O pólo aquático: um esporte coletivo nas águas da Baía de Guanabara

20/08/2011

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De novo a Praia de Santa Luzia, em “Rio, Cidade Sportiva” já citada em outras ocasiões (ver “O Hotel Central e os banhos de mar“, “Braços fortes: o remo e a celebração da cidade moderna“, “Sítios sportivos: a Praia de Santa Luzia“). Essa parte do litoral carioca, localizada bem no centro da cidade, foi mesmo um dos locais pioneiros da prática esportiva no Rio de Janeiro: o hábito dos banhos de mar, ali comuns, acabou por gerar sociabilidades que deram origem a clubes cujos sócios se dedicavam ao remo, à natação e à modalidade-tema de nosso post de hoje: o pólo aquático.

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Fonte: Careta, ano 7, número 306, 2 de maio de 1914

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            Acima vemos duas fotos do Club de Natação e Regatas, fundado em 1896, cuja sede se localizava na Rua de Santa Luzia. Foram sócios dessa agremiação, já envolvidos com o remo e com a natação, alguns dos primeiros a protagonizar os pioneiros jogos de pólo aquático no país, uma modalidade que na Europa, por vezes chamada de rugby ou futebol aquático, já atraía grande público e envolvia muitos praticantes, tendo inclusive feito parte da programação dos Jogos Olímpicos desde a edição de 1900 (Paris), o primeiro esporte coletivo a integrar esse evento.

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Fonte: Les Sports Illustres (Librairie Larousse, 1905). Disponível em http://www.sunrisemusics.com/olimpiadas.htm

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Como podemos ver na imagem acima, um flagrante de uma partida disputada nos Jogos Olímpicos de 1900 (Paris), o pólo aquático era jogado no mar ou em rios, com um material ainda improvisado (pelo menos se compararmos ao atual).

No caso do Rio de Janeiro, depois de muitos jogos disputados na Praia de Santa Luzia, as partidas começaram a ser realizadas na Urca, na Praia Vermelha e na Praia da Saudade, notadamente após 1908, quando o bairro começou a se consolidar por ter recebido importantes obras de urbanização ligadas à Exposição Nacional, realizada para comemorar o centenário da abertura dos portos.

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Cais da Urca por ocasião da Exposição Nacional de 1908. Postal da Companhia Lith. Hartmann-Reichenbach. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:2013

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Abaixo vemos imagens de um evento realizado na Praia da Saudade em 1914. Destacam-se, na primeira foto, os barcos de remo estabelecendo os limites do espaço de jogo. Os árbitros se postam na parte inferior direita, em cima de uma bancada, e ao centro, em um palanque, ambos montados no mar. Na segunda foto podemos ver o público ocupando o que hoje é a ponte que compõe o Quadrado da Urca.

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Fonte: Careta, ano 7, número 294, 17 de janeiro de 1914

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As fotos dos jogadores reforçam as noções de masculinidade e vigor físico, tão comuns nas imagens de homens esportistas difundidas naquele momento. Se o remo já se apresentara como a modalidade ajustada a tal construção simbólica, o pólo aquático a exacerbara, até mesmo porque os choques corporais são comuns nesse esporte que exige grande esforço. Entende-se, assim, o imaginário de violência construído ao redor da prática.

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Equipes do Club Internacional, Guanabara, São Cristóvão e Icaraí. Fonte: Careta, ano 7, número 294, 17 de janeiro de 1914

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As praias da Urca seguiram sendo durante anos o principal lugar do pólo aquático na cidade, ainda mais com as reformas realizadas por ocasião da Exposição Internacional de 1922, que delinearam o Quadrado da Urca, especialmente construído para servir de piscina às competições internacionais promovidas no âmbito dos festejos de celebração da independência (os Jogos do Centenário) (já discutimos esse tema em post anterior).

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Piscina/Quadrado da Urca/1922. Fonte: Revista da Semana, 23 de setembro de 1922. Disponível em “Foi um Rio que Passou”, de André Decourt, http://www.rioquepassou.com.br/2006/08/11/quadrado-piscina-da-urca-campeonato-nautico-sulamericano-1922/

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Nesse momento, o Brasil já tinha enviado uma equipe de pólo aquático para os Jogos Olímpicos de 1920 (Antuérpia), na primeira participação do país no evento. A equipe foi formada por Adhemar Ferreira Serpa (que também participou das provas de natação), Agostinho de Sá, Alcides de Barros Paiva, Angelo Gammaro (que também participou das provas de natação), Carlos Lopes, Edgard Leite Ribeiro, João Jório (que também participou das provas de natação e remo), Orlando Amendola (que também participou das provas de natação e remo), Victorino Ramos Fernandes e Abrahão Saliture (que, já com 37 anos, também participou das provas de natação; sobre esse incrível atleta brasileiro, ver post em De Olho no Sport).

