O Hotel Central e os banhos de mar

13/08/2011

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Em “A Conquista”, romance publicado em 1899, assim Coelho Neto descreve um amanhecer no Rio de Janeiro:

 O dia raiava.
(…)
Chilros vibravam no ar. Passavam, chalrando, os banhistas que se dirigiam à praia, aos casais, famílias completas, com cestas, os olhos ainda empapuçados de sono.
(…)
Na praia branca, o mar liso, metálico, rutilava.
Uma multidão chapinhava na areia úmida que guardava a pegada funda até que a onda, subindo preguiçosamente, a desmanchava. Havia barracas de lona como brancas pirâmides, mas a maioria dos que mergulhavam vinha já pronta nas roupas de flanela dos estabelecimentos balneários.
As senhoras, sorrindo, esfregando as mãos, iam timidamente para o mar que mandava à praia as suas ondas como para buscá-las, curvavam-se, tomavam nos dedos um pouco de água, como se se benzessem naquela imensa pia verde e, friorentas, dando-se as mãos, entravam, aos saltinhos, quando a onda rolava cheia, espumosa, desdobrando-se na praia com suave marulho.
Cabeças apareciam longe e gente saía gotejante, gente entrava a correr e todo o mar fervilhava de banhistas. Ao longo da praia e no terraço do Passeio apinhavam-se curiosos. Um bote negro, remado lentamente, bordejava. Tresandava a maresia. De repente Anselmo gritou:
– Olha, Fortúnio! Era o sol, o grande, o magnífico, o esbraseado sol americano que subia. O céu estava encandecido, era de ouro líquido (…). A água voluptuosa tornou-se mais lânguida. Gaivotas cruzavam-se contentes (…)
(…)
Os que se banhavam pareciam incrustados na superfície serena e rútila das águas vastas e longe
(…)
A alegria do céu comunicou-se aos que nadavam e gritos alegres vinham do mar, e sempre a sair gente ansiosa para a onda: velhos, senhoras, crianças (…)
Fortúnio, com os olhos no paquete, suspirou:
– Ah! Pudesse eu ir ali!
– Ora qual! Deixa-te disso, homem! Olha para aquele sol, admira aquela beleza e dize se é possível que Deus estrague tão formosa auréola numa terra destinada à miséria e ao abandono. Uma pátria que tem este sol há de ser grande por força. Viva a nossa terra, deixa lá, homem! A nossa manhã há de vir, descansa. E os dois, extasiados, ficaram a olhar o astro deslumbrante que remontava majestosamente.

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Praia de Copacabana lotada em dia de verão. Disponível em http://www.meupalco.com.br/2010/11/imagem-do-dia-onde-esta-wally.html

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A imagem acima, de um dia de sol no Rio de Janeiro dos dias de hoje, parece se ajustar, guardadas as devidas proporções, às palavras de Coelho Neto. O gosto pela praia é sem dúvida um dos traços pelo qual o carioca é identificado. Mas nem sempre foi assim.

Até meados do século XIX, os banhos de mar não eram um hábito comum entre os cariocas. Eles somente começaram a ser valorizados quando cresceram na cidade as preocupações com a saúde e com a higiene. A princípio eram regulados pelos desígnios dos médicos e causavam preocupações no que se refere à segurança e ao pudor

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Como vemos na imagem acima, nos banhos de mar as roupas utilizadas eram bastante rigorosas, notadamente para as mulheres. Ainda assim, não eram consideradas adequadas para transitar pelas ruas. Por isso, foram instaladas nas redondezas das praias as casas de banho, que serviam para a troca da vestimenta, para a guarda dos pertences, algumas até mesmo oferecendo alguma estrutura de segurança para os banhistas (os primeiros salva-vidas da cidade).

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Casa de Banho na Rua Santa Luzia. Foto de Augusto Malta. Acervo George Ermakoff. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/sdorio:2096

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Entre os balneários, um se notabilizou pelo conforto e pelo luxo, contribuindo para a Praia do Flamengo tornar-se a mais chic da ocasião: o Hotel Central

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O Hotel Central é o de esquina, bem no centro da imagem. Foto de Preising. Acervo de George Ermakoff. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:247

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Localizado na Avenida Beira Mar, bem no ponto em que a Paissandu encontra a Barão do Flamengo, situava-se em frente ao único espaço da Praia do Flamengo que dispunha de areia. Construído em 1915, substituindo outro balneário, o High Life, oferecia boas instalações, entre as quais uma área para ginástica e terraços com bela vista para a Baía de Guanabara.

