O Hotel Central e os banhos de mar

13/08/2011

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Em “A Conquista”, romance publicado em 1899, assim Coelho Neto descreve um amanhecer no Rio de Janeiro:

 O dia raiava.
(…)
Chilros vibravam no ar. Passavam, chalrando, os banhistas que se dirigiam à praia, aos casais, famílias completas, com cestas, os olhos ainda empapuçados de sono.
(…)
Na praia branca, o mar liso, metálico, rutilava.
Uma multidão chapinhava na areia úmida que guardava a pegada funda até que a onda, subindo preguiçosamente, a desmanchava. Havia barracas de lona como brancas pirâmides, mas a maioria dos que mergulhavam vinha já pronta nas roupas de flanela dos estabelecimentos balneários.
As senhoras, sorrindo, esfregando as mãos, iam timidamente para o mar que mandava à praia as suas ondas como para buscá-las, curvavam-se, tomavam nos dedos um pouco de água, como se se benzessem naquela imensa pia verde e, friorentas, dando-se as mãos, entravam, aos saltinhos, quando a onda rolava cheia, espumosa, desdobrando-se na praia com suave marulho.
Cabeças apareciam longe e gente saía gotejante, gente entrava a correr e todo o mar fervilhava de banhistas. Ao longo da praia e no terraço do Passeio apinhavam-se curiosos. Um bote negro, remado lentamente, bordejava. Tresandava a maresia. De repente Anselmo gritou:
– Olha, Fortúnio! Era o sol, o grande, o magnífico, o esbraseado sol americano que subia. O céu estava encandecido, era de ouro líquido (…). A água voluptuosa tornou-se mais lânguida. Gaivotas cruzavam-se contentes (…)
(…)
Os que se banhavam pareciam incrustados na superfície serena e rútila das águas vastas e longe
(…)
A alegria do céu comunicou-se aos que nadavam e gritos alegres vinham do mar, e sempre a sair gente ansiosa para a onda: velhos, senhoras, crianças (…)
Fortúnio, com os olhos no paquete, suspirou:
– Ah! Pudesse eu ir ali!
– Ora qual! Deixa-te disso, homem! Olha para aquele sol, admira aquela beleza e dize se é possível que Deus estrague tão formosa auréola numa terra destinada à miséria e ao abandono. Uma pátria que tem este sol há de ser grande por força. Viva a nossa terra, deixa lá, homem! A nossa manhã há de vir, descansa. E os dois, extasiados, ficaram a olhar o astro deslumbrante que remontava majestosamente.

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Praia de Copacabana lotada em dia de verão. Disponível em http://www.meupalco.com.br/2010/11/imagem-do-dia-onde-esta-wally.html

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A imagem acima, de um dia de sol no Rio de Janeiro dos dias de hoje, parece se ajustar, guardadas as devidas proporções, às palavras de Coelho Neto. O gosto pela praia é sem dúvida um dos traços pelo qual o carioca é identificado. Mas nem sempre foi assim.

Até meados do século XIX, os banhos de mar não eram um hábito comum entre os cariocas. Eles somente começaram a ser valorizados quando cresceram na cidade as preocupações com a saúde e com a higiene. A princípio eram regulados pelos desígnios dos médicos e causavam preocupações no que se refere à segurança e ao pudor

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Como vemos na imagem acima, nos banhos de mar as roupas utilizadas eram bastante rigorosas, notadamente para as mulheres. Ainda assim, não eram consideradas adequadas para transitar pelas ruas. Por isso, foram instaladas nas redondezas das praias as casas de banho, que serviam para a troca da vestimenta, para a guarda dos pertences, algumas até mesmo oferecendo alguma estrutura de segurança para os banhistas (os primeiros salva-vidas da cidade).

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Casa de Banho na Rua Santa Luzia. Foto de Augusto Malta. Acervo George Ermakoff. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/sdorio:2096

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Entre os balneários, um se notabilizou pelo conforto e pelo luxo, contribuindo para a Praia do Flamengo tornar-se a mais chic da ocasião: o Hotel Central

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O Hotel Central é o de esquina, bem no centro da imagem. Foto de Preising. Acervo de George Ermakoff. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:247

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Localizado na Avenida Beira Mar, bem no ponto em que a Paissandu encontra a Barão do Flamengo, situava-se em frente ao único espaço da Praia do Flamengo que dispunha de areia. Construído em 1915, substituindo outro balneário, o High Life, oferecia boas instalações, entre as quais uma área para ginástica e terraços com bela vista para a Baía de Guanabara.

