O pólo aquático: um esporte coletivo nas águas da Baía de Guanabara

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De novo a Praia de Santa Luzia, em “Rio, Cidade Sportiva” já citada em outras ocasiões (ver “O Hotel Central e os banhos de mar“, “Braços fortes: o remo e a celebração da cidade moderna“, “Sítios sportivos: a Praia de Santa Luzia“). Essa parte do litoral carioca, localizada bem no centro da cidade, foi mesmo um dos locais pioneiros da prática esportiva no Rio de Janeiro: o hábito dos banhos de mar, ali comuns, acabou por gerar sociabilidades que deram origem a clubes cujos sócios se dedicavam ao remo, à natação e à modalidade-tema de nosso post de hoje: o pólo aquático.

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Fonte: Careta, ano 7, número 306, 2 de maio de 1914

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            Acima vemos duas fotos do Club de Natação e Regatas, fundado em 1896, cuja sede se localizava na Rua de Santa Luzia. Foram sócios dessa agremiação, já envolvidos com o remo e com a natação, alguns dos primeiros a protagonizar os pioneiros jogos de pólo aquático no país, uma modalidade que na Europa, por vezes chamada de rugby ou futebol aquático, já atraía grande público e envolvia muitos praticantes, tendo inclusive feito parte da programação dos Jogos Olímpicos desde a edição de 1900 (Paris), o primeiro esporte coletivo a integrar esse evento.

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Fonte: Les Sports Illustres (Librairie Larousse, 1905). Disponível em http://www.sunrisemusics.com/olimpiadas.htm

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Como podemos ver na imagem acima, um flagrante de uma partida disputada nos Jogos Olímpicos de 1900 (Paris), o pólo aquático era jogado no mar ou em rios, com um material ainda improvisado (pelo menos se compararmos ao atual).

No caso do Rio de Janeiro, depois de muitos jogos disputados na Praia de Santa Luzia, as partidas começaram a ser realizadas na Urca, na Praia Vermelha e na Praia da Saudade, notadamente após 1908, quando o bairro começou a se consolidar por ter recebido importantes obras de urbanização ligadas à Exposição Nacional, realizada para comemorar o centenário da abertura dos portos.

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Cais da Urca por ocasião da Exposição Nacional de 1908. Postal da Companhia Lith. Hartmann-Reichenbach. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:2013

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Abaixo vemos imagens de um evento realizado na Praia da Saudade em 1914. Destacam-se, na primeira foto, os barcos de remo estabelecendo os limites do espaço de jogo. Os árbitros se postam na parte inferior direita, em cima de uma bancada, e ao centro, em um palanque, ambos montados no mar. Na segunda foto podemos ver o público ocupando o que hoje é a ponte que compõe o Quadrado da Urca.

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Fonte: Careta, ano 7, número 294, 17 de janeiro de 1914

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As fotos dos jogadores reforçam as noções de masculinidade e vigor físico, tão comuns nas imagens de homens esportistas difundidas naquele momento. Se o remo já se apresentara como a modalidade ajustada a tal construção simbólica, o pólo aquático a exacerbara, até mesmo porque os choques corporais são comuns nesse esporte que exige grande esforço. Entende-se, assim, o imaginário de violência construído ao redor da prática.

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Equipes do Club Internacional, Guanabara, São Cristóvão e Icaraí. Fonte: Careta, ano 7, número 294, 17 de janeiro de 1914

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As praias da Urca seguiram sendo durante anos o principal lugar do pólo aquático na cidade, ainda mais com as reformas realizadas por ocasião da Exposição Internacional de 1922, que delinearam o Quadrado da Urca, especialmente construído para servir de piscina às competições internacionais promovidas no âmbito dos festejos de celebração da independência (os Jogos do Centenário) (já discutimos esse tema em post anterior).

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Piscina/Quadrado da Urca/1922. Fonte: Revista da Semana, 23 de setembro de 1922. Disponível em “Foi um Rio que Passou”, de André Decourt, http://www.rioquepassou.com.br/2006/08/11/quadrado-piscina-da-urca-campeonato-nautico-sulamericano-1922/

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Nesse momento, o Brasil já tinha enviado uma equipe de pólo aquático para os Jogos Olímpicos de 1920 (Antuérpia), na primeira participação do país no evento. A equipe foi formada por Adhemar Ferreira Serpa (que também participou das provas de natação), Agostinho de Sá, Alcides de Barros Paiva, Angelo Gammaro (que também participou das provas de natação), Carlos Lopes, Edgard Leite Ribeiro, João Jório (que também participou das provas de natação e remo), Orlando Amendola (que também participou das provas de natação e remo), Victorino Ramos Fernandes e Abrahão Saliture (que, já com 37 anos, também participou das provas de natação; sobre esse incrível atleta brasileiro, ver post em De Olho no Sport).

Mesmo com muitas dificuldades, a equipe brasileira chegou as quartas de final. Depois de vencer a França na fase eliminatória (1 x 1 no tempo normal, 6 x 2 na prorrogação), foi eliminada pela Suécia (7 x 3), obtendo o 6º lugar.

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Foto da equipe brasileira de pólo aquático nos Jogos Olímpicos de 1922 (sem Adhemar Ferreira Serpa, Carlos Lopes e Abrahão Saliture). Fonte: Atlas do Esporte no Brasil. Disponível em http://www.atlasesportebrasil.org.br/textos/215.pdf

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 Nas décadas de 1920 e 1930, o pólo aquático seguiria sendo disputado nas águas da Baía de Guanabara. A foto abaixo, de 1926, disponível no belíssimo fotolog “Carioca da Gema”, de Roberto Tumminelli, é informada como sendo de um campeonato disputado na Lagoa Rodrigo de Freitas. Os comentários no post contestam tal informação, sugerindo que trata-se da enseada de Botafogo, em frente à antiga sede do Clube de Regatas Botafogo. Ao fundo, veríamos o Morro do Pasmado. É fato que a Lagoa nunca possuiu boas condições para o pólo aquático, em função do fundo muito lodoso. De qualquer forma, trata-se de uma linda imagem.

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 A modalidade teria novo impulso quando passou a ser praticada nas piscinas, que no Rio de Janeiro foram construídas a partir da década de 1930. Aqui devemos falar do Clube de Regatas Guanabara, que até hoje mantém suas equipes de pólo aquático.

 Fundado em 1899, às margens da enseada de Botafogo, por um grupo de sócios dissidentes do Clube de Regatas Vasco da Gama, o Guanabara, em 1935, inaugurou a primeira piscina olímpica do Brasil, palco de muitas glórias dos esportes aquáticos nacionais.

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Piscina do Clube de Regatas Guanabara. Disponível em: http://www.rioquepassou.com.br/2005/06/03/clube-de-regatas-guanabara-iii/

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 Como se pode ver, a piscina foi instalada dentro da Baía de Guanabara. As águas salgadas privilegiavam a flutuação, atraindo atletas que buscavam bater recordes. Na foto abaixo, de 1935, podemos ter uma ideia melhor de como a piscina se inseria na paisagem da enseada.

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Disponível no fotolog Saudades do Rio, de Luiz D’: http://fotolog.terra.com.br/luizd:1282

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Essa paisagem mudou completamente a partir da década de 1950, com a construção do Túnel do Pasmado, de novas pistas na Praia de Botafogo e de novos aterros na enseada. A essa altura, os jogos de pólo aquático já eram disputados nas muitas piscinas que foram construídas pela cidade, até porque as águas da Baía de Guanabara já estavam mais poluídas (além do que eram menos confortáveis do que as instalações em clubes).

O pólo aquático teria grande desenvolvimento quando pela cidade se instalara o húngaro Aladar Szabo, já no final da década de 1950. Mas isso é assunto para outro post.

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O Club de Natação e Regatas existe até os dias de hoje com outro nome: Clube de Natação e Regatas Santa Luzia. Sua sede se localiza nas proximidades do Aeroporto Santos Dumont e do Museu de Arte Moderna.

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O Natação e Regatas, entre tantos outros antigos clubes que ainda existem, merecem mais atenção por sua importância para a memória não só do esporte como da cidade como um todo.

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No próximo post – O Germânia

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