Celeiros de craques

08/10/2011

.

Uma das teses mais defendidas pelos historiadores e memorialistas do futebol é a de que, no Brasil, o velho esporte bretão teria sido a princípio uma modalidade circunscrita às elites, sendo posteriormente apreendida de muitas formas pelas camadas populares.

.

Foto de Marco Carneiro de Mendonça. Primeiro goleiro da seleção brasileira, era reconhecido pela elegância. Membro da elite carioca, retirou-se do futebol no seu momento de popularização.

.

Sem ser um especialista no tema, essa assertiva sempre me pareceu estranha. Tendo em conta o que houve com outras modalidades, sempre me pareceu mais plausível pensar em várias vias de desenvolvimento: na mesma medida em que são multifatoriais as razões para que o futebol rapidamente se espraiasse pelas cidades, múltiplos e simultâneos teriam sido os seus locais de origem.

 De qualquer forma, é altamente reconhecida a importância do meio fábril para a popularização do futebol: paulatinamente, na prática e no imaginário, as fábricas passaram a ser consideradas verdadeiros “celeiros de craques”.

.

Foto da Fábrica Bangu, com o campo de futebol à frente

.

Uma das mais conhecidas relações entre uma empresa fabril e um clube de futebol é a que se estabeleceu entre a Fábrica Bangu, inaugurada em 1893, e o Bangu Athlétic Club, criado em 1904.

 O futebol e o cricket começaram a ser praticados por influência dos diretores da Fábrica. Por motivos diversos, logo os funcionários também com as modalidades estavam envolvidos. Tais encontros geraram novidades, como a presença de jogadores negros em uma época em que isso ainda era encarado com estranheza.

.

O Bangu em 14 de maio de 1905, antes da vitória por 5 a 3 sobre o Fluminense, no campo da Fábrica. A partir da esquerda, última fila: José Villas Boas (presidente), Frederick Jacques e João Ferrer (presidente honorário); fila do meio: César Bochialini, Francisco de Barros, John Stark, Dante Delocco e Justino Fortes; fila da frente: Segundo Maffeu, Thomas Hellowel, Francisco Carregal (o primeiro negro a integrar uma equipe de futebol), William Procter e James Hartley (retirado do sítio bangu.net, disponível em: http://www.bangu.net/informacao/reportagens/20050513.php).

.

Outra importante Fábrica ao redor da qual se organizou um clube esportivo foi a Cruzeiro, fundada em 1895, localizada no bairro do Andaraí. Criado em 1909, o Andaraí Esporte clube foi um dos mais ativos dos primórdios do futebol carioca. Sua equipe também era marcada pela presença de indivíduos das camadas populares.

.

Time e escudos do Andarahy Atletic Club. Disponível em: http://www.timesdobrasil.hd1.com.br/.

.

Era mesmo comum que ao redor das fábricas se constituíssem agremiações recreativas, muitas tendo o futebol como modalidade principal. Um exemplo é o Alliança Foot Ball Club, criado em 1910, por empregados da Fábrica Aliança. Fundada na década de 1880, no bairro de Laranjeiras, durante anos essa foi uma das maiores empresas texteis do país.

.

Região de Laranjeiras, na altura da Rua General Glicério, onde se encontrava a vila operária e a Fábrica Aliança. Disponível em: http://www.fotolog.com.br/rioantigo/6134552

.

No decorrer do tempo, tornou-se comum a realização de campeonatos de futebol entre os funcionários de diferentes fábricas ou setores de produção. Vejamos um belíssima foto de 1925, de jogadores da Liga Gráfica, disponível no incrível fotolog de Roberto Tumminelli (http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema_2:294).

.

Foto do time do Rialto Futebol Clube. Campo localizado nas redondezas da Rua Francisco Bicalho/São Cristovão.

.

Efetivamente essa é uma das facetas menos conhecida de nosso futebol brasileiro. O aprofundamento dos estudos sobre a participação de operários e membros das camadas populares certamente ajudará a entender melhor sua rápida difusão pela cidade e o fascínio que a prática ocasiona.

.

——–xxxxxxxx——–

.

Não devemos esquecer que um dos grandes nomes do futebol brasileiro e mundial começou sua trajetória em um time de fábrica: Garrincha, que trabalhou na Companhia America Fabril Fábrica Pau Grande.

.

Agachado, à esquerda, Garrincha integrando o time da fábrica. Disponível em: http://textileindustry.ning.com/forum/topics/garrincha-o-idolo-do-futebol-na-industria-textil

.

——–xxxxxxxx——–

.

Nos anos 1990, tive a oportunidade de ser coordenador de lazer da empresa de eletrodomésticos Ponto Frio Bonzão. Entre minhas funções estava a de organizar campeonatos internos de futebol e a participação da equipe da empresa (a seleção Bonzão, treinada pelo querido amigo Gerônimo) na Copa Philco Hitachi, da qual nos sagramos tricampeões, o que nos deu a posse definitiva do troféu (a última conquista em uma final emocionante, uma vitória apertada de 1 x 0 contra a Arapuã).

.

——–xxxxxxxx——–

.

Quem está desenvolvendo uma bela investigação sobre os clubes ligados à Fábrica Bangú e à Fábrica Cruzeiro é o amigo Nei Santos Junior, que estou tendo o prazer de orientar no Programa de Pós-Graduação em História Comparada. Em breve teremos um belo trabalho na praça!

.

——–xxxxxxxx——–

.

Devido a motivos profissionais, ficaremos duas semanas sem atualização. Voltamos no dia 30 de outubro com o post “Leblon – um bairro esportivo”.

.

Anúncios

Germânia: o mais antigo clube

27/08/2011

.

190 anos. A Sociedade Germânia, fundada antes mesmo da independência, em 1821, por um grupo de alemães que se estabelecera no Rio de Janeiro, é o mais antigo clube da cidade e provavelmente do país.

 O impulso era compreensível. Os alemães, desde o século XVIII, estavam acostumados a se reunir em associações recreativas, enquanto no Brasil das primeiras décadas do XIX ainda era comum a diversão em casa, em família. A agremiação, assim, dava conta do desejo de um grupo de estrangeiros, estabelecendo laços de identidade e oportunidades de sociabilidade.

.

Atual sede do Germânia. Fonte: sítio do clube (http://www.sociedadegermania.com.br/)

.

Sua sede atual localiza-se no bairro da Gávea, numa antiga residência de Epitácio Pessoa Filho, mas foi longa sua trajetória pela cidade, expressão das diversas mudanças pelas quais passou e de distintos momentos de nossa história.

Um passeio pelas sedes do clube é possível graças ao incrível trabalho de Roberto Tumminelli no fotolog Carioca da Gema.

.

Rua dos Ourives, entre a Rua da Alfandega e Rua do Hospício. Foto de Augusto Malta

.

O clube foi fundado em um restaurante localizado na antiga Rua dos Ourives (atual Miguel Couto). No decorrer do século XIX, as sedes foram instaladas na Rua Fresca (1841), na Rua da Alfândega (1891), até chegar em 1920 à Praia do Flamengo.

Fiquei com a impressão de que a imagem abaixo seria da Rua da Alfândega, mas Tumminelli informa que se trata da primeira sede localizada na Praia do Flamengo.

.

.

O clube cada vez mais iria se afirmar como um espaço de um estrato das elites cariocas. Vejamos a beleza da segunda sede do clube na Praia do Flamengo, na época um dos lugares mais fashions da cidade.

.

.

Essa sede entrou para a história por ter sido invadida por estudantes, em 1942, em função dos conflitos ocasionados pela 2ª Grande Guerra. Criada há menos de 5 anos, a União Nacional dos Estudantes desencadeou uma campanha contra o fascismo e exigia que o governo confiscasse os bens de alemães. Nesse contexto, ocupou o prédio onde viveu seus grandes momentos, até ser destruído em 1964.

.

À esquerda, sede do Germânia ocupada pelos estudantes/1943. À direita, sede da Une incendiada em 1964. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema_2:195 e http://www.rioquepassou.com.br/2005/04/01/incendio-do-predio-da-une-1964/

.

Com a perda da sede da Praia do Flamengo, depois de mais de 10 anos, o clube transfere-se, em 1953, para terrenos na Rua Real Grandeza (onde hoje se localiza o prédio de Furnas), em Botafogo, e muda de nome: Beira Mar.

ATENÇÃO: RECEBI A MENSAGEM ABAIXO, DE AUTORIA DE CARLOS VAN DEN BOSCH, A QUEM AGRADEÇO PELA GENEROSA INFORMAÇÃO

“O Clube Beira Mar já existia há anos no casarão onde hj está Furnas, o Germânia, que estava sem sede social desde a invasão dos estudantes, migrou para o Beira Mar quando recebeu a indenização pela invasão. Pelo menos é o que meus pais me diziam, eles eram sócios do Beira Mar”

 .