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Terraço e Sala de refeições do Hotel Central. Década de 1910. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/bfg1:113

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O Hotel oferecia quartos para hospedagem, vestiários para os banhistas se trocarem e pacotes que incluíam as refeições, sem a necessidade de hospedagem. Os frequentadores aproveitavam a proximidade do mar e o fato de que a Avenida Beira-Mar tornara-se um local fashionable.

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Banhistas em frente ao Hotel Central. 1917. Acervo de Aurelino Gonçalves. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:102

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 Na imagem abaixo podemos ter outra noção do espaço em frente ao Hotel Central. Vemos como era curta a faixa de areia. Além disso, vemos a desembocadura do mítico Rio Carioca.

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Acervo de Francisco Patrício. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:541

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As mudanças no local, o deslocamento do eixo preferido para banhos para Copacabana e Ipanema, a poluição da Baía de Gunabara e mesmo a distensão dos costumes (já não eram mais necessários balneários já que se tornou aceito as pessoas se apresentarem nas ruas em trajes de praia) levou à destruição do Hotel Central, em 1951. No mesmo espaço foi construído o Edifício Conde de Nassau.

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Hotel em processo de destruição, em 1952; e Espaço do Hotel já vago, em 1953. Disponíveis em http://fotolog.terra.com.br/luizd:2289 e http://fotolog.terra.com.br/sdorio:2369

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Devemos lembrar que a popularização dos banhos de mar foi importante para a conformação e consolidação de certas práticas como o remo e a natação. Ter passado de uma prática relacionada diretamente à saúde para uma opção generalizada de diversão foi um salto de grande importância para que o esporte assumisse novos contornos, dialogando com uma nova cidade que se pretendia moderna, com um novo conjunto de hábitos e com uma construção identitária que elegia o espaço público como lócus por excelência do carioca. 

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Na imagem abaixo, um quadro de Fachinetti, de 1886, vemos o antigo balneário High Life.

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Óleo sobre madeira; 17,5 x 29,5cm. Coleção Museu Imperial/Maria Cecília e Paulo Fontainha Geyer, RJ

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Quem quiser ainda ver uma estrutura parecida aos antigos balneários, basta dar uma chegada à Ilha de Paquetá, para mim ainda hoje um dos mais belos recantos do Rio de Janeiro. 

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No próximo post – O tamborete

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Uma antiga sacada no litoral carioca: o vôlei de praia

16/07/2011

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A intensa relação dos cariocas com o litoral de sua cidade, algo que marca a sua construção identitária, é mais recente do que por vezes pensamos. É somente em meados do século XIX que as praias começaram a ser mais procuradas: primeiro como opção terapêutica (os banhos de mar como indicação médica), depois como espaço de diversão. Progressivamente, tornaram-se lugar privilegiado de encontros e de prática das mais diferentes atividades de lazer. Entre essas, destaca-se o vôlei de praia.

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Projeto de arena que abrigará o vôlei de praia nos Jogos Olímpicos de 2016/Rio

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É somente nos anos finais da década de 1980 que a modalidade foi oficialmente reconhecida pelas entidades esportivas internacionais, pavimentando o caminho que a levou aos Jogos Olímpicos. Todavia, já na década de 1920 há registros de jogos de vôlei realizados em praias norte-americanas.

Ao que tudo indica, nessa década, também no Rio de Janeiro já havia praticantes do vôlei de praia, como podemos ver no centro da bela foto abaixo, disponível no fotolog “Carioca da Gema”: trata-se da Praia de Copacabana, na altura do posto 6 (próximo ao Forte), no ano de 1927. Curioso é o grande público que acompanhava a partida.

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Um passeio pelas imagens disponíveis nos fotologs dedicados ao Rio antigo nos permite encontrar várias evidências da prática do vôlei nas praias cariocas. Nas fotos abaixo, disponíveis em “Rio de Fotos” e “Saudades do Rio”, podemos ver, na primeira, os jogadores e a rede atrás das personagens principais, na Praia de Copacabana, em 1941; na segunda, os postes para montar a rede, na Praia de Copacabana, com a Avenida Atlântica ainda não duplicada (1947).

