Antes do templo do futebol, o palco dos cavalos: o Derby

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Para os antigos frequentadores do Maracanã, nome como é mais conhecido o Estádio Jornalista Mário Filho, templo mítico do futebol mundial, as referências ao Derby não são desconhecidas. Jornalistas, por exemplo, em sua linguagem própria de narrar o espetáculo esportivo, constantemente, com diferentes conotações, faziam (e ainda fazem) uso do termo. A própria estação de trem que se localiza próximo ao “Maraca”, tão utilizada pelos torcedores em dias de jogos, durante muitos anos se denominou “Derby”.

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Cabine de controle da estação Derby Club em 1941. Disponível em http://www.estacoesferroviarias.com.br/efcb_rj_linha_centro/fotos/maracana9411.jpg

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Essa estação foi criada em 1885, para atender os interessados em uma prática que cada vez mais se tornava popular na cidade: o turfe. Naquelas redondezas do Rio Maracanã, próximo à linha férrea, nesse mesmo ano fora inaugurado o hipódromo de um dos mais importantes clubes da história do Rio de Janeiro, o Derby Club, liderado pelo engenheiro André Gustavo Paulo de Frontin.

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O Prado foi instalado em terras compradas da Condessa do Itamaraty e foi um dos responsáveis pelo sucesso do Derby, pois se localizava mais próximo da região central e melhor atendido pela deficiente rede de transportes da cidade à época.

No mapa abaixo, de 1913 (disponível no belo sítio de Celso Serqueira: http://serqueira.com.br/mapas/derby.htm), podemos ver o hipódromo do Derby no mesmo lugar onde hoje se encontra o Maracanã. Podemos ver a linha férrea, a Quinta da Boa Vista e muitas ruas que mantém o mesmo nome (Ibituruna e Professor Gabizo, por exemplo).

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Confortável, oferecendo preços mais acessíveis para entrada e mais oportunidades para apostar (poules mais baratas), o prado logo se tornou o preferido de um amplo estrato da população, tanto de uma burguesia urbana em formação (que depois se envolveria com os clubes de remo) quanto dos mais populares.

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Prado do Derby Club lotado, em 1911. Destaca-se o grande número de automóveis e as arquibancadas lotadas. Foto publicada na Revista Ilustrada. Disponível em http://serqueira.com.br/mapas/derby.htm

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O antigo e tradicional Jockey Club chegou a financeiramente sentir o sucesso da nova agremiação. Na verdade, como podemos ver no mapa abaixo (disponível no fotolog “Saudades do Rio – O Clone”), a distância entre os hipódromos de ambos nem era tão grande, mas o Derby expressava melhor as novas ordenações políticas e econômicas da cidade, sendo uma expressão da ascensão burguesa.

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Na foto abaixo, do início do século XX, do acervo de George Ermakoff, disponível no fotolog “Zona Norte”, podemos ter uma ideia melhor do formato do hipódromo e visualizar como o Maracanã futuramente nesse mesmo espaço seria construído. Para que possamos nos orientar, embaixo da foto podemos ver a linha férrea. No meio da curva (ainda embaixo), a grande casa branca é o antigo museu do índio (hoje um prédio abandonado). Ao fundo, na parte superior, vemos os bairros da Tijuca e Vila Isabel. Não existia ainda a Avenida Maracanã e a Radial Leste.

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Para quem dúvida que as provas de turfe pudessem ser tão emocionantes quanto os atuais jogos de futebol, basta ver a beleza da imagem abaixo (disponível no fotolog “Rio de Fotos). O Derby, aliás, foi o primeiro da cidade a usar o cronômetro eletrônico e fotos para dirimir dúvidas nos resultados, novidades do progresso bem ao estilo do grupo prioritário de sócios.

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O Prado Itamaraty certamente acolheu incríveis disputas, acompanhadas com fervor por um público que mal conseguia se conter, a despeito das exigências da modernidade: o espaço público passa a ser valorizado, mas sua ocupação deve ser feita com parcimônia, uma ambiguidade típica daqueles novos tempos.

Em outras ocasiões voltaremos a abordar o turfe, o primeiro esporte a se estruturar em parâmetros modernos na cidade.

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Um dos personagens mais importantes do turfe é o jóquei. Encarado por alguns como forma de ascensão social, ocupando um papel intermediário entre o grande público, os sócios de clubes e os criadores de cavalos, em suas mãos se encontravam os sonhos de muitos que desejavam enriquecer (e a ruína de muitos que não conseguiram).

Personagens muitas vezes injustiçados, perseguidos, considerados culpados de problemas nos quais desempenharam um papel apenas coadjuvante, merecem sempre uma referência e reverência.

Abaixo uma imagem de jóqueis que disputaram páreos no Derby Club, em 1911, trajando as fardas com as cores de seu haras e coudelarias.

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No próximo post – O surfe: uma novidade nas praias cariocas

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