Mesmo com muitas dificuldades, a equipe brasileira chegou as quartas de final. Depois de vencer a França na fase eliminatória (1 x 1 no tempo normal, 6 x 2 na prorrogação), foi eliminada pela Suécia (7 x 3), obtendo o 6º lugar.

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Foto da equipe brasileira de pólo aquático nos Jogos Olímpicos de 1922 (sem Adhemar Ferreira Serpa, Carlos Lopes e Abrahão Saliture). Fonte: Atlas do Esporte no Brasil. Disponível em http://www.atlasesportebrasil.org.br/textos/215.pdf

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 Nas décadas de 1920 e 1930, o pólo aquático seguiria sendo disputado nas águas da Baía de Guanabara. A foto abaixo, de 1926, disponível no belíssimo fotolog “Carioca da Gema”, de Roberto Tumminelli, é informada como sendo de um campeonato disputado na Lagoa Rodrigo de Freitas. Os comentários no post contestam tal informação, sugerindo que trata-se da enseada de Botafogo, em frente à antiga sede do Clube de Regatas Botafogo. Ao fundo, veríamos o Morro do Pasmado. É fato que a Lagoa nunca possuiu boas condições para o pólo aquático, em função do fundo muito lodoso. De qualquer forma, trata-se de uma linda imagem.

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 A modalidade teria novo impulso quando passou a ser praticada nas piscinas, que no Rio de Janeiro foram construídas a partir da década de 1930. Aqui devemos falar do Clube de Regatas Guanabara, que até hoje mantém suas equipes de pólo aquático.

 Fundado em 1899, às margens da enseada de Botafogo, por um grupo de sócios dissidentes do Clube de Regatas Vasco da Gama, o Guanabara, em 1935, inaugurou a primeira piscina olímpica do Brasil, palco de muitas glórias dos esportes aquáticos nacionais.

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Piscina do Clube de Regatas Guanabara. Disponível em: http://www.rioquepassou.com.br/2005/06/03/clube-de-regatas-guanabara-iii/

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 Como se pode ver, a piscina foi instalada dentro da Baía de Guanabara. As águas salgadas privilegiavam a flutuação, atraindo atletas que buscavam bater recordes. Na foto abaixo, de 1935, podemos ter uma ideia melhor de como a piscina se inseria na paisagem da enseada.

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Disponível no fotolog Saudades do Rio, de Luiz D’: http://fotolog.terra.com.br/luizd:1282

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Essa paisagem mudou completamente a partir da década de 1950, com a construção do Túnel do Pasmado, de novas pistas na Praia de Botafogo e de novos aterros na enseada. A essa altura, os jogos de pólo aquático já eram disputados nas muitas piscinas que foram construídas pela cidade, até porque as águas da Baía de Guanabara já estavam mais poluídas (além do que eram menos confortáveis do que as instalações em clubes).

O pólo aquático teria grande desenvolvimento quando pela cidade se instalara o húngaro Aladar Szabo, já no final da década de 1950. Mas isso é assunto para outro post.

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O Club de Natação e Regatas existe até os dias de hoje com outro nome: Clube de Natação e Regatas Santa Luzia. Sua sede se localiza nas proximidades do Aeroporto Santos Dumont e do Museu de Arte Moderna.

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O Natação e Regatas, entre tantos outros antigos clubes que ainda existem, merecem mais atenção por sua importância para a memória não só do esporte como da cidade como um todo.

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No próximo post – O Germânia

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Peteca é coisa de carioca?

06/08/2011

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Na semana passada, meu querido amigo André Schetino publicou, no blog História(s) do Sport, um belíssimo post sobre a peteca em Belo Horizonte, dialogando com a dissertação de mestrado do também amigo Renato Machado dos Santos, que tive o prazer de orientar no Programa de Pós-Graduação em Lazer da UFMG.

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No Parque das Mangabeiras, em Belo Horizonte, há 10 quadras públicas de peteca. Foto e informação disponíveis no sítio da Federação Mineira de Peteca: http://www.fempe.com.br/files/quadras.htm.

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Indubitavelmente, Minas Gerais é a terra dos petequeiros. Na capital, Belo Horizonte, por exemplo, é comum encontrarmos quadras e apaixonados pela modalidade que é tanto um esporte quanto uma brincadeira infantil, uma prática que, segundo alguns estudiosos, já existia em muitas tribos indígenas do Brasil (ou pelo menos havia jogos muito parecidos).

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Tobdaé, a peteca dos Xavantes. Foto de Renata Meirelles. Disponível em http://img.socioambiental.org/v/publico/pibmirim/como-vivem/brincadeiras/IMG_0908.JPG.html

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Se Minas Gerais, notadamente Belo Horizonte, é a “meca” da peteca, ela também é praticada em muitos outros locais do país. Existem, por exemplo, federações em 8 estados. Sem falar nos milhares de praticantes informais espalhados por muitas cidades.

Nas praias do Rio de Janeiro também se pratica a peteca, como podemos ver na incrível foto de Sérgio Fonseca (disponível em http://www.papeldepao.com.br/arquivo.asp?mes=12&ano=2003).

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Na verdade, não é de hoje que alguns cariocas apreciam o jogo, que no passado se tornou mais uma das diversões daqueles que apreciavam as praias. Sabemos, inclusive, que uma das “estreias” mundiais da peteca, nos Jogos Olímpicos de Antuérpia (1920), se deu graças a nadadores cariocas que integravam a delegação brasileira, que praticavam o jogo nos seus horários livres.

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Angelo Gammaro, um dos nadadores da equipe olímpica brasileira em 1920.

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Os memorialistas da modalidade, aliás, informam que um dos precursores da modalidade em Belo Horizonte, Enéas Nóbrega de Assis Fonseca, teria conhecido a peteca no Rio de Janeiro, alguns informando, inclusive, que tal contato teria se dado no Clube de Regatas São Cristóvão.

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Foto de sócios e atletas do Clube de Regatas São Cristovão. Fonte: Careta, ano 1, número 27, 5 de dezembro de 1908.

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Na foto abaixo, vemos a prática da peteca no trecho final da Praia de Copacabana, na década de 1930. Destaca-se uma Avenida Atlântica ainda não duplicada e com muitas casas, imperando o ecletismo de estilos. Os trajes são mesclados: uma das mulheres já usa um maiô curto para os padrões da época, enquanto outras usam vestido. Os homens estão de camisa, provavelmente por não se tratar de um dia com muito sol.

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Já as imagens abaixo, disponíveis nos fotologs Rio de Fotos e Saudades do Rio, mostram que, na década de 1940, a peteca continuava sendo praticada. Vemos que a Praia de Copacabana já possuía um maior número de prédios.

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Foto de acervo do Silva, disponível em http://fotolog.terra.com.br/nder:1009

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Foto do acervo do Sr. Souza, disponível em http://fotolog.terra.com.br/sdorio:1357

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A bela fotografia de Jean Mazon nos mostra que a juventude dourada nos anos 1950 seguia praticando a peteca. Os costumes mudavam, a praia cada vez mais se tornava espaço de encontros e flerte, na orla de Copacabana as casas davam espaço aos prédios, para atender o grande número de interessados em viver perto do “paraíso”.

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Entre os amantes do jogo no Rio de Janeiro, como podemos ver na foto abaixo, se encontrava Joaquim Rolla, proprietário do Casino da Urca, que integrava várias equipes de peteca.

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Foto de Indalecio Wanderley. Disponível no fotolog Arqueologia do Rio de Janeiro: http://fotolog.terra.com.br/bfg1:498

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Mesmo que a peteca já não seja tão praticada no Rio de Janeiro como antes, como vimos na primeira imagem ela ainda se faz presente no cotidiano do carioca, não nos deixando esquecer sua trajetória em nossa cidade.

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Algumas diversões do passado já não mais existem nas praias do Rio de Janeiro. Por exemplo, em nossas areias houve época em que o tamborete era muito praticado.

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Material para a prática do tamborete. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1504

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Já o frescobol tem vida mais longa, até hoje marcando presença em nosso litoral.