Sede do Beira Mar. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema_2:198

.

Por lá o Germânia ficou até a transferência para a atual sede. Enquanto isso, o antigo prédio da UNE foi definitivamente destruído na década de 1980, dando lugar a um estacionamento. Só recentemente o governo federal devolveu o terreno para a entidade, comprometendo-se a construir um novo prédio, ainda uma promessa.

.

.

 ——–xxxxxxxx——–

.

No próximo post – Os Estádios do Rio

.


O surfe: uma novidade nas praias

30/07/2011

.

Depois de receber, em maio, uma etapa do ASP World Tour, o campeonato mundial da Associação de Surfistas Profissionais, a Praia do Arpoador nessa semana sediou o SuperSurf ASP World Masters Championship, que reúne os surfistas mais velhos que fizeram história na modalidade.

.

Na etapa do ASP World Tour realizada no Arpoador, sagrou-se vencedor Adriano de Souza, que se tornou o primeiro brasileiro a liderar o ranking mundial

.

A Praia do Arpoador, que já recebera outras etapas do mundial (inclusive em 1976, ano da criação do circuito), é considerada um dos berços do surfe brasileiro. Por lá, no que antes era uma praia distante e deserta, a modalidade deu alguns de seus primeiros passos e passou por mudanças dialogando com a cidade em transformação.

A praia foi assim denominada, no século XVIII, porque os seus famosos rochedos abrigaram muitos arpoadores de baleias, quando essa prática era importante na economia da cidade. Foi só mesmo na década final do século XIX que a região começou a ser habitada, permanecendo a pouca densidade populacional até a década de 1940.

Abaixo uma foto do Arpoador no início do século XX, disponível no fotolog de Luiz Darcy.

.

.

Como podemos ver na foto abaixo, na década de 1950 a região já estava mais habitada. Já se percebe ao fundo (no meio da foto) alguns prédios. O morro da lateral direita da imagem é o atual Parque Garota de Ipanema.

.

.

É nessa década que um grupo da juventude dourada da Zona Sul começa a assustar os banhistas descendo as ondas em cima de “tábuas de madeira”. As primeiras pranchas, pesadas e de madeira, no decorrer da década seriam substituídas por outras confeccionadas de fibra de vidro, que facilitaram a prática. Na verdade, muitos já “pegavam jacaré” com pequenas pranchas de madeira, depois substituídas por de isopor, e pés de pato.

.

Pranchas de surfe encostadas na Estação Telegráfica que existiu durante décadas no Arpoador. 1959. Destaque para o padrão das pinturas. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:472

.

Abaixo vemos mais um flagrante da novidade. Um dos surfistas já usava uma bermuda com motivos florais.

.

Surfistas no Arpoador. Década de 1960. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1348

.

No contexto de uma cidade que valorizava cada vez mais a praia e a natureza (até mesmo porque crescia rapidamente), o surfe foi se popularizando. A chegada das pranchas confeccionadas com poliuretano, mais leves e ágeis, contribuiu para esse processo. Logo o mar do Arpoador estaria pontilhado de surfistas, como podemos ver na foto abaixo, disponível no fotolog Saudades do Rio (http://fotolog.terra.com.br/luizd:1019).

.

.

Na década de 1970, o surfe seguiria a trilha de popularização. Nos anos iniciais, momentaneamente o point se transferiu para Ipanema, em função de um fato em certa medida inusitado: a instalação de um Píer.

.

.

A estrutura foi montada para a instalação de uma tubulação que jogaria o esgoto da região no alto mar. Isso interferiu na formação das ondas, atraindo os surfistas.

.

Píer de Ipanema. 1974. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/sdorio:2317

.

Na areia também houve mudanças, com a formação de dunas. A região atraiu artistas, intelectuais, hippies, descolados em geral. Os surfistas passaram a dialogar mais constantemente com as ideias de contracultura, amor livre, uso de drogas.

.

.

Uma nova juventude se forjava em uma cidade em rápida mudança e o surfe de alguma forma assumia o papel da prática esportiva preferida de um determinado grupo nesse momento.

.

.

Na década de 1980, o surfe definitivamente conformar-se-ia como modalidade profissional. Sua popularidade aumentaria ainda mais: sua presença tornaria-se constante no cinema, nas rádios, nas emissoras de televisão.

.

——–xxxxxxxx——–

.

