O pólo aquático: um esporte coletivo nas águas da Baía de Guanabara

20/08/2011

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De novo a Praia de Santa Luzia, em “Rio, Cidade Sportiva” já citada em outras ocasiões (ver “O Hotel Central e os banhos de mar“, “Braços fortes: o remo e a celebração da cidade moderna“, “Sítios sportivos: a Praia de Santa Luzia“). Essa parte do litoral carioca, localizada bem no centro da cidade, foi mesmo um dos locais pioneiros da prática esportiva no Rio de Janeiro: o hábito dos banhos de mar, ali comuns, acabou por gerar sociabilidades que deram origem a clubes cujos sócios se dedicavam ao remo, à natação e à modalidade-tema de nosso post de hoje: o pólo aquático.

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Fonte: Careta, ano 7, número 306, 2 de maio de 1914

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            Acima vemos duas fotos do Club de Natação e Regatas, fundado em 1896, cuja sede se localizava na Rua de Santa Luzia. Foram sócios dessa agremiação, já envolvidos com o remo e com a natação, alguns dos primeiros a protagonizar os pioneiros jogos de pólo aquático no país, uma modalidade que na Europa, por vezes chamada de rugby ou futebol aquático, já atraía grande público e envolvia muitos praticantes, tendo inclusive feito parte da programação dos Jogos Olímpicos desde a edição de 1900 (Paris), o primeiro esporte coletivo a integrar esse evento.

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Fonte: Les Sports Illustres (Librairie Larousse, 1905). Disponível em http://www.sunrisemusics.com/olimpiadas.htm

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Como podemos ver na imagem acima, um flagrante de uma partida disputada nos Jogos Olímpicos de 1900 (Paris), o pólo aquático era jogado no mar ou em rios, com um material ainda improvisado (pelo menos se compararmos ao atual).

No caso do Rio de Janeiro, depois de muitos jogos disputados na Praia de Santa Luzia, as partidas começaram a ser realizadas na Urca, na Praia Vermelha e na Praia da Saudade, notadamente após 1908, quando o bairro começou a se consolidar por ter recebido importantes obras de urbanização ligadas à Exposição Nacional, realizada para comemorar o centenário da abertura dos portos.

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Cais da Urca por ocasião da Exposição Nacional de 1908. Postal da Companhia Lith. Hartmann-Reichenbach. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:2013

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Abaixo vemos imagens de um evento realizado na Praia da Saudade em 1914. Destacam-se, na primeira foto, os barcos de remo estabelecendo os limites do espaço de jogo. Os árbitros se postam na parte inferior direita, em cima de uma bancada, e ao centro, em um palanque, ambos montados no mar. Na segunda foto podemos ver o público ocupando o que hoje é a ponte que compõe o Quadrado da Urca.

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Fonte: Careta, ano 7, número 294, 17 de janeiro de 1914

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As fotos dos jogadores reforçam as noções de masculinidade e vigor físico, tão comuns nas imagens de homens esportistas difundidas naquele momento. Se o remo já se apresentara como a modalidade ajustada a tal construção simbólica, o pólo aquático a exacerbara, até mesmo porque os choques corporais são comuns nesse esporte que exige grande esforço. Entende-se, assim, o imaginário de violência construído ao redor da prática.

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Equipes do Club Internacional, Guanabara, São Cristóvão e Icaraí. Fonte: Careta, ano 7, número 294, 17 de janeiro de 1914

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As praias da Urca seguiram sendo durante anos o principal lugar do pólo aquático na cidade, ainda mais com as reformas realizadas por ocasião da Exposição Internacional de 1922, que delinearam o Quadrado da Urca, especialmente construído para servir de piscina às competições internacionais promovidas no âmbito dos festejos de celebração da independência (os Jogos do Centenário) (já discutimos esse tema em post anterior).

