a sede do Rio de Janeiro Golf Club, que fora fundado em 1921. Na imagem abaixo, da década de 1940, podemos ver a beleza da sede do Gávea Club (novo nome do clube).

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Nas fotos abaixo podemos ver a diferença das redondezas do clube: a em preto e branco é da década de 1930 (e está disponível em http://fotolog.terra.com.br/sdorio:943), a colorida é um panorama aéreo atual.

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O clube, com uma sede cada vez mais confortável, começou a atrair a elite econômica e política da, na época, capital do país, passando a ser local obrigatório de visitas dos estrangeiros ilustres que a cidade visitavam. Na verdade, governantes eram presenças constantes, convidados pela direção, uma forma de demonstrar proximidade com o poder, mas também de obter certos benefícios para a agremiação.

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Sócios do clube em reunião no ano de 1928. Acervo de Myriam Gewerc. Disponível em http://www.rioquepassou.com.br/2008/08/15/gavea-golf-country-club-1928/

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O perfil dos associados pode ser percebido pela elegância das vestimentas, como podemos ver na imagem acima e na foto abaixo:

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Com esse perfil, não surpreende que determinadas propagandas tenham feito relação dos produtos anunciados com o golfe, como vemos no caso dos cigarros Hollywood, em reclame publicado em 1950, na revista A Sombra (disponível em http://fotolog.terra.com.br/reclames_antigos:375).

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O Gávea Golf não é o único clube da modalidade da cidade. Desde 1933, existe também o Itanhangá Golf Club, que ainda mais do que a agremiação de São Conrado nasceu com a ideia de ser um country club, no modelo dos europeus.

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Foto da inauguração do Itanhangá Golf Club. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1212

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Oferecia-se ao sócio a possibilidade de construir chalés, que poderiam ser usados para hospedagens nos fins de semana ou férias. Devemos lembrar que esse clube se localizava ainda mais distante do centro urbano, nas longínquas terras da Barra da Tijuca.

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Imagem do Google Maps. As indicações (a) e (c) são o Itanhangá; a (b) é o Gávea.

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Como no caso do Gávea, o Itanhangá logo virou um centro de encontro da elite carioca, inclusive de políticos e dirigentes.

Abaixo vemos uma cena de Getúlio Vargas, no Itanhangá, praticando seu esporte favorito. Algumas versões dizem que o presidente passou a frequentar preferencialmente essa agremiação por causa da facilidade do trajeto.

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Os clubes de golfe, enfim, eram uma expressão dos desejos de status e distinção de uma elite urbana que se consolidava na cidade, na mesma medida em que ajudavam a construir a ideia de cidade maravilhosa, sendo também apresentados como atrações turísticas que demonstravam as belezas da capital da República.

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Os clubes apresentados como atração em guia turístico que indicava circuitos de passeios pelo Rio de Janeiro. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/sdorio:331

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Uma foto de Getúlio Vargas jogando golfe é a capa da recém lançada edição de Recorde: Revista de História do Esporte. Vale a pena acessar!

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Próximo post – “Nas escolas: a Educação Física”.

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“É o novo ground”: o Clube de Regatas do Flamengo

25/06/2011

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Em nosso último post, apresentamos uma foto do campo do Paysandu Cricket Club, localizado nas Laranjeiras, na ocasião ocupado pelo Clube de Regatas do Flamengo, que por lá realizava seus jogos de futebol. Independentemente das preferências clubísticas, é essa uma das mais importantes agremiações da cidade.

Não passou despercebida a importância do clube a João do Rio, um dos literatos que melhor expressou o conjunto de mudanças que marcou o Rio de Janeiro na transição dos séculos XIX e XX. Em sua crônica A hora do football, publicada no livro Pall-Mall Rio, o inverno carioca de 1916 (lançado em 1917), o escritor observa a redução das resistências para com os esportes, que progressivamente tornavam-se uma prática valorizada pelos “modernos”:

“Fazer sport há vinte anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça, quando um dos meninos arranjava um altere. Estava perdido. Rapaz sem um pince-nez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era um homem estragado. E o Club de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde irradiou a avassaladora paixão pelos sports”.

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João do Rio

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Na visão de João do Rio, “O Club de Regatas do Flamengo tem, há vinte anos pelo menos, uma dívida a cobrar dos cariocas. Dali partiu a formação das novas gerações, a glorificação do exercício físico para a saúde do corpo e a saúde da alma”. Fundado como Grupo de Regatas, em 1895, seus associados eram principalmente jovens pertencentes aos setores urbanos das elites, entusiastas e praticantes do remo, habituées dos banhos de mar.