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Já a foto abaixo é dos anos 1950 e capta uma tradicional rede de vôlei que se localizava em frente ao Hotel Miramar (Copacabana). Nessa década, a prática já era muito popular e começaram a ser promovidos campeonatos mais organizados.

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Uma partida de um desses campeonatos, patrocinado pelo Jornal dos Sports, pode ser vista na imagem abaixo (Praia de Copacabana, década de 1960), disponível no magnífico fotolog de Luiz D’. Segundo sua descrição, uma das equipes era a da rede Reno, que se localizava na Praia de Ipanema. Luiz lembra ainda que jogava pela equipe Tatuís, cuja rede ficava no Posto 6.

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É também Luiz D’que dá um belo depoimento sobre uma das redes que se espalhavam pelas praias: a Lagosta, que se localizava na altura do Posto 8, Ipanema. Luiz lembra que a rede existiu por mais de 40 anos, servindo de local de encontros no qual se forjaram grandes amizades. Vale a pena ler seu relato completo em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1557. Podemos aí saber da dinâmica de funcionamento do grupo, a partir do olhar apaixonado de um frequentador.

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Rede Lagosta, anos 1960. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1244

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Nos comentários de um dos posts de Luiz D’ sobre tal rede, podemos perceber que muitos que frequentaram espaços similares manifestam a mesma alegria e saudade ao lembrar as histórias dos grupos com os quais se envolviam para praticar o vôlei nas praias.

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Rede Lagosta, década de 1970. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:2132

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Esses espaços/grupos menos academicamente discutidos estão certamente entre os temas mais importantes no que se refere ao estabelecimento de uma forte relação entre o esporte e a cidade, algo que nos diz muito sobre a construção de discursos sobre o que é ser carioca.

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Morador do subúrbio do Rio (como já disse antes, do glorioso Bairro Jabour), quando criança/adolescente pouco joguei vôlei nas praias, mas vivenciei o boom do esporte nos anos 1980. A molecada assistia às partidas da seleção brasileira pela televisão (se não me engano pela Record, narradas pelo Luciano do Vale) e no dia seguinte se reunia para jogar, sonhando em reproduzir as proezas dos atletas brasileiros (inclusive o espetacular saque Jornada nas Estrelas).

Havia, contudo, um problema: era caro o equipamento! Para não deixarmos de jogar, improvisávamos: uma bola qualquer que não machucasse muito o braço, uma corda como rede, o chão marcado com giz. A precariedade não tornava menos divertidos nossos jogos!

Em nome da saudade desses tempos, apresento uma rara imagem de um jogo de vôlei disputado no bairro da Penha nos anos 1950.

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As diferenças com o que se praticava na Zona Sul são notáveis, mas quem pode dizer que eram situações menos divertidas?

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Próximo post – “Um lugar esportivo: o Derby/Maracanã”

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O Quadrado da Urca

11/06/2011

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Uma das mais valorizadas e mais antigas regiões do Rio de Janeiro guarda uma parte importante e curiosa da história esportiva da cidade: a Urca.

Naquela região, numa pequena praia entre o Morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar, Estácio de Sá estabeleceu, em 1565, o primeiro núcleo populacional da cidade, em 1567 transferido para a região central, para o Morro do Castelo, por questões de defesa e necessidades de expansão.

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Morro do Castelo visto do Outeiro da Glória. Disponível em http://www.flickr.com/photos/11124678@N02/2042462343/

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É somente a partir da década de 1870 que surgem as primeiras iniciativas mais efetivas de na região construir um novo bairro. Por ocasião da Exposição Nacional de 1908, a localidade conheceu um certo progresso, com a instalação de um cais e uma ponte de acesso, como podemos ver na foto abaixo, do acervo de George Ermakoff, disponível no fotolog “Coisa Lúdica” (http://fotolog.terra.com.br/cartepostale:106).

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Na virada das décadas de 1910/1920, a Sociedade Anônima Empresa Urca deu forma ao bairro que hoje conhecemos. Foi nessa época que foi inaugurado o “Quadrado da Urca”, que existe até hoje, funcionando como uma pequena marina, como podemos ver nas fotos abaixo.