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Piscina/Quadrado da Urca/1922. Fonte: Revista da Semana, 23 de setembro de 1922. Disponível em “Foi um Rio que Passou”, de André Decourt, http://www.rioquepassou.com.br/2006/08/11/quadrado-piscina-da-urca-campeonato-nautico-sulamericano-1922/

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Nesse momento, o Brasil já tinha enviado uma equipe de pólo aquático para os Jogos Olímpicos de 1920 (Antuérpia), na primeira participação do país no evento. A equipe foi formada por Adhemar Ferreira Serpa (que também participou das provas de natação), Agostinho de Sá, Alcides de Barros Paiva, Angelo Gammaro (que também participou das provas de natação), Carlos Lopes, Edgard Leite Ribeiro, João Jório (que também participou das provas de natação e remo), Orlando Amendola (que também participou das provas de natação e remo), Victorino Ramos Fernandes e Abrahão Saliture (que, já com 37 anos, também participou das provas de natação; sobre esse incrível atleta brasileiro, ver post em De Olho no Sport).

Mesmo com muitas dificuldades, a equipe brasileira chegou as quartas de final. Depois de vencer a França na fase eliminatória (1 x 1 no tempo normal, 6 x 2 na prorrogação), foi eliminada pela Suécia (7 x 3), obtendo o 6º lugar.

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Foto da equipe brasileira de pólo aquático nos Jogos Olímpicos de 1922 (sem Adhemar Ferreira Serpa, Carlos Lopes e Abrahão Saliture). Fonte: Atlas do Esporte no Brasil. Disponível em http://www.atlasesportebrasil.org.br/textos/215.pdf

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 Nas décadas de 1920 e 1930, o pólo aquático seguiria sendo disputado nas águas da Baía de Guanabara. A foto abaixo, de 1926, disponível no belíssimo fotolog “Carioca da Gema”, de Roberto Tumminelli, é informada como sendo de um campeonato disputado na Lagoa Rodrigo de Freitas. Os comentários no post contestam tal informação, sugerindo que trata-se da enseada de Botafogo, em frente à antiga sede do Clube de Regatas Botafogo. Ao fundo, veríamos o Morro do Pasmado. É fato que a Lagoa nunca possuiu boas condições para o pólo aquático, em função do fundo muito lodoso. De qualquer forma, trata-se de uma linda imagem.

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 A modalidade teria novo impulso quando passou a ser praticada nas piscinas, que no Rio de Janeiro foram construídas a partir da década de 1930. Aqui devemos falar do Clube de Regatas Guanabara, que até hoje mantém suas equipes de pólo aquático.

 Fundado em 1899, às margens da enseada de Botafogo, por um grupo de sócios dissidentes do Clube de Regatas Vasco da Gama, o Guanabara, em 1935, inaugurou a primeira piscina olímpica do Brasil, palco de muitas glórias dos esportes aquáticos nacionais.

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Piscina do Clube de Regatas Guanabara. Disponível em: http://www.rioquepassou.com.br/2005/06/03/clube-de-regatas-guanabara-iii/

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 Como se pode ver, a piscina foi instalada dentro da Baía de Guanabara. As águas salgadas privilegiavam a flutuação, atraindo atletas que buscavam bater recordes. Na foto abaixo, de 1935, podemos ter uma ideia melhor de como a piscina se inseria na paisagem da enseada.

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Disponível no fotolog Saudades do Rio, de Luiz D’: http://fotolog.terra.com.br/luizd:1282

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Essa paisagem mudou completamente a partir da década de 1950, com a construção do Túnel do Pasmado, de novas pistas na Praia de Botafogo e de novos aterros na enseada. A essa altura, os jogos de pólo aquático já eram disputados nas muitas piscinas que foram construídas pela cidade, até porque as águas da Baía de Guanabara já estavam mais poluídas (além do que eram menos confortáveis do que as instalações em clubes).

