O surfe: uma novidade nas praias

.

Depois de receber, em maio, uma etapa do ASP World Tour, o campeonato mundial da Associação de Surfistas Profissionais, a Praia do Arpoador nessa semana sediou o SuperSurf ASP World Masters Championship, que reúne os surfistas mais velhos que fizeram história na modalidade.

.

Na etapa do ASP World Tour realizada no Arpoador, sagrou-se vencedor Adriano de Souza, que se tornou o primeiro brasileiro a liderar o ranking mundial

.

A Praia do Arpoador, que já recebera outras etapas do mundial (inclusive em 1976, ano da criação do circuito), é considerada um dos berços do surfe brasileiro. Por lá, no que antes era uma praia distante e deserta, a modalidade deu alguns de seus primeiros passos e passou por mudanças dialogando com a cidade em transformação.

A praia foi assim denominada, no século XVIII, porque os seus famosos rochedos abrigaram muitos arpoadores de baleias, quando essa prática era importante na economia da cidade. Foi só mesmo na década final do século XIX que a região começou a ser habitada, permanecendo a pouca densidade populacional até a década de 1940.

Abaixo uma foto do Arpoador no início do século XX, disponível no fotolog de Luiz Darcy.

.

.

Como podemos ver na foto abaixo, na década de 1950 a região já estava mais habitada. Já se percebe ao fundo (no meio da foto) alguns prédios. O morro da lateral direita da imagem é o atual Parque Garota de Ipanema.

.

.

É nessa década que um grupo da juventude dourada da Zona Sul começa a assustar os banhistas descendo as ondas em cima de “tábuas de madeira”. As primeiras pranchas, pesadas e de madeira, no decorrer da década seriam substituídas por outras confeccionadas de fibra de vidro, que facilitaram a prática. Na verdade, muitos já “pegavam jacaré” com pequenas pranchas de madeira, depois substituídas por de isopor, e pés de pato.

.

Pranchas de surfe encostadas na Estação Telegráfica que existiu durante décadas no Arpoador. 1959. Destaque para o padrão das pinturas. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:472

.

Abaixo vemos mais um flagrante da novidade. Um dos surfistas já usava uma bermuda com motivos florais.

.

Surfistas no Arpoador. Década de 1960. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1348

.

No contexto de uma cidade que valorizava cada vez mais a praia e a natureza (até mesmo porque crescia rapidamente), o surfe foi se popularizando. A chegada das pranchas confeccionadas com poliuretano, mais leves e ágeis, contribuiu para esse processo. Logo o mar do Arpoador estaria pontilhado de surfistas, como podemos ver na foto abaixo, disponível no fotolog Saudades do Rio (http://fotolog.terra.com.br/luizd:1019).

.

.

Na década de 1970, o surfe seguiria a trilha de popularização. Nos anos iniciais, momentaneamente o point se transferiu para Ipanema, em função de um fato em certa medida inusitado: a instalação de um Píer.

.

.

A estrutura foi montada para a instalação de uma tubulação que jogaria o esgoto da região no alto mar. Isso interferiu na formação das ondas, atraindo os surfistas.

.

Píer de Ipanema. 1974. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/sdorio:2317

.

Na areia também houve mudanças, com a formação de dunas. A região atraiu artistas, intelectuais, hippies, descolados em geral. Os surfistas passaram a dialogar mais constantemente com as ideias de contracultura, amor livre, uso de drogas.

.

.

Uma nova juventude se forjava em uma cidade em rápida mudança e o surfe de alguma forma assumia o papel da prática esportiva preferida de um determinado grupo nesse momento.

.

.

Na década de 1980, o surfe definitivamente conformar-se-ia como modalidade profissional. Sua popularidade aumentaria ainda mais: sua presença tornaria-se constante no cinema, nas rádios, nas emissoras de televisão.

.

——–xxxxxxxx——–

.

Arduíno Colassanti foi um dos símbolos dessa nova juventude dourada da Zona Sul. Foi um dos pioneiros do surfe e da caça submarina, símbolo sexual e ator em muitos filmes, inclusive tendo protagonizado o primeiro nu frontal masculino do cinema brasileiro, em “Como era gostoso meu francês”, de Nelson Pereira dos Santos.

.

Arduíno Colassanti. Anos 1960. Disponível em http://therabadasport.wordpress.com/2008/09/

.

——-xxxxxxxx——–

.

Vale a pena uma visita à página do Museu Benett Foam, com imagens de pranchas antigas: http://therealsurfer.sites.uol.com.br/evolucaoprancha.htm#d

Abaixo três modelos pioneiros de pranchas. A de 1949 é provavelmente uma das mais antigas do país. A do meio é de madeirite. A da direita foi confeccionada pela primeira fábrica do Brasil: a São Conrado Surfboards.

.

.

——–xxxxxxxx——–

.

No próximo post – Peteca é coisa de carioca?

.

Anúncios

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: