Uma antiga sacada no litoral carioca: o vôlei de praia

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A intensa relação dos cariocas com o litoral de sua cidade, algo que marca a sua construção identitária, é mais recente do que por vezes pensamos. É somente em meados do século XIX que as praias começaram a ser mais procuradas: primeiro como opção terapêutica (os banhos de mar como indicação médica), depois como espaço de diversão. Progressivamente, tornaram-se lugar privilegiado de encontros e de prática das mais diferentes atividades de lazer. Entre essas, destaca-se o vôlei de praia.

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Projeto de arena que abrigará o vôlei de praia nos Jogos Olímpicos de 2016/Rio

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É somente nos anos finais da década de 1980 que a modalidade foi oficialmente reconhecida pelas entidades esportivas internacionais, pavimentando o caminho que a levou aos Jogos Olímpicos. Todavia, já na década de 1920 há registros de jogos de vôlei realizados em praias norte-americanas.

Ao que tudo indica, nessa década, também no Rio de Janeiro já havia praticantes do vôlei de praia, como podemos ver no centro da bela foto abaixo, disponível no fotolog “Carioca da Gema”: trata-se da Praia de Copacabana, na altura do posto 6 (próximo ao Forte), no ano de 1927. Curioso é o grande público que acompanhava a partida.

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Um passeio pelas imagens disponíveis nos fotologs dedicados ao Rio antigo nos permite encontrar várias evidências da prática do vôlei nas praias cariocas. Nas fotos abaixo, disponíveis em “Rio de Fotos” e “Saudades do Rio”, podemos ver, na primeira, os jogadores e a rede atrás das personagens principais, na Praia de Copacabana, em 1941; na segunda, os postes para montar a rede, na Praia de Copacabana, com a Avenida Atlântica ainda não duplicada (1947).

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Já a foto abaixo é dos anos 1950 e capta uma tradicional rede de vôlei que se localizava em frente ao Hotel Miramar (Copacabana). Nessa década, a prática já era muito popular e começaram a ser promovidos campeonatos mais organizados.

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Uma partida de um desses campeonatos, patrocinado pelo Jornal dos Sports, pode ser vista na imagem abaixo (Praia de Copacabana, década de 1960), disponível no magnífico fotolog de Luiz D’. Segundo sua descrição, uma das equipes era a da rede Reno, que se localizava na Praia de Ipanema. Luiz lembra ainda que jogava pela equipe Tatuís, cuja rede ficava no Posto 6.

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É também Luiz D’que dá um belo depoimento sobre uma das redes que se espalhavam pelas praias: a Lagosta, que se localizava na altura do Posto 8, Ipanema. Luiz lembra que a rede existiu por mais de 40 anos, servindo de local de encontros no qual se forjaram grandes amizades. Vale a pena ler seu relato completo em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1557. Podemos aí saber da dinâmica de funcionamento do grupo, a partir do olhar apaixonado de um frequentador.

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Rede Lagosta, anos 1960. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:1244

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Nos comentários de um dos posts de Luiz D’ sobre tal rede, podemos perceber que muitos que frequentaram espaços similares manifestam a mesma alegria e saudade ao lembrar as histórias dos grupos com os quais se envolviam para praticar o vôlei nas praias.

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Rede Lagosta, década de 1970. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:2132

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Esses espaços/grupos menos academicamente discutidos estão certamente entre os temas mais importantes no que se refere ao estabelecimento de uma forte relação entre o esporte e a cidade, algo que nos diz muito sobre a construção de discursos sobre o que é ser carioca.

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Morador do subúrbio do Rio (como já disse antes, do glorioso Bairro Jabour), quando criança/adolescente pouco joguei vôlei nas praias, mas vivenciei o boom do esporte nos anos 1980. A molecada assistia às partidas da seleção brasileira pela televisão (se não me engano pela Record, narradas pelo Luciano do Vale) e no dia seguinte se reunia para jogar, sonhando em reproduzir as proezas dos atletas brasileiros (inclusive o espetacular saque Jornada nas Estrelas).

Havia, contudo, um problema: era caro o equipamento! Para não deixarmos de jogar, improvisávamos: uma bola qualquer que não machucasse muito o braço, uma corda como rede, o chão marcado com giz. A precariedade não tornava menos divertidos nossos jogos!

Em nome da saudade desses tempos, apresento uma rara imagem de um jogo de vôlei disputado no bairro da Penha nos anos 1950.

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As diferenças com o que se praticava na Zona Sul são notáveis, mas quem pode dizer que eram situações menos divertidas?

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Próximo post – “Um lugar esportivo: o Derby/Maracanã”

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