O pólo aquático teria grande desenvolvimento quando pela cidade se instalara o húngaro Aladar Szabo, já no final da década de 1950. Mas isso é assunto para outro post.

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O Club de Natação e Regatas existe até os dias de hoje com outro nome: Clube de Natação e Regatas Santa Luzia. Sua sede se localiza nas proximidades do Aeroporto Santos Dumont e do Museu de Arte Moderna.

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O Natação e Regatas, entre tantos outros antigos clubes que ainda existem, merecem mais atenção por sua importância para a memória não só do esporte como da cidade como um todo.

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No próximo post – O Germânia

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“É o novo ground”: o Clube de Regatas do Flamengo

25/06/2011

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Em nosso último post, apresentamos uma foto do campo do Paysandu Cricket Club, localizado nas Laranjeiras, na ocasião ocupado pelo Clube de Regatas do Flamengo, que por lá realizava seus jogos de futebol. Independentemente das preferências clubísticas, é essa uma das mais importantes agremiações da cidade.

Não passou despercebida a importância do clube a João do Rio, um dos literatos que melhor expressou o conjunto de mudanças que marcou o Rio de Janeiro na transição dos séculos XIX e XX. Em sua crônica A hora do football, publicada no livro Pall-Mall Rio, o inverno carioca de 1916 (lançado em 1917), o escritor observa a redução das resistências para com os esportes, que progressivamente tornavam-se uma prática valorizada pelos “modernos”:

“Fazer sport há vinte anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça, quando um dos meninos arranjava um altere. Estava perdido. Rapaz sem um pince-nez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era um homem estragado. E o Club de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde irradiou a avassaladora paixão pelos sports”.

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João do Rio

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Na visão de João do Rio, “O Club de Regatas do Flamengo tem, há vinte anos pelo menos, uma dívida a cobrar dos cariocas. Dali partiu a formação das novas gerações, a glorificação do exercício físico para a saúde do corpo e a saúde da alma”. Fundado como Grupo de Regatas, em 1895, seus associados eram principalmente jovens pertencentes aos setores urbanos das elites, entusiastas e praticantes do remo, habituées dos banhos de mar.

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Segunda sede do Flamengo, construída em 1920, no mesmo local onde fora fundado o Grupo de Regatas. Disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:990

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Conta Mário Filho, de forma romanceada, que por ocasião da criação do Flamengo, observando o entusiasmo dos jovens envolvidos, o padre Nattuzi procurou o Dr. Lourenço Cunha, pai de José Agostinho (um dos fundadores), lhe perguntando se não ficava preocupado com tamanho interesse, pois a fama das regatas “não era lá das melhores”. Cunha teria respondido que acreditava no esporte como uma escola de formação e disciplina, uma prática saudável, por isso não se importava.

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O fato é que depois de superada certa sensação de estranhamento ou desprezo por parte da população local, a sede do Flamengo, localizada na Praia do Flamengo, 22 (hoje número 66), tornou-se um centro de encontros, um local muito procurado por um setor da juventude que adotava novos parâmetros de sociabilidade e de exposição corporal: “Rapazes discutiam muque em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculana dos braços. Era o delírio do rowing, era a paixão dos sports” (João do Rio).

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A segunda sede foi destruída em 1979. No local hoje se encontra um prédio de escritórios. Foto disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:896

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A praia do Flamengo, na verdade, transformou-se num dos lugares mais fashions da cidade. O Hotel Central, um dos primeiros balneários da cidade, oferecia boas condições para os que desejavam com conforto se deliciar com os banhos de mar (futuramente dedicaremos a esse hotel um post). Regatas eram disputadas nas águas da Baía de Guanabara.

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Regata na Praia do Flamengo, em frente à sede do Clube, década de 1920. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/nder:1557

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Devemos também lembrar que o clube estava muito próximo do Palácio do Catete, chegando a compartilhar com a Presidência da República o cais que se localizava em frente à propriedade (podemos vê-lo na imagem abaixo).

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Detalhe de um postal da década de 1910, disponível no fotolog “Foi um Rio que Passou”, de André Decourt: http://www.rioquepassou.com.br/2004/03/21/1590/

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O futebol só entra na história do Clube em 1911, com a chegada de um grupo de jogadores dissidentes do Fluminense. Os primeiros treinos foram realizados em um campo aberto localizado na Glória, nas redondezas da sede.

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Campo onde o primeiro time de futebol do Flamengo treinava. Glória, 1911. Ao fundo o centro da cidade bastante iluminado. Acervo de Francisco Patrício. Disponível em http://www.rioquepassou.com.br/2005/12/20/gloria-e-centro-15-de-novembro-de-1911/

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Poucos anos depois a equipe de futebol passou a realizar seus jogos no antigo campo do Paysandu. A acreditar em João do Rio, foi uma festa a primeira partida do clube nessas dependências:

“O campo do Flamengo é enorme. Da arquibancada eu via o outro lado, o das gerais, apinhado de gente, a gritar, a mover-se, a sacudir os chapéus. Essa gente subia para a esquerda, pedreira acima, enegrecendo a rocha viva. Embaixo a mesma massa compacta. E a arquibancada, o lugar dos patrícios no circo romano era uma colossal, formidável corbelha de belezas vivas, de meninas que pareciam querer atirar-se e gritavam o nome dos jogadores, de senhoras pálidas de entusiasmo, entre cavalheiros como tontos de perfume e também de entusiasmo”.

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Primeiro time de futebol do Flamengo. Em pé: Lawrence, Amarante, Píndaro, Baena, Nery e Gallo. Sentados: Curiol, Arnaldo, Zé Pedro, Miguel e Borgerth. Disponível em http://www.maisfla.com/noticias/do-inicio-do-futebol-ao-fim-do-amadorismo/

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A despeito da importância de sua ligação com o esporte náutico, o Flamengo entraria mesmo para a história pela popularidade que angariaria no futebol.

Tinha mesma razão o grande João do Rio: “Não! Há de fato uma coisa séria para o carioca: o football!”.

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Na década de 1930, o Flamengo começa a se transferir para a Gávea, onde construiria um estádio e a atual sede. Na década de 1950, contudo, construiu uma sede no Morro da Viúva. Esse prédio, que hoje se encontra em condições não totalmente adequadas de preservação, está sendo negociado com o mega-empresário Eike Batista para ser transformado em um hotel de luxo.

Será que ele vai comprar a cidade toda?

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Não foi exatamente a minha preferência clubística que me levou a preparar esse post (inclusive futuramente serão dedicados posts a outros importantes clubes da cidade). De qualquer forma, a minha relação com o Flamengo é algo que marca profundamente minha memória e minha história. Já escrevi algumas coisas sobre isso, disponíveis no blog A Lenda, do amigo Rafael Fortes, e no sítio do Sport, laboratório que coordeno.

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Na próxima semana, o green! O golfe no Rio de Janeiro.

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Braços fortes: o remo e a celebração da cidade moderna

28/05/2011

 

O Rio de Janeiro é uma cidade reconhecida mundialmente pela beleza exuberante de sua natureza, de suas praias, lagoas e montanhas. Essa é uma de suas imagens mais difundidas: a Baía de Guanabara, o Corcovado e o Pão de Açúcar em plena harmonia.

 

 

Foi nesse cenário majestoso que uma das mais importantes práticas esportivas viveu seu auge: o remo.

As primeiras provas náuticas foram realizadas já na década de 1850. Além de esporádicas, as regatas ocorriam nas praias mais próximas da região central, entre as quais a Praia de Santa Luzia, assunto de outro post .

Na década final do século XIX, o esporte náutico já se tornara uma das principais diversões da cidade: muitos clubes já estavam organizados e as regatas, realizadas com maior frequência na Praia de Botafogo, mobilizavam grande público de todos os estratos sociais.

É nos primeiros anos do século XX que o remo será considerado como uma das estratégias para celebrar a cidade que estava em plena mudança. Um dos responsáveis por isso foi exatamente aquele que liderava o processo de reformas urbanas, Pereira Passos, prefeito plenipotenciário nomeado por Rodrigues Alves.

 

 

O remo vinha se configurando como um esporte que exaltava as noções de progresso, de saúde, de higiene, adotado pela burguesia urbana como um dos símbolos de um país moderno que desejava-se construir. O corpo e os gestos de seus praticantes simultaneamente assustavam e fascinavam uma população ainda não acostumada a esses modelos e a tal grau de exibição.

 

Remadores do Club de Regatas Botafogo no final do século XIX (disponível em http://wakko.com.br/furiajovem/index.php?option=com_content&view=article&id=57&Itemid=75)

 

Remadores do Club de Regatas Botafogo (1919) (disponível em http://www.redacaoalvinegra.com.br/4246/2009/08/21/historia-dos-escudos-do-botafogo/)

 

Passos, percebendo o quanto as regatas se adequavam simbólica e materialmente às reformas “civilizatórias” que implementava, passou a, de diversas formas, apoiar as agremiações náuticas.

Foi em 1905 que concedeu aos clubes de remo uma de suas solicitações mais antigas: no contexto da construção da Avenida Beira-Mar, a instalação de um espaço permanente para a realização das competições – o Pavilhão de Regatas, na Praia de Botafogo, na altura das ruas D. Carlota e São Clemente.

Na foto de Augusto da Malta (de 1906, disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:935), vemos o Pavilhão em um dia de regatas. Dele (ou de barcos fundeados na Baia, que também podem ser vistos na imagem) assistiam às provas os sócios de clubes e/ou pessoas pertencentes à elite. Já o grosso da população, como podemos ver na imagem, se espalhava pela murada da Praia.

Mais do que servir somente às regatas, até mesmo por estar situado em um local com bela e aprazível vista, o Pavilhão rapidamente transformou-se em um centro de divertimentos para as elites. Construído em ferro, no estilo eclético, com coretos para duas bandas de música, duas arquibancadas no térreo, espaço para o buffet, já em 1906 estava dotado de luz elétrica (o que permitia que funcionasse até a madrugada) e inaugurara um bar com orquestra, uma casa de chá, além de oferecer excursões de barco pela Baía de Guanabara.

Vejamos um postal (ou foto colorizada) do Pavilhão (disponível no magnífico Saudades do Rio, de Luiz D’: http://fotolog.terra.com.br/luizd:2505).

A Praia de Botafogo foi um dos sítios mais sportivos da cidade. Certamente voltaremos a esse tema em muitos posts futuros.

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Uma curiosidade: como podemos ver nas fotos, a Praia de Botafogo não tinha areia. Isso se manteve durante muitos anos, até a década de 1960. Aliás, no lugar onde se situava o Pavilhão, hoje passam as pistas do aterro.


Sítios “Sportivos”: a Praia de Santa Luzia

08/05/2011
 

Vejamos a foto abaixo, de autoria de Rafael Netto (disponível no fotolog “Rio Hoje”, em http://fotolog.terra.com.br/rafael_netto:149).

 

Em primeiro plano, trata-se da Igreja de Santa Luzia, à frente dos prédios que ocupam nos dias de hoje a Esplanada do Castelo, que substituí o Morro do Castelo, um dos berços históricos da cidade do Rio de Janeiro, demolido paulatinamente tendo em vista o desenvolvimento urbano e as orientações de engenheiros e sanitaristas, destacadamente no período da Reforma Pereira Passos, no início do século XX, quando parte cedeu lugar à Avenida Central, e na década de 1920, dando espaço para as construções das comemorações do 1º Centenário da Independência (1922). 