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Terraço e Sala de refeições do Hotel Central. Década de 1910. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/bfg1:113

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O Hotel oferecia quartos para hospedagem, vestiários para os banhistas se trocarem e pacotes que incluíam as refeições, sem a necessidade de hospedagem. Os frequentadores aproveitavam a proximidade do mar e o fato de que a Avenida Beira-Mar tornara-se um local fashionable.

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Banhistas em frente ao Hotel Central. 1917. Acervo de Aurelino Gonçalves. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:102

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 Na imagem abaixo podemos ter outra noção do espaço em frente ao Hotel Central. Vemos como era curta a faixa de areia. Além disso, vemos a desembocadura do mítico Rio Carioca.

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Acervo de Francisco Patrício. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:541

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As mudanças no local, o deslocamento do eixo preferido para banhos para Copacabana e Ipanema, a poluição da Baía de Gunabara e mesmo a distensão dos costumes (já não eram mais necessários balneários já que se tornou aceito as pessoas se apresentarem nas ruas em trajes de praia) levou à destruição do Hotel Central, em 1951. No mesmo espaço foi construído o Edifício Conde de Nassau.

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Hotel em processo de destruição, em 1952; e Espaço do Hotel já vago, em 1953. Disponíveis em http://fotolog.terra.com.br/luizd:2289 e http://fotolog.terra.com.br/sdorio:2369

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Devemos lembrar que a popularização dos banhos de mar foi importante para a conformação e consolidação de certas práticas como o remo e a natação. Ter passado de uma prática relacionada diretamente à saúde para uma opção generalizada de diversão foi um salto de grande importância para que o esporte assumisse novos contornos, dialogando com uma nova cidade que se pretendia moderna, com um novo conjunto de hábitos e com uma construção identitária que elegia o espaço público como lócus por excelência do carioca. 

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Na imagem abaixo, um quadro de Fachinetti, de 1886, vemos o antigo balneário High Life.

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Óleo sobre madeira; 17,5 x 29,5cm. Coleção Museu Imperial/Maria Cecília e Paulo Fontainha Geyer, RJ

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Quem quiser ainda ver uma estrutura parecida aos antigos balneários, basta dar uma chegada à Ilha de Paquetá, para mim ainda hoje um dos mais belos recantos do Rio de Janeiro. 

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No próximo post – O tamborete

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“É o novo ground”: o Clube de Regatas do Flamengo

25/06/2011

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Em nosso último post, apresentamos uma foto do campo do Paysandu Cricket Club, localizado nas Laranjeiras, na ocasião ocupado pelo Clube de Regatas do Flamengo, que por lá realizava seus jogos de futebol. Independentemente das preferências clubísticas, é essa uma das mais importantes agremiações da cidade.

Não passou despercebida a importância do clube a João do Rio, um dos literatos que melhor expressou o conjunto de mudanças que marcou o Rio de Janeiro na transição dos séculos XIX e XX. Em sua crônica A hora do football, publicada no livro Pall-Mall Rio, o inverno carioca de 1916 (lançado em 1917), o escritor observa a redução das resistências para com os esportes, que progressivamente tornavam-se uma prática valorizada pelos “modernos”:

“Fazer sport há vinte anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça, quando um dos meninos arranjava um altere. Estava perdido. Rapaz sem um pince-nez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era um homem estragado. E o Club de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde irradiou a avassaladora paixão pelos sports”.

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João do Rio

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Na visão de João do Rio, “O Club de Regatas do Flamengo tem, há vinte anos pelo menos, uma dívida a cobrar dos cariocas. Dali partiu a formação das novas gerações, a glorificação do exercício físico para a saúde do corpo e a saúde da alma”. Fundado como Grupo de Regatas, em 1895, seus associados eram principalmente jovens pertencentes aos setores urbanos das elites, entusiastas e praticantes do remo, habituées dos banhos de mar.

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Segunda sede do Flamengo, construída em 1920, no mesmo local onde fora fundado o Grupo de Regatas. Disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:990

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Conta Mário Filho, de forma romanceada, que por ocasião da criação do Flamengo, observando o entusiasmo dos jovens envolvidos, o padre Nattuzi procurou o Dr. Lourenço Cunha, pai de José Agostinho (um dos fundadores), lhe perguntando se não ficava preocupado com tamanho interesse, pois a fama das regatas “não era lá das melhores”. Cunha teria respondido que acreditava no esporte como uma escola de formação e disciplina, uma prática saudável, por isso não se importava.