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Quadrado da Urca. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/rafael_netto:16

Quadrado da Urca, à esquerda; Iate Clube, à direita. Disponível em: http://www.almacarioca.com.br/angemon/index.htm

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O que nem todos sabem é que o Quadrado fora previsto, no contrato de concessão para a construção do bairro, para ser uma piscina com toda infraestrutura necessária (inclusive arquibancadas) para abrigar as competições aquáticas dos Jogos Sul-Americanos organizados, junto com a Exposição Internacional de 1922, para comemorar o centenário da independência do país.

Como vimos em post anterior, as primeiras provas de natação da cidade foram disputadas nas águas da Baía de Guanabara, nas praias da região central. Isso tornava a prática muito suscetível às condições do mar e do tempo, o que contribuía para o forjar de uma representação heróica dos nadadores. Um dos exemplos foi Abrahão Saliture, um dos mais incríveis atletas brasileiros de todos os tempos.

Lembremos o que foi talvez uma dessas primeiras representações no país, encontrada em um dos grandes romances de nossa história: Dom Casmurro, de Machado de Assis.

– O mar amanhã está de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar, ao pé de mim.
– Você entra no mar amanhã? (Bentinho)
– Tenho entrado com mares maiores, muito maiores. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões disse ele batendo no peito, e estes braços; apalpa (Escobar).
Apalpei-lhe os braços, como se fossem os de Sancha. Custa-me esta confissão, mas não posso suprimi-la; era jarretar a verdade. Nem só os apalpei com essa idéia, mas ainda senti outra cousa, achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar.
 
 

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O surgimento das piscinas de um lado reduziu os “atos de heroísmo” por ocasião das provas de natação; de outro lado, contribuiu para a popularização da prática, tanto em função do aumento do afluxo de público quanto devido aos melhores resultados obtidos nas competições, que se tornaram cada vez mais emocionantes. Paulatinamente crescia também o número de praticantes (ver outro post sobre as aulas no Copacabana Palace).

O Quadrado da Urca foi a primeira piscina da cidade, ainda usando as águas da Baía de Guanabara. Vemos abaixo uma imagem dessa piscina por ocasião dos Jogos de 1922, com estrutura preparada para as provas de natação, plataforma de saltos e trave para os jogos de pólo aquático (foto publicada na Revista da Semana de 23 de Setembro de 1922, disponível no fotolog “Foi um Rio que Passou”, de André Decourt).

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Essa piscina foi a principal da cidade até o surgimento da piscina do Clube de Regatas Guanabara, também construída aproveitando as águas da Baía…mas esse é assunto para outro post.

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Tive o prazer de ter sido professor de natação por dois anos, uma experiência incrível. Ministrava aulas na piscina do Esporte Clube Maxwell, uma pequena agremiação localizada no bairro de Vila Isabel.

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Fachada atual do E.C. Maxwell. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Esporte_Clube_Maxwell.JPG

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Ao procurar informações sobre esse clube, descobri que tem sido um dos destaques dos campeonatos de Futebol de Mesa (o nosso velho conhecido “jogo de botão”), em 2010 sagrando-se tetracampeão estadual na categoria “dadinho” (para mais informações, ver http://www.maxwellfutmesa.kit.net/).

Saudades dos velhos jogos de botão!

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Vista aérea do E.C. Maxwell

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No próximo post, o Hotel Internacional e os “esportes ingleses”.

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Antes das “rodonas”…as “rodinhas”!

04/06/2011

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A utilização de artefatos tecnológicos em práticas de lazer e de performance foi um dos mais interessantes desdobramentos do fenômeno esportivo (ver post sobre aviação). Duas modalidades devem ser destacadas: o ciclismo e o automobilismo.

Os dois esportes se desenvolveram no cenário carioca em distintos momentos, ambos celebrando e exaltando a cidade moderna. Vejamos, por exemplo, uma cena de uma das mais belas provas do automobilismo mundial: o Circuito da Gávea, cujas edições foram realizadas entre os anos de 1933 e 1954.

Juan Manoel Fangio, Jose Froilan González e Chico Landi, subida da Avenida Niemeyer, Leblon, 1951. Acervo do jornal Última Hora. Disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:211

Esse tema certamente será motivo de muitos outros futuros posts. Hoje falaremos de uma diversão que bem antes das provas automobilísticas encantava pessoas de todas as idades. Embora não competitiva, era considerada como um sport e encarada como uma demonstração de adoção de hábitos modernos: a patinação.

Segundo alguns registros, a prática foi introduzida na cidade em 1870, com a instalação de um ringue na Rua do Costa (atual Alexandre Mackenzie), pequena via próxima à Rua Larga (atual Avenida Marechal Floriano Peixoto). Álvaro Borgerth, Alfredo Reis e Duarte Fiuza eram os donos do estabelecimento.

Obras de unificação das antigas Rua Estreita de S. Joaquim e Rua Larga de São Joaquim, dando origem à Av. Marechal Floriano. Disponível em: http://www.rioquepassou.com.br/2010/07/21/antiga-rua-estreita-de-s-joaquim/

Com a abertura de novos ringues, entre eles o “Skating Rink”, onde se podia alugar patins e contar com o apoio de instrutores, paulatinamente a patinação foi se tornando uma “febre” na cidade. Em 1878, é lançado um periódico dirigido aos aficionados, sempre com a preocupação de apresentar a diversão como um exemplo de modernidade, estabelecendo ligação com hábitos europeus: o Skating-Rink: Jornal Humorístico e Litterario dos Patinadores (mais informações podem ser obtidas em http://www.assis.unesp.br/cedap/cat_periodicos/popup/skating_rink.html).

Curioso perceber como, nesse mesmo ano de1878, a patinação ocupou espaço frequente nas “Notas Semanais” que Machado de Assis publicava em O Cruzeiro. O literato abordou a prática sempre com um tom irônico, manifestando uma certa desconfiança. Em 7 de julho, por exemplo, afirma: “Dize-me se patinas, dir-te-ei quem és. Tal será dentro de pouco tempo o mote da suprema elegância”. Em 4 de agosto, é mais crítico:

 “A vida fluminense compõe-se agora de óperas, corridas, patinação e pleito eleitoral; é um perpétuo bailado dos espíritos. (…). A patinação, que eu disse acima ser parte componente da nossa vida atual, começa a adicionar alguns hors-d’oeuvre, como a ondina, moça que respira debaixo d’água. Não gosto de ver esta ondina enrodilhada com a patinação; cheira-me aos saraus dançantes do Clube Politécnico, — duas coisas bem pouco conciliáveis”.

 Os ringues de patinação foram se tornando verdadeiros complexos de entretenimento: grande número de atividades eram oferecidas. Curiosos eram os festivais de patinação fantasiada, bailes de máscaras sobre patins e patinação dançante com orquestras.

Nas décadas iniciais do século XX, um dos locais mais fashions de patinação era o Bar da Brahma, de propriedade da Companhia de Ferro Carril do Jardim Botânico, instalado ao lado da Estação de Bondes localizada na Praia do Leme. Podemos ver o estabelecimento na imagem abaixo, da década de 1910 (no canto inferior direito).

Foto disponível no sítio de André Decourt, “Foi um Rio que Passou”: http://www.rioquepassou.com.br/2006/08/10/leme-anos-10/

Como informa Luiz D’, o Bar da Brahma disponibilizava, além do ringue de patinação, um terraço na praia (acima podemos ver as mesinhas e cadeiras na areia), um stand de tiro, aparelhos para exercícios ginásticos, além de oferecer espetáculos musicais. A foto abaixo, de autoria de Augusto Malta, disponível em “Foi um Rio que Passou” (http://www.rioquepassou.com.br/2010/11/10/leme-bar-da-brahma-e-av-atlantica-1915/comment-page-1/), permite-nos ver mais de perto o estabelecimento (a Estação bem à direita, o bar na sequência, com telhado de zinco).

Nos dias de hoje, a patinação segue sendo praticada por muitas pessoas, tanto como esporte de competição quanto como opção de diversão. Já a Praia do Leme está realmente bem diferente:

 

 

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 Quando eu era moleque, as crianças gostavam muito de patinar. Que eu me lembre, havia 3 tipos de patins. Os mais ricos já podiam comprar patins com botas ou tênis instalados. A maioria, contudo, como era meu caso, só podia comprar um que se adaptava ao pé. Os mais pobres usavam um de plástico, que sempre dava problemas. Aliás, as rodas não tinham o desempenho de hoje em função do material de confecção. Juntando-se a isso as calçadas e ruas mal pavimentadas…tombos espetaculares!

Eu não cheguei a ter patins, preferi ganhar um skate, da marca Bandeirantes, igualzinho a esse abaixo (só que o meu era vermelho).

Moral da história: nunca aprendi a patinar. Para ser sincero, nem a andar de skate!

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Meu amigo e irmão Coriolano escreveu para o História(s) do Sport um belíssimo post sobre a patinação em Salvador. Confira aqui.

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No próximo post: o quadrado da Urca.


Pelos ares!

21/05/2011

 

Querida leitora, querido leitor,

Quem saberia me dizer a que se refere e que lugar da cidade está retratado na imagem abaixo (disponível no belíssimo fotolog Saudades do Rio, de Luiz D’)?

 

 

De início, temos que lembrar que a aviação desde os anos iniciais do século XX é considerada um esporte, uma das práticas que encantou o público com o uso de artefatos tecnológicos (como também o ciclismo e o automobilismo), propagando ideais de aventura, atendendo aos desejos de um público ávido por mais velocidade, mais excitação, por peripécias cada vez mais audazes. Mais do que uma modalidade em si, a prática era considerada como um indicador de adoção de um estilo de vida moderno, típico dos sportsman.

Não surpreenderá saber que Alberto Santos Dumont foi um dos pioneiros e o primeiro brasileiro a receber do Comitê Olímpico Internacional um diploma de Mérito Olímpico por sua contribuição ao esporte com a invenção do avião. Dumont, aliás, em sua estada em Paris, no quartel final do século XIX, quando se dedicava a desenvolver “o mais pesado que o ar”, esteve diretamente envolvido como piloto em corridas de automóveis (foi o primeiro brasileiro a trazer um veículo para o país) e de motocicletas.

 

 

Nos dias de hoje, podemos ver essa faceta da aviação como esporte em provas como o Red Bull Air Race, competição mundial que tem uma das suas etapas realizada no Rio de Janeiro. Abaixo uma foto do evento.

 

 

Ao fundo, temos o Pão de Açúcar. Na parte inferior direita, por trás dos 3 cones, vemos as instalações do Iate Clube do Rio de Janeiro, situado onde era a Praia da Saudade.

Esse clube, com o nome de Fluminense Yacht Club, foi fundado em março de 1920, em cerimônia realizada no Fluminense Football Club. Entre as modalidades praticadas, no decorrer do tempo adotou-se a aviação, para a qual se instalou, aproveitando-se os sucessivos aterros realizados na região, um pequeno aeródromo para aviões menores, como o hidroavião da primeira foto.

Vejamos outra imagem do local (disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1092).

 

 

Em 1945, a aviação foi proibida na região, para não interferir no funcionamento do Aeroporto Santos Dumont. Com isso, o aeródromo foi fechado, mas o clube está lá aboletado até os dias de hoje, uma das mais descaradas apropriações de um patrimônio público: uma linda praia virou uma agremiação e um estacionamento de barcos para os mais ricos.

Vejamos abaixo uma foto da Praia da Saudade no início do século XX, ainda sem o nefasto clube, tendo ao fundo o Hospital dos Alienados, construído por D. Pedro II no século XIX, hoje sede da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Trata-se de um postal de A. Ribeiro, da coleção de Klerman Wanderley Lopes (disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:210).

 

 

Voltaremos ao tema em outros posts.

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Como é de conhecimento geral, nossos principais aeroportos estão em péssimas condições. A solução para tal problema é uma das promessas (e necessidades) que cercam a realização dos Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo no Rio de Janeiro. Ao que tudo indica, trata-se de mais um dos muitos compromissos que não serão cumpridos. As coisas vão mal e tudo indica que não vão melhorar…

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Esse citado prédio da UFRJ é aquele que recentemente pegou fogo. O patrimônio histórico da universidade encontra-se em péssimas condições. Enquanto isso, a reitoria tem planos faraônicos de levar todas as unidades para o campus do Fundão. Por ora, promessas, promessas, promessas…


Sítios “Sportivos”: a Praia de Santa Luzia

08/05/2011
 

Vejamos a foto abaixo, de autoria de Rafael Netto (disponível no fotolog “Rio Hoje”, em http://fotolog.terra.com.br/rafael_netto:149).

 

Em primeiro plano, trata-se da Igreja de Santa Luzia, à frente dos prédios que ocupam nos dias de hoje a Esplanada do Castelo, que substituí o Morro do Castelo, um dos berços históricos da cidade do Rio de Janeiro, demolido paulatinamente tendo em vista o desenvolvimento urbano e as orientações de engenheiros e sanitaristas, destacadamente no período da Reforma Pereira Passos, no início do século XX, quando parte cedeu lugar à Avenida Central, e na década de 1920, dando espaço para as construções das comemorações do 1º Centenário da Independência (1922). 

No final do século XVI, no mesmo local atual, já existia uma pequena capela, que foi reconstruída em 1752 e em 1872. Santa Luzia já era cultuada, na verdade, desde o tempo em que a cidade fora instalada no Morro Cara de Cão, ao redor de uma imagem trazida por Estácio de Sá.

As duas fotos abaixo, disponíveis no sítio “Curiosidades Cariocas” (http://rio-curioso.blogspot.com/2008/03/igreja-de-santa-luzia.html), nos dão uma noção da distância entre a Igreja e o mar nos dias de hoje (a primeira foto é dos anos 1960, a segunda é um mapa retirado do Google, a seta amarela indica o local do templo):

 

O que essa Igreja teria a ver com a prática esportiva? Temos que primeiro conhecer sua localização até a década de 1920. Vejamos a bela foto de Georges Leuzinger (do acervo de George Ermakoff), provavelmente de 1865 (disponível em vários sítios, mas por nós retirada do belíssimo fotolog de Luiz D’, “Saudades do Rio”: http://fotolog.terra.com.br/luizd:612).

 

 

Pois bem, essa praia, que leva o nome da igreja, Santa Luzia, foi um dos sítios mais “sportivos” da cidade durante décadas. Por lá foram instalados muitos balneários, já que foi adotada como local usual de banhos de mar, inicialmente como prática terapêutica, depois como hábito de lazer. Essa nova dinâmica social gestou as condições para o desenvolvimento de algumas práticas esportivas. 

Por lá se instalaram clubes, alguns desses ainda hoje localizados em região próxima, nas cercanias do Aeroporto Santos Dumont. Por lá se realizaram as primeiras competições de remo, inclusive o notável desafio entre as canoas Lambe-Água e Cabocla, em 1846, no Jornal do Comércio celebrado como um dos eventos que desencadearia o desenvolvimento do esporte náutico na cidade. Por lá foi disputada a primeira edição do Campeonato Brasileiro de Natação, uma única prova realizada entre a Praia e o Forte de Villegaignon, vencida pelo incrível Abrahão Saliture.

Voltaremos ao tema em outras ocasiões. Por ora, vejamos a bela foto de 1917, um banho de mar de frente para a Igreja de Santa Luzia (disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:107).

A destacar os longos trajes de banho (se comparados aos atuais), as roupas dos observadores que se encontram no cais (no lado esquerdo de quem observa a foto), a pouca presença de mulheres, a pequena faixa de areia (perceptível no lado direito de quem observa). 

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Esse post inaugura a série “Sítios Históricos – Praia de Santa Luzia”. O intuito é com o decorrer do tempo apresentar alternadamente outras temáticas.

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Obviamente não tenho idade para ter me banhado nas águas da Praia, mas a Igreja de Santa Luzia faz parte de minha memória. Como tive problemas de visão, minha mãe fez uma promessa à Santa e todo dia 13 de dezembro lá estávamos para pedir a sua benção e lavar os olhos com a água benta.

Não sou mais católico, mas me lembro com carinho desses momentos cansativos (morávamos no Bairro Jabour e o antigo 396, que vinha pela Avenida Brasil, demorava um bocado!), mas divertidos (ir ao Centro, “à cidade” como se dizia, era sempre um passeio).

O fato é que, entre médicos, simpatias e promessas, fui melhorando, graças a todas essas coisas, mas fundamentalmente graças à minha mãe, a quem homenageio e agradeço por isso e por muito mais nesse dia a ela dedicado.

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Posteriormente descobri que algumas casas de umbanda sincretizam Santa Luzia com a orixá Ewá. Ri Ro Ewá!

  


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