No final do século XVI, no mesmo local atual, já existia uma pequena capela, que foi reconstruída em 1752 e em 1872. Santa Luzia já era cultuada, na verdade, desde o tempo em que a cidade fora instalada no Morro Cara de Cão, ao redor de uma imagem trazida por Estácio de Sá.

As duas fotos abaixo, disponíveis no sítio “Curiosidades Cariocas” (http://rio-curioso.blogspot.com/2008/03/igreja-de-santa-luzia.html), nos dão uma noção da distância entre a Igreja e o mar nos dias de hoje (a primeira foto é dos anos 1960, a segunda é um mapa retirado do Google, a seta amarela indica o local do templo):

 

O que essa Igreja teria a ver com a prática esportiva? Temos que primeiro conhecer sua localização até a década de 1920. Vejamos a bela foto de Georges Leuzinger (do acervo de George Ermakoff), provavelmente de 1865 (disponível em vários sítios, mas por nós retirada do belíssimo fotolog de Luiz D’, “Saudades do Rio”: http://fotolog.terra.com.br/luizd:612).

 

 

Pois bem, essa praia, que leva o nome da igreja, Santa Luzia, foi um dos sítios mais “sportivos” da cidade durante décadas. Por lá foram instalados muitos balneários, já que foi adotada como local usual de banhos de mar, inicialmente como prática terapêutica, depois como hábito de lazer. Essa nova dinâmica social gestou as condições para o desenvolvimento de algumas práticas esportivas. 

Por lá se instalaram clubes, alguns desses ainda hoje localizados em região próxima, nas cercanias do Aeroporto Santos Dumont. Por lá se realizaram as primeiras competições de remo, inclusive o notável desafio entre as canoas Lambe-Água e Cabocla, em 1846, no Jornal do Comércio celebrado como um dos eventos que desencadearia o desenvolvimento do esporte náutico na cidade. Por lá foi disputada a primeira edição do Campeonato Brasileiro de Natação, uma única prova realizada entre a Praia e o Forte de Villegaignon, vencida pelo incrível Abrahão Saliture.

Voltaremos ao tema em outras ocasiões. Por ora, vejamos a bela foto de 1917, um banho de mar de frente para a Igreja de Santa Luzia (disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:107).

A destacar os longos trajes de banho (se comparados aos atuais), as roupas dos observadores que se encontram no cais (no lado esquerdo de quem observa a foto), a pouca presença de mulheres, a pequena faixa de areia (perceptível no lado direito de quem observa). 

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Esse post inaugura a série “Sítios Históricos – Praia de Santa Luzia”. O intuito é com o decorrer do tempo apresentar alternadamente outras temáticas.

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Obviamente não tenho idade para ter me banhado nas águas da Praia, mas a Igreja de Santa Luzia faz parte de minha memória. Como tive problemas de visão, minha mãe fez uma promessa à Santa e todo dia 13 de dezembro lá estávamos para pedir a sua benção e lavar os olhos com a água benta.

Não sou mais católico, mas me lembro com carinho desses momentos cansativos (morávamos no Bairro Jabour e o antigo 396, que vinha pela Avenida Brasil, demorava um bocado!), mas divertidos (ir ao Centro, “à cidade” como se dizia, era sempre um passeio).

O fato é que, entre médicos, simpatias e promessas, fui melhorando, graças a todas essas coisas, mas fundamentalmente graças à minha mãe, a quem homenageio e agradeço por isso e por muito mais nesse dia a ela dedicado.

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Posteriormente descobri que algumas casas de umbanda sincretizam Santa Luzia com a orixá Ewá. Ri Ro Ewá!

  


Rio, Cidade Sportiva: a proposta

28/04/2011
 

Rio, Cidade Sportiva nasceu da conjugação de vários interesses.

Do ponto de vista sentimental, é uma iniciativa de um carioca apaixonado pelo Rio de Janeiro, uma forma de declarar seu amor à cidade. É também inspirado no trabalho de muitos blogs e fotologs que contribuem para a divulgação e preservação da memória da “Mui Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”.

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Pavilhão de Regatas, Praia de Botafogo. Construído por Pereira Passos, no contexto das reformas urbanas promovidas nos anos iniciais do século XX, foi uma das mais importantes instalações esportivas da cidade. Foto extraída de http://www.botafogo.com.br

Do ponto de vista profissional, é uma iniciativa relacionada as ações do “Sport”: Laboratório de História do Esporte e do Lazer, grupo de pesquisa ligado ao Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mais especificamente, é um dos produtos do projeto “Fotos Esportivas”, que procura catalogar/indicar fotos que tenham alguma relação com o esporte, disponíveis na internet.

As touradas chegaram a lograr algum sucesso no Rio de Janeiro. No fundo da foto se vê um pedaço da praça de touros, que foi instalada, no início do século XX, na Rua Ipiranga, Laranjeiras. Era muito frequentada pelos operários da Fábrica Aliança, que se localizava nas redondezas, na Rua Glicério. Foto disponível em http://esporterio.blogspot.com/

O intuito de Rio, Cidade Sportiva é ser um espaço de difusão científica. Tenho investigado o tema desde a preparação de minha tese de doutorado, na qual procurei discutir os primeiros momentos da prática esportiva na à época capital brasileira (o livro com os resultados a investigação foi lançado em 2001, pela Editora Relume Dumará, com apoio da Faperj).

Com esse blog pretende-se contribuir para a divulgação dessa história, do forte relacionamento que se tem estabelecido entre o Rio de Janeiro e o esporte: se algumas das peculiaridades dessa cidade, fruto de sua situação histórica, foram fundamentais para a conformação e o desenvolvimento dessa prática, a prática também foi de grande importância para forjar um jeito carioca de ser: é o Rio de Janeiro uma cidade verdadeiramente “sportiva”.

O Circuito da Gávea foi durante muitos anos a mais importante prova automobilística da América do Sul, ajudando a forjar a ideia de "Cidade Maravilhosa". Na foto, de 1936, vemos uma corredora francesa, Hellé Nice, que chocou e fascinou a cidade com seus costumes avançados. Disponível em: http://elisaan.blogspot.com.

Serão divulgadas fotografias que apresentem algo sobre o esporte no Rio de Janeiro, algumas de maneira bem óbvia, outras nem tanto. Podem também ser publicados outros tipos de materiais: charges, cartazes, literatura, qualquer coisa que nos ajude a perceber a fascinante relação entre a cidade e a prática esportiva.

O intuito é sempre informar o máximo possível sobre a fonte: de onde foi retirada, por quem foi produzida, em qual lugar pode ser encontrada, local, época. Os comentários não serão longos, antes buscam captar a curiosidade do leitor.

A atualização do blog será quinzenal, sempre nos dias 1 e 15 de cada mês. Pode haver posts extras, dependendo da urgência do assunto e do tempo do administrador.

Na Praia da Saudade ocorreram importantes fatos do esporte carioca: as primeiras corridas de cavalos, competições de remo, instalação de um clube de iatismo, atividades de aviação esportiva, entre outros. Foto de J. Huberti, de 1926, disponível em http://www.urca.net

É importante ressaltar: esse blog é uma iniciativa acadêmica e não tem qualquer interesse comercial.

Caso haja alguma imagem e/ou informação que desrespeite ou incomode a alguém ou a algum direito autoral, basta entrar em contato que estudaremos a sua remoção e/ou reformulação. Também estou a disposição para quaisquer contatos em victor.a.melo@uol.com.br.

As fotos aqui apresentadas são apenas um aperitivo; muita coisa boa virá! Aguardo sua companhia!

Sede do Clube de Regatas do Flamengo, localizada na Praia do Flamengo, 66. Disponível em http://rioquemoranomar.blogspot.com/


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