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O fato é que depois de superada certa sensação de estranhamento ou desprezo por parte da população local, a sede do Flamengo, localizada na Praia do Flamengo, 22 (hoje número 66), tornou-se um centro de encontros, um local muito procurado por um setor da juventude que adotava novos parâmetros de sociabilidade e de exposição corporal: “Rapazes discutiam muque em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculana dos braços. Era o delírio do rowing, era a paixão dos sports” (João do Rio).

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A segunda sede foi destruída em 1979. No local hoje se encontra um prédio de escritórios. Foto disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:896

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A praia do Flamengo, na verdade, transformou-se num dos lugares mais fashions da cidade. O Hotel Central, um dos primeiros balneários da cidade, oferecia boas condições para os que desejavam com conforto se deliciar com os banhos de mar (futuramente dedicaremos a esse hotel um post). Regatas eram disputadas nas águas da Baía de Guanabara.

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Regata na Praia do Flamengo, em frente à sede do Clube, década de 1920. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/nder:1557

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Devemos também lembrar que o clube estava muito próximo do Palácio do Catete, chegando a compartilhar com a Presidência da República o cais que se localizava em frente à propriedade (podemos vê-lo na imagem abaixo).

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Detalhe de um postal da década de 1910, disponível no fotolog “Foi um Rio que Passou”, de André Decourt: http://www.rioquepassou.com.br/2004/03/21/1590/

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O futebol só entra na história do Clube em 1911, com a chegada de um grupo de jogadores dissidentes do Fluminense. Os primeiros treinos foram realizados em um campo aberto localizado na Glória, nas redondezas da sede.

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Campo onde o primeiro time de futebol do Flamengo treinava. Glória, 1911. Ao fundo o centro da cidade bastante iluminado. Acervo de Francisco Patrício. Disponível em http://www.rioquepassou.com.br/2005/12/20/gloria-e-centro-15-de-novembro-de-1911/

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Poucos anos depois a equipe de futebol passou a realizar seus jogos no antigo campo do Paysandu. A acreditar em João do Rio, foi uma festa a primeira partida do clube nessas dependências:

“O campo do Flamengo é enorme. Da arquibancada eu via o outro lado, o das gerais, apinhado de gente, a gritar, a mover-se, a sacudir os chapéus. Essa gente subia para a esquerda, pedreira acima, enegrecendo a rocha viva. Embaixo a mesma massa compacta. E a arquibancada, o lugar dos patrícios no circo romano era uma colossal, formidável corbelha de belezas vivas, de meninas que pareciam querer atirar-se e gritavam o nome dos jogadores, de senhoras pálidas de entusiasmo, entre cavalheiros como tontos de perfume e também de entusiasmo”.

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Primeiro time de futebol do Flamengo. Em pé: Lawrence, Amarante, Píndaro, Baena, Nery e Gallo. Sentados: Curiol, Arnaldo, Zé Pedro, Miguel e Borgerth. Disponível em http://www.maisfla.com/noticias/do-inicio-do-futebol-ao-fim-do-amadorismo/

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A despeito da importância de sua ligação com o esporte náutico, o Flamengo entraria mesmo para a história pela popularidade que angariaria no futebol.

Tinha mesma razão o grande João do Rio: “Não! Há de fato uma coisa séria para o carioca: o football!”.

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Na década de 1930, o Flamengo começa a se transferir para a Gávea, onde construiria um estádio e a atual sede. Na década de 1950, contudo, construiu uma sede no Morro da Viúva. Esse prédio, que hoje se encontra em condições não totalmente adequadas de preservação, está sendo negociado com o mega-empresário Eike Batista para ser transformado em um hotel de luxo.

Será que ele vai comprar a cidade toda?

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Não foi exatamente a minha preferência clubística que me levou a preparar esse post (inclusive futuramente serão dedicados posts a outros importantes clubes da cidade). De qualquer forma, a minha relação com o Flamengo é algo que marca profundamente minha memória e minha história. Já escrevi algumas coisas sobre isso, disponíveis no blog A Lenda, do amigo Rafael Fortes, e no sítio do Sport, laboratório que coordeno.

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Na próxima semana, o green! O golfe no Rio de Janeiro.

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Sítios “Sportivos”: a Praia de Santa Luzia

08/05/2011
 

Vejamos a foto abaixo, de autoria de Rafael Netto (disponível no fotolog “Rio Hoje”, em http://fotolog.terra.com.br/rafael_netto:149).

 

Em primeiro plano, trata-se da Igreja de Santa Luzia, à frente dos prédios que ocupam nos dias de hoje a Esplanada do Castelo, que substituí o Morro do Castelo, um dos berços históricos da cidade do Rio de Janeiro, demolido paulatinamente tendo em vista o desenvolvimento urbano e as orientações de engenheiros e sanitaristas, destacadamente no período da Reforma Pereira Passos, no início do século XX, quando parte cedeu lugar à Avenida Central, e na década de 1920, dando espaço para as construções das comemorações do 1º Centenário da Independência (1922). 

No final do século XVI, no mesmo local atual, já existia uma pequena capela, que foi reconstruída em 1752 e em 1872. Santa Luzia já era cultuada, na verdade, desde o tempo em que a cidade fora instalada no Morro Cara de Cão, ao redor de uma imagem trazida por Estácio de Sá.

As duas fotos abaixo, disponíveis no sítio “Curiosidades Cariocas” (http://rio-curioso.blogspot.com/2008/03/igreja-de-santa-luzia.html), nos dão uma noção da distância entre a Igreja e o mar nos dias de hoje (a primeira foto é dos anos 1960, a segunda é um mapa retirado do Google, a seta amarela indica o local do templo):

 

O que essa Igreja teria a ver com a prática esportiva? Temos que primeiro conhecer sua localização até a década de 1920. Vejamos a bela foto de Georges Leuzinger (do acervo de George Ermakoff), provavelmente de 1865 (disponível em vários sítios, mas por nós retirada do belíssimo fotolog de Luiz D’, “Saudades do Rio”: http://fotolog.terra.com.br/luizd:612).

 

 

Pois bem, essa praia, que leva o nome da igreja, Santa Luzia, foi um dos sítios mais “sportivos” da cidade durante décadas. Por lá foram instalados muitos balneários, já que foi adotada como local usual de banhos de mar, inicialmente como prática terapêutica, depois como hábito de lazer. Essa nova dinâmica social gestou as condições para o desenvolvimento de algumas práticas esportivas. 

Por lá se instalaram clubes, alguns desses ainda hoje localizados em região próxima, nas cercanias do Aeroporto Santos Dumont. Por lá se realizaram as primeiras competições de remo, inclusive o notável desafio entre as canoas Lambe-Água e Cabocla, em 1846, no Jornal do Comércio celebrado como um dos eventos que desencadearia o desenvolvimento do esporte náutico na cidade. Por lá foi disputada a primeira edição do Campeonato Brasileiro de Natação, uma única prova realizada entre a Praia e o Forte de Villegaignon, vencida pelo incrível Abrahão Saliture.

Voltaremos ao tema em outras ocasiões. Por ora, vejamos a bela foto de 1917, um banho de mar de frente para a Igreja de Santa Luzia (disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:107).

A destacar os longos trajes de banho (se comparados aos atuais), as roupas dos observadores que se encontram no cais (no lado esquerdo de quem observa a foto), a pouca presença de mulheres, a pequena faixa de areia (perceptível no lado direito de quem observa). 

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Esse post inaugura a série “Sítios Históricos – Praia de Santa Luzia”. O intuito é com o decorrer do tempo apresentar alternadamente outras temáticas.

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Obviamente não tenho idade para ter me banhado nas águas da Praia, mas a Igreja de Santa Luzia faz parte de minha memória. Como tive problemas de visão, minha mãe fez uma promessa à Santa e todo dia 13 de dezembro lá estávamos para pedir a sua benção e lavar os olhos com a água benta.

Não sou mais católico, mas me lembro com carinho desses momentos cansativos (morávamos no Bairro Jabour e o antigo 396, que vinha pela Avenida Brasil, demorava um bocado!), mas divertidos (ir ao Centro, “à cidade” como se dizia, era sempre um passeio).

O fato é que, entre médicos, simpatias e promessas, fui melhorando, graças a todas essas coisas, mas fundamentalmente graças à minha mãe, a quem homenageio e agradeço por isso e por muito mais nesse dia a ela dedicado.

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Posteriormente descobri que algumas casas de umbanda sincretizam Santa Luzia com a orixá Ewá. Ri Ro Ewá!

  


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