O Hotel Central e os banhos de mar

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Em “A Conquista”, romance publicado em 1899, assim Coelho Neto descreve um amanhecer no Rio de Janeiro:

 O dia raiava.
(…)
Chilros vibravam no ar. Passavam, chalrando, os banhistas que se dirigiam à praia, aos casais, famílias completas, com cestas, os olhos ainda empapuçados de sono.
(…)
Na praia branca, o mar liso, metálico, rutilava.
Uma multidão chapinhava na areia úmida que guardava a pegada funda até que a onda, subindo preguiçosamente, a desmanchava. Havia barracas de lona como brancas pirâmides, mas a maioria dos que mergulhavam vinha já pronta nas roupas de flanela dos estabelecimentos balneários.
As senhoras, sorrindo, esfregando as mãos, iam timidamente para o mar que mandava à praia as suas ondas como para buscá-las, curvavam-se, tomavam nos dedos um pouco de água, como se se benzessem naquela imensa pia verde e, friorentas, dando-se as mãos, entravam, aos saltinhos, quando a onda rolava cheia, espumosa, desdobrando-se na praia com suave marulho.
Cabeças apareciam longe e gente saía gotejante, gente entrava a correr e todo o mar fervilhava de banhistas. Ao longo da praia e no terraço do Passeio apinhavam-se curiosos. Um bote negro, remado lentamente, bordejava. Tresandava a maresia. De repente Anselmo gritou:
– Olha, Fortúnio! Era o sol, o grande, o magnífico, o esbraseado sol americano que subia. O céu estava encandecido, era de ouro líquido (…). A água voluptuosa tornou-se mais lânguida. Gaivotas cruzavam-se contentes (…)
(…)
Os que se banhavam pareciam incrustados na superfície serena e rútila das águas vastas e longe
(…)
A alegria do céu comunicou-se aos que nadavam e gritos alegres vinham do mar, e sempre a sair gente ansiosa para a onda: velhos, senhoras, crianças (…)
Fortúnio, com os olhos no paquete, suspirou:
– Ah! Pudesse eu ir ali!
– Ora qual! Deixa-te disso, homem! Olha para aquele sol, admira aquela beleza e dize se é possível que Deus estrague tão formosa auréola numa terra destinada à miséria e ao abandono. Uma pátria que tem este sol há de ser grande por força. Viva a nossa terra, deixa lá, homem! A nossa manhã há de vir, descansa. E os dois, extasiados, ficaram a olhar o astro deslumbrante que remontava majestosamente.

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Praia de Copacabana lotada em dia de verão. Disponível em http://www.meupalco.com.br/2010/11/imagem-do-dia-onde-esta-wally.html

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A imagem acima, de um dia de sol no Rio de Janeiro dos dias de hoje, parece se ajustar, guardadas as devidas proporções, às palavras de Coelho Neto. O gosto pela praia é sem dúvida um dos traços pelo qual o carioca é identificado. Mas nem sempre foi assim.

Até meados do século XIX, os banhos de mar não eram um hábito comum entre os cariocas. Eles somente começaram a ser valorizados quando cresceram na cidade as preocupações com a saúde e com a higiene. A princípio eram regulados pelos desígnios dos médicos e causavam preocupações no que se refere à segurança e ao pudor

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Como vemos na imagem acima, nos banhos de mar as roupas utilizadas eram bastante rigorosas, notadamente para as mulheres. Ainda assim, não eram consideradas adequadas para transitar pelas ruas. Por isso, foram instaladas nas redondezas das praias as casas de banho, que serviam para a troca da vestimenta, para a guarda dos pertences, algumas até mesmo oferecendo alguma estrutura de segurança para os banhistas (os primeiros salva-vidas da cidade).

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Casa de Banho na Rua Santa Luzia. Foto de Augusto Malta. Acervo George Ermakoff. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/sdorio:2096

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Entre os balneários, um se notabilizou pelo conforto e pelo luxo, contribuindo para a Praia do Flamengo tornar-se a mais chic da ocasião: o Hotel Central

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O Hotel Central é o de esquina, bem no centro da imagem. Foto de Preising. Acervo de George Ermakoff. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:247

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Localizado na Avenida Beira Mar, bem no ponto em que a Paissandu encontra a Barão do Flamengo, situava-se em frente ao único espaço da Praia do Flamengo que dispunha de areia. Construído em 1915, substituindo outro balneário, o High Life, oferecia boas instalações, entre as quais uma área para ginástica e terraços com bela vista para a Baía de Guanabara.

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Terraço e Sala de refeições do Hotel Central. Década de 1910. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/bfg1:113

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O Hotel oferecia quartos para hospedagem, vestiários para os banhistas se trocarem e pacotes que incluíam as refeições, sem a necessidade de hospedagem. Os frequentadores aproveitavam a proximidade do mar e o fato de que a Avenida Beira-Mar tornara-se um local fashionable.

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Banhistas em frente ao Hotel Central. 1917. Acervo de Aurelino Gonçalves. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:102

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 Na imagem abaixo podemos ter outra noção do espaço em frente ao Hotel Central. Vemos como era curta a faixa de areia. Além disso, vemos a desembocadura do mítico Rio Carioca.

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Acervo de Francisco Patrício. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:541

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As mudanças no local, o deslocamento do eixo preferido para banhos para Copacabana e Ipanema, a poluição da Baía de Gunabara e mesmo a distensão dos costumes (já não eram mais necessários balneários já que se tornou aceito as pessoas se apresentarem nas ruas em trajes de praia) levou à destruição do Hotel Central, em 1951. No mesmo espaço foi construído o Edifício Conde de Nassau.

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Hotel em processo de destruição, em 1952; e Espaço do Hotel já vago, em 1953. Disponíveis em http://fotolog.terra.com.br/luizd:2289 e http://fotolog.terra.com.br/sdorio:2369

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Devemos lembrar que a popularização dos banhos de mar foi importante para a conformação e consolidação de certas práticas como o remo e a natação. Ter passado de uma prática relacionada diretamente à saúde para uma opção generalizada de diversão foi um salto de grande importância para que o esporte assumisse novos contornos, dialogando com uma nova cidade que se pretendia moderna, com um novo conjunto de hábitos e com uma construção identitária que elegia o espaço público como lócus por excelência do carioca. 

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Na imagem abaixo, um quadro de Fachinetti, de 1886, vemos o antigo balneário High Life.

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Óleo sobre madeira; 17,5 x 29,5cm. Coleção Museu Imperial/Maria Cecília e Paulo Fontainha Geyer, RJ

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Quem quiser ainda ver uma estrutura parecida aos antigos balneários, basta dar uma chegada à Ilha de Paquetá, para mim ainda hoje um dos mais belos recantos do Rio de Janeiro. 

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No próximo post – O tamborete

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Uma resposta para O Hotel Central e os banhos de mar

  1. […] a Praia de Santa Luzia, em “Rio, Cidade Sportiva” já citada em outras ocasiões (ver “O Hotel Central e os banhos de mar“, “Braços fortes: o remo e a celebração da cidade moderna“, “Sítios […]

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