Arduíno Colassanti foi um dos símbolos dessa nova juventude dourada da Zona Sul. Foi um dos pioneiros do surfe e da caça submarina, símbolo sexual e ator em muitos filmes, inclusive tendo protagonizado o primeiro nu frontal masculino do cinema brasileiro, em “Como era gostoso meu francês”, de Nelson Pereira dos Santos.

.

Arduíno Colassanti. Anos 1960. Disponível em http://therabadasport.wordpress.com/2008/09/

.

——-xxxxxxxx——–

.

Vale a pena uma visita à página do Museu Benett Foam, com imagens de pranchas antigas: http://therealsurfer.sites.uol.com.br/evolucaoprancha.htm#d

Abaixo três modelos pioneiros de pranchas. A de 1949 é provavelmente uma das mais antigas do país. A do meio é de madeirite. A da direita foi confeccionada pela primeira fábrica do Brasil: a São Conrado Surfboards.

.

.

——–xxxxxxxx——–

.

No próximo post – Peteca é coisa de carioca?

.


O green: o golfe no Rio de Janeiro

01/07/2011

.

Vejamos a foto abaixo. Quem diria que ela tem relação com uma modalidade esportiva?

.

.

Trata-se de uma fazenda que existia onde hoje está instalada a mais antiga agremiação de golfe do Rio de Janeiro: o Gávea Golf and Country Club.

A exemplo de congêneres europeus, o clube foi instalado em uma, na época, região pouco habitada e afastada do centro urbano, a qual se chegava com dificuldades pela ausência de bom sistema de transporte: Gávea/São Conrado.

Nas imagens abaixo, disponíveis no fotolog “Saudades do Rio”, vemos a localidade na década de 1910.

.

.

Em 1926, um grupo de altos funcionários, de origem inglesa, da Tramway, Light & Power, instalou, em terras adquiridas da empresa que trabalhavam, a sede do Rio de Janeiro Golf Club, que fora fundado em 1921. Na imagem abaixo, da década de 1940, podemos ver a beleza da sede do Gávea Club (novo nome do clube).

.

.

Nas fotos abaixo podemos ver a diferença das redondezas do clube: a em preto e branco é da década de 1930 (e está disponível em http://fotolog.terra.com.br/sdorio:943), a colorida é um panorama aéreo atual.

.

.

O clube, com uma sede cada vez mais confortável, começou a atrair a elite econômica e política da, na época, capital do país, passando a ser local obrigatório de visitas dos estrangeiros ilustres que a cidade visitavam. Na verdade, governantes eram presenças constantes, convidados pela direção, uma forma de demonstrar proximidade com o poder, mas também de obter certos benefícios para a agremiação.

.

Sócios do clube em reunião no ano de 1928. Acervo de Myriam Gewerc. Disponível em http://www.rioquepassou.com.br/2008/08/15/gavea-golf-country-club-1928/

.

O perfil dos associados pode ser percebido pela elegância das vestimentas, como podemos ver na imagem acima e na foto abaixo:

.

.

Com esse perfil, não surpreende que determinadas propagandas tenham feito relação dos produtos anunciados com o golfe, como vemos no caso dos cigarros Hollywood, em reclame publicado em 1950, na revista A Sombra (disponível em http://fotolog.terra.com.br/reclames_antigos:375).

.

.

O Gávea Golf não é o único clube da modalidade da cidade. Desde 1933, existe também o Itanhangá Golf Club, que ainda mais do que a agremiação de São Conrado nasceu com a ideia de ser um country club, no modelo dos europeus.

.

Foto da inauguração do Itanhangá Golf Club. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1212

.

Oferecia-se ao sócio a possibilidade de construir chalés, que poderiam ser usados para hospedagens nos fins de semana ou férias. Devemos lembrar que esse clube se localizava ainda mais distante do centro urbano, nas longínquas terras da Barra da Tijuca.

.

Imagem do Google Maps. As indicações (a) e (c) são o Itanhangá; a (b) é o Gávea.

.

Como no caso do Gávea, o Itanhangá logo virou um centro de encontro da elite carioca, inclusive de políticos e dirigentes.

Abaixo vemos uma cena de Getúlio Vargas, no Itanhangá, praticando seu esporte favorito. Algumas versões dizem que o presidente passou a frequentar preferencialmente essa agremiação por causa da facilidade do trajeto.

.

.

Os clubes de golfe, enfim, eram uma expressão dos desejos de status e distinção de uma elite urbana que se consolidava na cidade, na mesma medida em que ajudavam a construir a ideia de cidade maravilhosa, sendo também apresentados como atrações turísticas que demonstravam as belezas da capital da República.

