Braços fortes: o remo e a celebração da cidade moderna

 

O Rio de Janeiro é uma cidade reconhecida mundialmente pela beleza exuberante de sua natureza, de suas praias, lagoas e montanhas. Essa é uma de suas imagens mais difundidas: a Baía de Guanabara, o Corcovado e o Pão de Açúcar em plena harmonia.

 

 

Foi nesse cenário majestoso que uma das mais importantes práticas esportivas viveu seu auge: o remo.

As primeiras provas náuticas foram realizadas já na década de 1850. Além de esporádicas, as regatas ocorriam nas praias mais próximas da região central, entre as quais a Praia de Santa Luzia, assunto de outro post .

Na década final do século XIX, o esporte náutico já se tornara uma das principais diversões da cidade: muitos clubes já estavam organizados e as regatas, realizadas com maior frequência na Praia de Botafogo, mobilizavam grande público de todos os estratos sociais.

É nos primeiros anos do século XX que o remo será considerado como uma das estratégias para celebrar a cidade que estava em plena mudança. Um dos responsáveis por isso foi exatamente aquele que liderava o processo de reformas urbanas, Pereira Passos, prefeito plenipotenciário nomeado por Rodrigues Alves.

 

 

O remo vinha se configurando como um esporte que exaltava as noções de progresso, de saúde, de higiene, adotado pela burguesia urbana como um dos símbolos de um país moderno que desejava-se construir. O corpo e os gestos de seus praticantes simultaneamente assustavam e fascinavam uma população ainda não acostumada a esses modelos e a tal grau de exibição.

 

Remadores do Club de Regatas Botafogo no final do século XIX (disponível em http://wakko.com.br/furiajovem/index.php?option=com_content&view=article&id=57&Itemid=75)

 

Remadores do Club de Regatas Botafogo (1919) (disponível em http://www.redacaoalvinegra.com.br/4246/2009/08/21/historia-dos-escudos-do-botafogo/)

 

Passos, percebendo o quanto as regatas se adequavam simbólica e materialmente às reformas “civilizatórias” que implementava, passou a, de diversas formas, apoiar as agremiações náuticas.

Foi em 1905 que concedeu aos clubes de remo uma de suas solicitações mais antigas: no contexto da construção da Avenida Beira-Mar, a instalação de um espaço permanente para a realização das competições – o Pavilhão de Regatas, na Praia de Botafogo, na altura das ruas D. Carlota e São Clemente.

Na foto de Augusto da Malta (de 1906, disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:935), vemos o Pavilhão em um dia de regatas. Dele (ou de barcos fundeados na Baia, que também podem ser vistos na imagem) assistiam às provas os sócios de clubes e/ou pessoas pertencentes à elite. Já o grosso da população, como podemos ver na imagem, se espalhava pela murada da Praia.

Mais do que servir somente às regatas, até mesmo por estar situado em um local com bela e aprazível vista, o Pavilhão rapidamente transformou-se em um centro de divertimentos para as elites. Construído em ferro, no estilo eclético, com coretos para duas bandas de música, duas arquibancadas no térreo, espaço para o buffet, já em 1906 estava dotado de luz elétrica (o que permitia que funcionasse até a madrugada) e inaugurara um bar com orquestra, uma casa de chá, além de oferecer excursões de barco pela Baía de Guanabara.

Vejamos um postal (ou foto colorizada) do Pavilhão (disponível no magnífico Saudades do Rio, de Luiz D’: http://fotolog.terra.com.br/luizd:2505).

A Praia de Botafogo foi um dos sítios mais sportivos da cidade. Certamente voltaremos a esse tema em muitos posts futuros.

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Uma curiosidade: como podemos ver nas fotos, a Praia de Botafogo não tinha areia. Isso se manteve durante muitos anos, até a década de 1960. Aliás, no lugar onde se situava o Pavilhão, hoje passam as pistas do aterro.

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One Response to Braços fortes: o remo e a celebração da cidade moderna

  1. […] já citada em outras ocasiões (ver “O Hotel Central e os banhos de mar“, “Braços fortes: o remo e a celebração da cidade moderna“, “Sítios sportivos: a Praia de Santa Luzia“). Essa parte do litoral carioca, […]

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