Ambos merecerão posts no futuro.

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No próximo post – O Hotel Central e os banhos de mar

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O Quadrado da Urca

11/06/2011

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Uma das mais valorizadas e mais antigas regiões do Rio de Janeiro guarda uma parte importante e curiosa da história esportiva da cidade: a Urca.

Naquela região, numa pequena praia entre o Morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar, Estácio de Sá estabeleceu, em 1565, o primeiro núcleo populacional da cidade, em 1567 transferido para a região central, para o Morro do Castelo, por questões de defesa e necessidades de expansão.

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Morro do Castelo visto do Outeiro da Glória. Disponível em http://www.flickr.com/photos/11124678@N02/2042462343/

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É somente a partir da década de 1870 que surgem as primeiras iniciativas mais efetivas de na região construir um novo bairro. Por ocasião da Exposição Nacional de 1908, a localidade conheceu um certo progresso, com a instalação de um cais e uma ponte de acesso, como podemos ver na foto abaixo, do acervo de George Ermakoff, disponível no fotolog “Coisa Lúdica” (http://fotolog.terra.com.br/cartepostale:106).

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Na virada das décadas de 1910/1920, a Sociedade Anônima Empresa Urca deu forma ao bairro que hoje conhecemos. Foi nessa época que foi inaugurado o “Quadrado da Urca”, que existe até hoje, funcionando como uma pequena marina, como podemos ver nas fotos abaixo.

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Quadrado da Urca. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/rafael_netto:16

Quadrado da Urca, à esquerda; Iate Clube, à direita. Disponível em: http://www.almacarioca.com.br/angemon/index.htm

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O que nem todos sabem é que o Quadrado fora previsto, no contrato de concessão para a construção do bairro, para ser uma piscina com toda infraestrutura necessária (inclusive arquibancadas) para abrigar as competições aquáticas dos Jogos Sul-Americanos organizados, junto com a Exposição Internacional de 1922, para comemorar o centenário da independência do país.

Como vimos em post anterior, as primeiras provas de natação da cidade foram disputadas nas águas da Baía de Guanabara, nas praias da região central. Isso tornava a prática muito suscetível às condições do mar e do tempo, o que contribuía para o forjar de uma representação heróica dos nadadores. Um dos exemplos foi Abrahão Saliture, um dos mais incríveis atletas brasileiros de todos os tempos.

Lembremos o que foi talvez uma dessas primeiras representações no país, encontrada em um dos grandes romances de nossa história: Dom Casmurro, de Machado de Assis.

– O mar amanhã está de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar, ao pé de mim.
– Você entra no mar amanhã? (Bentinho)
– Tenho entrado com mares maiores, muito maiores. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões disse ele batendo no peito, e estes braços; apalpa (Escobar).
Apalpei-lhe os braços, como se fossem os de Sancha. Custa-me esta confissão, mas não posso suprimi-la; era jarretar a verdade. Nem só os apalpei com essa idéia, mas ainda senti outra cousa, achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar.
 
 

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O surgimento das piscinas de um lado reduziu os “atos de heroísmo” por ocasião das provas de natação; de outro lado, contribuiu para a popularização da prática, tanto em função do aumento do afluxo de público quanto devido aos melhores resultados obtidos nas competições, que se tornaram cada vez mais emocionantes. Paulatinamente crescia também o número de praticantes (ver outro post sobre as aulas no Copacabana Palace).

O Quadrado da Urca foi a primeira piscina da cidade, ainda usando as águas da Baía de Guanabara. Vemos abaixo uma imagem dessa piscina por ocasião dos Jogos de 1922, com estrutura preparada para as provas de natação, plataforma de saltos e trave para os jogos de pólo aquático (foto publicada na Revista da Semana de 23 de Setembro de 1922, disponível no fotolog “Foi um Rio que Passou”, de André Decourt).

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Essa piscina foi a principal da cidade até o surgimento da piscina do Clube de Regatas Guanabara, também construída aproveitando as águas da Baía…mas esse é assunto para outro post.

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Tive o prazer de ter sido professor de natação por dois anos, uma experiência incrível. Ministrava aulas na piscina do Esporte Clube Maxwell, uma pequena agremiação localizada no bairro de Vila Isabel.

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Fachada atual do E.C. Maxwell. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Esporte_Clube_Maxwell.JPG

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Ao procurar informações sobre esse clube, descobri que tem sido um dos destaques dos campeonatos de Futebol de Mesa (o nosso velho conhecido “jogo de botão”), em 2010 sagrando-se tetracampeão estadual na categoria “dadinho” (para mais informações, ver http://www.maxwellfutmesa.kit.net/).

Saudades dos velhos jogos de botão!

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Vista aérea do E.C. Maxwell

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No próximo post, o Hotel Internacional e os “esportes ingleses”.

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O Copacabana Palace e o esporte

15/05/2011

 

Abaixo vemos uma foto (disponível em http://diariodorio.com/copacabana-palace-completa-85-anos/) de um dos mais importantes e famosos hotéis do Rio de Janeiro e do Brasil: o Copacabana Palace.

Planejado tendo em vista os festejos do Centenário da Independência, realizados no Rio de Janeiro em 1922, o Copacabana Palace só foi inaugurado em agosto de 1923. De propriedade da família Guinle, foi desenhado por Joseph Gire, que teria se inspirado em dois hotéis: o Negresco de Nice e o Carlton de Cannes.

Que relação teria esse hotel com o desenvolvimento do esporte na cidade?

A foto abaixo (disponível em http://rio-curioso.blogspot.com/2010/09/morrotes-do-inhanga.html) apresenta um panorama das Praias de Copacabana e do Leme na transição dos anos 1910-1920, antes da construção do hotel.

No centro da imagem, chegando até o mar, vemos a Pedreira do Inhangá, que na época marcava a separação entre a Praias do Leme e de Copacabana. O Copacabana Palace foi construído grudado a essa elevação, como podemos ver na fotos abaixo (disponíveis respectivamente em: http://www.rioquepassou.com.br/2011/01/27/copacabana-final-dos-anos-20/ e http://fotolog.terra.com.br/luizd:604, essa última um Postal da Coleção de Klerman Wanderley Lopes, como informa Luiz D’).

Com o tempo, sentiu-se a necessidade de construir uma piscina para o hotel e a solução encontrada para sua instalação foi a destruição de uma parte da Pedreira (na década de 1950 totalmente destruída para dar lugar aos edifícios Chopin, Prelúdio e Balada). Com projeto de César Melo e Cunha, a piscina foi inaugurada em 1934 (depois ampliada em 1949).

A foto abaixo, da década de 1950, de autoria de J. Medeiros (disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:183) nos mostra ao centro o hotel com a piscina já construída, substituindo a antiga Pedreira do Inhangá.

 

Vejamos outra foto do hotel na década de 1950, do acervo de Klerman Wanderley Lopes (disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:648).

 

 

Pois bem, nessa piscina, por cerca de 25 anos, deu aulas de natação uma das mais importantes personagens do esporte nacional: Maria Lenk, atleta olímpica (1932 e 1936), recordista mundial nos 200 e 400 metros peito (1939), professora da Escola Nacional de Educação Física e Desportos da Universidade do Brasil, uma das responsáveis pela difusão da prática da natação no Rio de Janeiro.

Abaixo vemos uma rara imagem de suas aulas no Copacabana Palace, por volta dos anos 1953/1954, como nos informa Luiz D’ (disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1343).

 

Curiosamente, no post acima citado, do fotolog Saudades do Rio, vemos Mario Costa comentar que sua mãe, por não gostar do método de Maria Lenk, o levou para aprender a nadar no Hotel Glória, com a professora Krisca.

A história da natação é fascinante e nos ajuda a entender uma das dimensões mais importantes da construção de uma identidade carioca: a relação com a praia. A história das piscinas é um capítulo à parte. Retomaremos esses temas em outros posts.

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No momento em que publicamos esse post, lamentavelmente está em risco uma das piscinas mais importantes da cidade, a do campus da UFRJ na Praia Vermelha. Para saber mais sobre o tema, acessar: http://www.observatoriodauniversidade.blog.br/Blog/blog/2011/05/03/01f4f675-24c3-4e80-9351-064bd3e5bb48.aspx

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Curiosamente o Copacaba Palace foi construído, na época, na Praia do Leme! Por que não então Leme Palace? Mistérios da história…


Sítios “Sportivos”: a Praia de Santa Luzia

08/05/2011
 

Vejamos a foto abaixo, de autoria de Rafael Netto (disponível no fotolog “Rio Hoje”, em http://fotolog.terra.com.br/rafael_netto:149).

 

Em primeiro plano, trata-se da Igreja de Santa Luzia, à frente dos prédios que ocupam nos dias de hoje a Esplanada do Castelo, que substituí o Morro do Castelo, um dos berços históricos da cidade do Rio de Janeiro, demolido paulatinamente tendo em vista o desenvolvimento urbano e as orientações de engenheiros e sanitaristas, destacadamente no período da Reforma Pereira Passos, no início do século XX, quando parte cedeu lugar à Avenida Central, e na década de 1920, dando espaço para as construções das comemorações do 1º Centenário da Independência (1922). 

No final do século XVI, no mesmo local atual, já existia uma pequena capela, que foi reconstruída em 1752 e em 1872. Santa Luzia já era cultuada, na verdade, desde o tempo em que a cidade fora instalada no Morro Cara de Cão, ao redor de uma imagem trazida por Estácio de Sá.

As duas fotos abaixo, disponíveis no sítio “Curiosidades Cariocas” (http://rio-curioso.blogspot.com/2008/03/igreja-de-santa-luzia.html), nos dão uma noção da distância entre a Igreja e o mar nos dias de hoje (a primeira foto é dos anos 1960, a segunda é um mapa retirado do Google, a seta amarela indica o local do templo):

 

O que essa Igreja teria a ver com a prática esportiva? Temos que primeiro conhecer sua localização até a década de 1920. Vejamos a bela foto de Georges Leuzinger (do acervo de George Ermakoff), provavelmente de 1865 (disponível em vários sítios, mas por nós retirada do belíssimo fotolog de Luiz D’, “Saudades do Rio”: http://fotolog.terra.com.br/luizd:612).

 

 

Pois bem, essa praia, que leva o nome da igreja, Santa Luzia, foi um dos sítios mais “sportivos” da cidade durante décadas. Por lá foram instalados muitos balneários, já que foi adotada como local usual de banhos de mar, inicialmente como prática terapêutica, depois como hábito de lazer. Essa nova dinâmica social gestou as condições para o desenvolvimento de algumas práticas esportivas. 

Por lá se instalaram clubes, alguns desses ainda hoje localizados em região próxima, nas cercanias do Aeroporto Santos Dumont. Por lá se realizaram as primeiras competições de remo, inclusive o notável desafio entre as canoas Lambe-Água e Cabocla, em 1846, no Jornal do Comércio celebrado como um dos eventos que desencadearia o desenvolvimento do esporte náutico na cidade. Por lá foi disputada a primeira edição do Campeonato Brasileiro de Natação, uma única prova realizada entre a Praia e o Forte de Villegaignon, vencida pelo incrível Abrahão Saliture.

Voltaremos ao tema em outras ocasiões. Por ora, vejamos a bela foto de 1917, um banho de mar de frente para a Igreja de Santa Luzia (disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:107).

A destacar os longos trajes de banho (se comparados aos atuais), as roupas dos observadores que se encontram no cais (no lado esquerdo de quem observa a foto), a pouca presença de mulheres, a pequena faixa de areia (perceptível no lado direito de quem observa). 

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Esse post inaugura a série “Sítios Históricos – Praia de Santa Luzia”. O intuito é com o decorrer do tempo apresentar alternadamente outras temáticas.

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Obviamente não tenho idade para ter me banhado nas águas da Praia, mas a Igreja de Santa Luzia faz parte de minha memória. Como tive problemas de visão, minha mãe fez uma promessa à Santa e todo dia 13 de dezembro lá estávamos para pedir a sua benção e lavar os olhos com a água benta.

Não sou mais católico, mas me lembro com carinho desses momentos cansativos (morávamos no Bairro Jabour e o antigo 396, que vinha pela Avenida Brasil, demorava um bocado!), mas divertidos (ir ao Centro, “à cidade” como se dizia, era sempre um passeio).

O fato é que, entre médicos, simpatias e promessas, fui melhorando, graças a todas essas coisas, mas fundamentalmente graças à minha mãe, a quem homenageio e agradeço por isso e por muito mais nesse dia a ela dedicado.

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Posteriormente descobri que algumas casas de umbanda sincretizam Santa Luzia com a orixá Ewá. Ri Ro Ewá!

  


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