.

Os clubes apresentados como atração em guia turístico que indicava circuitos de passeios pelo Rio de Janeiro. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/sdorio:331

.

——–xxxxxxxx——–

.

Uma foto de Getúlio Vargas jogando golfe é a capa da recém lançada edição de Recorde: Revista de História do Esporte. Vale a pena acessar!

.

——–xxxxxxxx——–

.

Próximo post – “Nas escolas: a Educação Física”.

.


“É o novo ground”: o Clube de Regatas do Flamengo

25/06/2011

.

Em nosso último post, apresentamos uma foto do campo do Paysandu Cricket Club, localizado nas Laranjeiras, na ocasião ocupado pelo Clube de Regatas do Flamengo, que por lá realizava seus jogos de futebol. Independentemente das preferências clubísticas, é essa uma das mais importantes agremiações da cidade.

Não passou despercebida a importância do clube a João do Rio, um dos literatos que melhor expressou o conjunto de mudanças que marcou o Rio de Janeiro na transição dos séculos XIX e XX. Em sua crônica A hora do football, publicada no livro Pall-Mall Rio, o inverno carioca de 1916 (lançado em 1917), o escritor observa a redução das resistências para com os esportes, que progressivamente tornavam-se uma prática valorizada pelos “modernos”:

“Fazer sport há vinte anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça, quando um dos meninos arranjava um altere. Estava perdido. Rapaz sem um pince-nez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era um homem estragado. E o Club de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde irradiou a avassaladora paixão pelos sports”.

.

João do Rio

.

Na visão de João do Rio, “O Club de Regatas do Flamengo tem, há vinte anos pelo menos, uma dívida a cobrar dos cariocas. Dali partiu a formação das novas gerações, a glorificação do exercício físico para a saúde do corpo e a saúde da alma”. Fundado como Grupo de Regatas, em 1895, seus associados eram principalmente jovens pertencentes aos setores urbanos das elites, entusiastas e praticantes do remo, habituées dos banhos de mar.

.

Segunda sede do Flamengo, construída em 1920, no mesmo local onde fora fundado o Grupo de Regatas. Disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:990

.

Conta Mário Filho, de forma romanceada, que por ocasião da criação do Flamengo, observando o entusiasmo dos jovens envolvidos, o padre Nattuzi procurou o Dr. Lourenço Cunha, pai de José Agostinho (um dos fundadores), lhe perguntando se não ficava preocupado com tamanho interesse, pois a fama das regatas “não era lá das melhores”. Cunha teria respondido que acreditava no esporte como uma escola de formação e disciplina, uma prática saudável, por isso não se importava.

.

.

O fato é que depois de superada certa sensação de estranhamento ou desprezo por parte da população local, a sede do Flamengo, localizada na Praia do Flamengo, 22 (hoje número 66), tornou-se um centro de encontros, um local muito procurado por um setor da juventude que adotava novos parâmetros de sociabilidade e de exposição corporal: “Rapazes discutiam muque em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculana dos braços. Era o delírio do rowing, era a paixão dos sports” (João do Rio).

.

A segunda sede foi destruída em 1979. No local hoje se encontra um prédio de escritórios. Foto disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:896

.

A praia do Flamengo, na verdade, transformou-se num dos lugares mais fashions da cidade. O Hotel Central, um dos primeiros balneários da cidade, oferecia boas condições para os que desejavam com conforto se deliciar com os banhos de mar (futuramente dedicaremos a esse hotel um post). Regatas eram disputadas nas águas da Baía de Guanabara.

.

Regata na Praia do Flamengo, em frente à sede do Clube, década de 1920. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/nder:1557

.

Devemos também lembrar que o clube estava muito próximo do Palácio do Catete, chegando a compartilhar com a Presidência da República o cais que se localizava em frente à propriedade (podemos vê-lo na imagem abaixo).

.

Detalhe de um postal da década de 1910, disponível no fotolog “Foi um Rio que Passou”, de André Decourt: http://www.rioquepassou.com.br/2004/03/21/1590/

.

O futebol só entra na história do Clube em 1911, com a chegada de um grupo de jogadores dissidentes do Fluminense. Os primeiros treinos foram realizados em um campo aberto localizado na Glória, nas redondezas da sede.

.