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Segunda sede do Flamengo, construída em 1920, no mesmo local onde fora fundado o Grupo de Regatas. Disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:990

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Conta Mário Filho, de forma romanceada, que por ocasião da criação do Flamengo, observando o entusiasmo dos jovens envolvidos, o padre Nattuzi procurou o Dr. Lourenço Cunha, pai de José Agostinho (um dos fundadores), lhe perguntando se não ficava preocupado com tamanho interesse, pois a fama das regatas “não era lá das melhores”. Cunha teria respondido que acreditava no esporte como uma escola de formação e disciplina, uma prática saudável, por isso não se importava.

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O fato é que depois de superada certa sensação de estranhamento ou desprezo por parte da população local, a sede do Flamengo, localizada na Praia do Flamengo, 22 (hoje número 66), tornou-se um centro de encontros, um local muito procurado por um setor da juventude que adotava novos parâmetros de sociabilidade e de exposição corporal: “Rapazes discutiam muque em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculana dos braços. Era o delírio do rowing, era a paixão dos sports” (João do Rio).

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A segunda sede foi destruída em 1979. No local hoje se encontra um prédio de escritórios. Foto disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:896

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A praia do Flamengo, na verdade, transformou-se num dos lugares mais fashions da cidade. O Hotel Central, um dos primeiros balneários da cidade, oferecia boas condições para os que desejavam com conforto se deliciar com os banhos de mar (futuramente dedicaremos a esse hotel um post). Regatas eram disputadas nas águas da Baía de Guanabara.

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Regata na Praia do Flamengo, em frente à sede do Clube, década de 1920. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/nder:1557

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Devemos também lembrar que o clube estava muito próximo do Palácio do Catete, chegando a compartilhar com a Presidência da República o cais que se localizava em frente à propriedade (podemos vê-lo na imagem abaixo).

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Detalhe de um postal da década de 1910, disponível no fotolog “Foi um Rio que Passou”, de André Decourt: http://www.rioquepassou.com.br/2004/03/21/1590/

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O futebol só entra na história do Clube em 1911, com a chegada de um grupo de jogadores dissidentes do Fluminense. Os primeiros treinos foram realizados em um campo aberto localizado na Glória, nas redondezas da sede.

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Campo onde o primeiro time de futebol do Flamengo treinava. Glória, 1911. Ao fundo o centro da cidade bastante iluminado. Acervo de Francisco Patrício. Disponível em http://www.rioquepassou.com.br/2005/12/20/gloria-e-centro-15-de-novembro-de-1911/

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Poucos anos depois a equipe de futebol passou a realizar seus jogos no antigo campo do Paysandu. A acreditar em João do Rio, foi uma festa a primeira partida do clube nessas dependências:

“O campo do Flamengo é enorme. Da arquibancada eu via o outro lado, o das gerais, apinhado de gente, a gritar, a mover-se, a sacudir os chapéus. Essa gente subia para a esquerda, pedreira acima, enegrecendo a rocha viva. Embaixo a mesma massa compacta. E a arquibancada, o lugar dos patrícios no circo romano era uma colossal, formidável corbelha de belezas vivas, de meninas que pareciam querer atirar-se e gritavam o nome dos jogadores, de senhoras pálidas de entusiasmo, entre cavalheiros como tontos de perfume e também de entusiasmo”.

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Primeiro time de futebol do Flamengo. Em pé: Lawrence, Amarante, Píndaro, Baena, Nery e Gallo. Sentados: Curiol, Arnaldo, Zé Pedro, Miguel e Borgerth. Disponível em http://www.maisfla.com/noticias/do-inicio-do-futebol-ao-fim-do-amadorismo/

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A despeito da importância de sua ligação com o esporte náutico, o Flamengo entraria mesmo para a história pela popularidade que angariaria no futebol.

Tinha mesma razão o grande João do Rio: “Não! Há de fato uma coisa séria para o carioca: o football!”.

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Na década de 1930, o Flamengo começa a se transferir para a Gávea, onde construiria um estádio e a atual sede. Na década de 1950, contudo, construiu uma sede no Morro da Viúva. Esse prédio, que hoje se encontra em condições não totalmente adequadas de preservação, está sendo negociado com o mega-empresário Eike Batista para ser transformado em um hotel de luxo.

Será que ele vai comprar a cidade toda?

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Não foi exatamente a minha preferência clubística que me levou a preparar esse post (inclusive futuramente serão dedicados posts a outros importantes clubes da cidade). De qualquer forma, a minha relação com o Flamengo é algo que marca profundamente minha memória e minha história. Já escrevi algumas coisas sobre isso, disponíveis no blog A Lenda, do amigo Rafael Fortes, e no sítio do Sport, laboratório que coordeno.

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Na próxima semana, o green! O golfe no Rio de Janeiro.

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