Campo onde o primeiro time de futebol do Flamengo treinava. Glória, 1911. Ao fundo o centro da cidade bastante iluminado. Acervo de Francisco Patrício. Disponível em http://www.rioquepassou.com.br/2005/12/20/gloria-e-centro-15-de-novembro-de-1911/

.

Poucos anos depois a equipe de futebol passou a realizar seus jogos no antigo campo do Paysandu. A acreditar em João do Rio, foi uma festa a primeira partida do clube nessas dependências:

“O campo do Flamengo é enorme. Da arquibancada eu via o outro lado, o das gerais, apinhado de gente, a gritar, a mover-se, a sacudir os chapéus. Essa gente subia para a esquerda, pedreira acima, enegrecendo a rocha viva. Embaixo a mesma massa compacta. E a arquibancada, o lugar dos patrícios no circo romano era uma colossal, formidável corbelha de belezas vivas, de meninas que pareciam querer atirar-se e gritavam o nome dos jogadores, de senhoras pálidas de entusiasmo, entre cavalheiros como tontos de perfume e também de entusiasmo”.

.

Primeiro time de futebol do Flamengo. Em pé: Lawrence, Amarante, Píndaro, Baena, Nery e Gallo. Sentados: Curiol, Arnaldo, Zé Pedro, Miguel e Borgerth. Disponível em http://www.maisfla.com/noticias/do-inicio-do-futebol-ao-fim-do-amadorismo/

.

A despeito da importância de sua ligação com o esporte náutico, o Flamengo entraria mesmo para a história pela popularidade que angariaria no futebol.

Tinha mesma razão o grande João do Rio: “Não! Há de fato uma coisa séria para o carioca: o football!”.

.

——-xxxxxxx——-

.

Na década de 1930, o Flamengo começa a se transferir para a Gávea, onde construiria um estádio e a atual sede. Na década de 1950, contudo, construiu uma sede no Morro da Viúva. Esse prédio, que hoje se encontra em condições não totalmente adequadas de preservação, está sendo negociado com o mega-empresário Eike Batista para ser transformado em um hotel de luxo.

Será que ele vai comprar a cidade toda?

.

.

——-xxxxxxx——-

.

Não foi exatamente a minha preferência clubística que me levou a preparar esse post (inclusive futuramente serão dedicados posts a outros importantes clubes da cidade). De qualquer forma, a minha relação com o Flamengo é algo que marca profundamente minha memória e minha história. Já escrevi algumas coisas sobre isso, disponíveis no blog A Lenda, do amigo Rafael Fortes, e no sítio do Sport, laboratório que coordeno.

.

——-xxxxxxx——-

.

Na próxima semana, o green! O golfe no Rio de Janeiro.

.


O Cricket e o Hotel Internacional

18/06/2011

.

Hoje temos um post duplo com o de Valéria Guimarães no História(s) do Sport.

——-xxxxxxx——-

Não é equivocado dizer que o esporte foi um dos primeiros e mais notáveis produtos de exportação dos ingleses: tendo se sistematizado da forma que hoje conhecemos na Inglaterra da transição dos séculos XVIII e XIX, foi a bordo dos navios da marinha britânica que a prática inicialmente foi se espraiando pelo planeta, em cada localidade sendo apreendida com peculiaridades, dialogando com a cultura local.

Por aqui também as primeiras iniciativas esportivas foram organizadas por ingleses, que no Rio de Janeiro se estabeleceram por razões comerciais e políticas, notadamente após a chegada da Corte portuguesa em 1808.

.

Chegada da Família Real Portuguesa ao Rio de Janeiro em 7 de março de 1808 (Geoffrey Hunt, óleo sobre tela, 60 X 91,4 cm). Disponível em http://www.arqnet.pt/portal/imagemsemanal/novembro0203.html. A Armada Britânica deu suporte às naus portuguesas na travessia do Atlântico.
.

A colônia britânica instalada no Rio de Janeiro organizava constantemente piqueniques, bailes, passeios e “jogos ingleses”. Alguns desses eventos são registrados no diário de Graham Eden Hamond, que na cidade esteve em 1825, comandando o navio que trouxe Charles Stuart, embaixador responsável por negociar o reconhecimento português da Independência brasileira, e entre 1834 e 1838, como almirante em chefe da esquadra do Atlântico Sul.

Nas suas anotações de 8 de setembro de 1836, Graham informa que foi convidado para um jogo de cricket em São Cristóvão: “Há grande interesse no jogo e lamentarei não ter ido”.

.

.

Por aqui o cricket não chegou a se popularizar e ser muito apreciado, mas houve muitas agremiações de ingleses que à modalidade se dedicaram.

A agremiação pioneira parece ter sido fundada em 1864, no bairro de São Cristovão, o British Cricket Club, seguindo-se vários clubes de curta duração: o Artisan Amateurs Cricket Club, o Rio British Cricket Club, o Anglo Brazilian Cricket Club, o British and American Club.

Maior destaque merece o Rio Cricket Club, fundado em 1872, no bairro de Botafogo, que deu origem a dois clubes, ambos ativos até os dias de hoje. Um deles é o Rio Cricket e Associação Athlética, que se instalou em Niterói, em 1897 (uma curiosidade: foi nessa agremiação que foi disputado, em 1901, aquele que entrou para a memória popular como o primeiro jogo de futebol de um equipe carioca).

.

Escudo e “ground” do Rio Cricket Club em 1908. Disponível em: http://reliquiasdofutebol.blogspot.com

.

O outro clube é o Paysandu Cricket Club, atualmente Paissandu Atlético Clube, que carrega em sua denominação o nome da rua onde sua primeira sede foi instalada, em 1880, de frente para o Palácio Guanabara, próxima do local no qual futuramente seria construído o Fluminense Futebol Clube.

Vemos abaixo uma imagem (dos anos 1920) do campo do Paissandu já ocupado pelo Clube de Regatas do Flamengo (foto de autoria de William Nelson Huggins, disponível no fotolog Carioca da Gema, de Tumminelli)

.

.

Esse campo ocupava uma vasta extensão no bairro de Laranjeiras (no qual moravam muitos membros das elites cariocas, mas que também possuía grande população operária, especialmente trabalhadores da Fábrica Aliança). No mapa abaixo (panorama atual retirado do Google Maps), o que está em vermelho é aproximadamente a sede do Paissandu; o campo à esquerda é o atual estádio do Fluminense.

.

.

Curiosamente, um hotel da cidade oferecia um campo adequado para os hóspedes jogarem o cricket: o Hotel Internacional, localizado na antiga Rua do Aqueduto, atual Almirante Alexandrino, bairro de Santa Tereza, construído nos anos finais do século XIX para se diferenciar de outros estabelecimentos localizados no centro da cidade, mais baratos e menos confortáveis.

.

Disponível no fotolog “Só Rio”: http://www.fotolog.com.br/sorio/67457709

.

Chegava-se ao Hotel com facilidade, aproveitando a linha de bonde que partia do Largo da Carioca. Suas instalações eram cercadas de exuberante natureza. Eram também oferecidas instalações para o tênis e para o croquete. Foi um dos mais renomados hotéis da cidade até sua extinção na década de 1930.

.

.

——-xxxxxxx——-

O cricket é um esporte fascinante, um dos primeiros a se estruturar na Grã-Bretanha, um dos que mais se difundiu pelos territórios nos quais os britânicos tiveram alguma ascendência. Como dissemos, por aqui a prática não se espraiou nem se tornou popular, mas em muitos países ocupa papel protagonista.

Para mais informações, ver os posts dos amigos Maurício e Jorge. Para informações sobre o críquete nacional, ver http://www.brasilcricket.org/

——-xxxxxxx——-

Se o cricket não se popularizou, um jogo nele inspirado foi muito praticado pela molecada nas ruas do Rio de Janeiro: o “taco”, jogado com duas latas (na maioria das vezes de óleo, recolhidas no lixo, o que por vezes significava corte das mãos nas abas abertas; em alguns casos usava-se uma “casinha” de madeira), uma bola de frescobol ou tênis e duas madeiras velhas ou cabos de vassoura.

O ponto era marcado quando a dupla “cruzava” os tacos, algo possível quando se “zunia” a bola. O auge da humilhação era cruzar os tacos imitando o movimento de um cavalo de pau.

Uma explicação sobre uma das formas de jogar taco pode ser encontrada no vídeo abaixo

.

——-xxxxxxx——-

No próximo post, “foi João do Rio que disse: é o novo ground da cidade!”: O Clube de Regatas do Flamengo.


O Quadrado da Urca

11/06/2011

.

Uma das mais valorizadas e mais antigas regiões do Rio de Janeiro guarda uma parte importante e curiosa da história esportiva da cidade: a Urca.

Naquela região, numa pequena praia entre o Morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar, Estácio de Sá estabeleceu, em 1565, o primeiro núcleo populacional da cidade, em 1567 transferido para a região central, para o Morro do Castelo, por questões de defesa e necessidades de expansão.

.

Morro do Castelo visto do Outeiro da Glória. Disponível em http://www.flickr.com/photos/11124678@N02/2042462343/

.

É somente a partir da década de 1870 que surgem as primeiras iniciativas mais efetivas de na região construir um novo bairro. Por ocasião da Exposição Nacional de 1908, a localidade conheceu um certo progresso, com a instalação de um cais e uma ponte de acesso, como podemos ver na foto abaixo, do acervo de George Ermakoff, disponível no fotolog “Coisa Lúdica” (http://fotolog.terra.com.br/cartepostale:106).

.

.

Na virada das décadas de 1910/1920, a Sociedade Anônima Empresa Urca deu forma ao bairro que hoje conhecemos. Foi nessa época que foi inaugurado o “Quadrado da Urca”, que existe até hoje, funcionando como uma pequena marina, como podemos ver nas fotos abaixo.

.

Quadrado da Urca. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/rafael_netto:16

Quadrado da Urca, à esquerda; Iate Clube, à direita. Disponível em: http://www.almacarioca.com.br/angemon/index.htm

.

O que nem todos sabem é que o Quadrado fora previsto, no contrato de concessão para a construção do bairro, para ser uma piscina com toda infraestrutura necessária (inclusive arquibancadas) para abrigar as competições aquáticas dos Jogos Sul-Americanos organizados, junto com a Exposição Internacional de 1922, para comemorar o centenário da independência do país.

Como vimos em post anterior, as primeiras provas de natação da cidade foram disputadas nas águas da Baía de Guanabara, nas praias da região central. Isso tornava a prática muito suscetível às condições do mar e do tempo, o que contribuía para o forjar de uma representação heróica dos nadadores. Um dos exemplos foi Abrahão Saliture, um dos mais incríveis atletas brasileiros de todos os tempos.

Lembremos o que foi talvez uma dessas primeiras representações no país, encontrada em um dos grandes romances de nossa história: Dom Casmurro, de Machado de Assis.

– O mar amanhã está de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar, ao pé de mim.
– Você entra no mar amanhã? (Bentinho)
– Tenho entrado com mares maiores, muito maiores. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões disse ele batendo no peito, e estes braços; apalpa (Escobar).
Apalpei-lhe os braços, como se fossem os de Sancha. Custa-me esta confissão, mas não posso suprimi-la; era jarretar a verdade. Nem só os apalpei com essa idéia, mas ainda senti outra cousa, achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar.
 
 

.

O surgimento das piscinas de um lado reduziu os “atos de heroísmo” por ocasião das provas de natação; de outro lado, contribuiu para a popularização da prática, tanto em função do aumento do afluxo de público quanto devido aos melhores resultados obtidos nas competições, que se tornaram cada vez mais emocionantes. Paulatinamente crescia também o número de praticantes (ver outro post sobre as aulas no Copacabana Palace).

O Quadrado da Urca foi a primeira piscina da cidade, ainda usando as águas da Baía de Guanabara. Vemos abaixo uma imagem dessa piscina por ocasião dos Jogos de 1922, com estrutura preparada para as provas de natação, plataforma de saltos e trave para os jogos de pólo aquático (foto publicada na Revista da Semana de 23 de Setembro de 1922, disponível no fotolog “Foi um Rio que Passou”, de André Decourt).

.

.

Essa piscina foi a principal da cidade até o surgimento da piscina do Clube de Regatas Guanabara, também construída aproveitando as águas da Baía…mas esse é assunto para outro post.

——-xxxxxxx——-

Tive o prazer de ter sido professor de natação por dois anos, uma experiência incrível. Ministrava aulas na piscina do Esporte Clube Maxwell, uma pequena agremiação localizada no bairro de Vila Isabel.

.

Fachada atual do E.C. Maxwell. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Esporte_Clube_Maxwell.JPG

.

Ao procurar informações sobre esse clube, descobri que tem sido um dos destaques dos campeonatos de Futebol de Mesa (o nosso velho conhecido “jogo de botão”), em 2010 sagrando-se tetracampeão estadual na categoria “dadinho” (para mais informações, ver http://www.maxwellfutmesa.kit.net/).

Saudades dos velhos jogos de botão!

.

Vista aérea do E.C. Maxwell

.

——-xxxxxxx——-

No próximo post, o Hotel Internacional e os “esportes ingleses”.

.


%d blogueiros gostam disto: