Celeiros de craques

08/10/2011

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Uma das teses mais defendidas pelos historiadores e memorialistas do futebol é a de que, no Brasil, o velho esporte bretão teria sido a princípio uma modalidade circunscrita às elites, sendo posteriormente apreendida de muitas formas pelas camadas populares.

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Foto de Marco Carneiro de Mendonça. Primeiro goleiro da seleção brasileira, era reconhecido pela elegância. Membro da elite carioca, retirou-se do futebol no seu momento de popularização.

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Sem ser um especialista no tema, essa assertiva sempre me pareceu estranha. Tendo em conta o que houve com outras modalidades, sempre me pareceu mais plausível pensar em várias vias de desenvolvimento: na mesma medida em que são multifatoriais as razões para que o futebol rapidamente se espraiasse pelas cidades, múltiplos e simultâneos teriam sido os seus locais de origem.

 De qualquer forma, é altamente reconhecida a importância do meio fábril para a popularização do futebol: paulatinamente, na prática e no imaginário, as fábricas passaram a ser consideradas verdadeiros “celeiros de craques”.

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Foto da Fábrica Bangu, com o campo de futebol à frente

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Uma das mais conhecidas relações entre uma empresa fabril e um clube de futebol é a que se estabeleceu entre a Fábrica Bangu, inaugurada em 1893, e o Bangu Athlétic Club, criado em 1904.

 O futebol e o cricket começaram a ser praticados por influência dos diretores da Fábrica. Por motivos diversos, logo os funcionários também com as modalidades estavam envolvidos. Tais encontros geraram novidades, como a presença de jogadores negros em uma época em que isso ainda era encarado com estranheza.

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O Bangu em 14 de maio de 1905, antes da vitória por 5 a 3 sobre o Fluminense, no campo da Fábrica. A partir da esquerda, última fila: José Villas Boas (presidente), Frederick Jacques e João Ferrer (presidente honorário); fila do meio: César Bochialini, Francisco de Barros, John Stark, Dante Delocco e Justino Fortes; fila da frente: Segundo Maffeu, Thomas Hellowel, Francisco Carregal (o primeiro negro a integrar uma equipe de futebol), William Procter e James Hartley (retirado do sítio bangu.net, disponível em: http://www.bangu.net/informacao/reportagens/20050513.php).

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Outra importante Fábrica ao redor da qual se organizou um clube esportivo foi a Cruzeiro, fundada em 1895, localizada no bairro do Andaraí. Criado em 1909, o Andaraí Esporte clube foi um dos mais ativos dos primórdios do futebol carioca. Sua equipe também era marcada pela presença de indivíduos das camadas populares.

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Time e escudos do Andarahy Atletic Club. Disponível em: http://www.timesdobrasil.hd1.com.br/.

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Era mesmo comum que ao redor das fábricas se constituíssem agremiações recreativas, muitas tendo o futebol como modalidade principal. Um exemplo é o Alliança Foot Ball Club, criado em 1910, por empregados da Fábrica Aliança. Fundada na década de 1880, no bairro de Laranjeiras, durante anos essa foi uma das maiores empresas texteis do país.

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Região de Laranjeiras, na altura da Rua General Glicério, onde se encontrava a vila operária e a Fábrica Aliança. Disponível em: http://www.fotolog.com.br/rioantigo/6134552

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No decorrer do tempo, tornou-se comum a realização de campeonatos de futebol entre os funcionários de diferentes fábricas ou setores de produção. Vejamos um belíssima foto de 1925, de jogadores da Liga Gráfica, disponível no incrível fotolog de Roberto Tumminelli (http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema_2:294).

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Foto do time do Rialto Futebol Clube. Campo localizado nas redondezas da Rua Francisco Bicalho/São Cristovão.

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Efetivamente essa é uma das facetas menos conhecida de nosso futebol brasileiro. O aprofundamento dos estudos sobre a participação de operários e membros das camadas populares certamente ajudará a entender melhor sua rápida difusão pela cidade e o fascínio que a prática ocasiona.

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Não devemos esquecer que um dos grandes nomes do futebol brasileiro e mundial começou sua trajetória em um time de fábrica: Garrincha, que trabalhou na Companhia America Fabril Fábrica Pau Grande.

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Agachado, à esquerda, Garrincha integrando o time da fábrica. Disponível em: http://textileindustry.ning.com/forum/topics/garrincha-o-idolo-do-futebol-na-industria-textil

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Nos anos 1990, tive a oportunidade de ser coordenador de lazer da empresa de eletrodomésticos Ponto Frio Bonzão. Entre minhas funções estava a de organizar campeonatos internos de futebol e a participação da equipe da empresa (a seleção Bonzão, treinada pelo querido amigo Gerônimo) na Copa Philco Hitachi, da qual nos sagramos tricampeões, o que nos deu a posse definitiva do troféu (a última conquista em uma final emocionante, uma vitória apertada de 1 x 0 contra a Arapuã).

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Quem está desenvolvendo uma bela investigação sobre os clubes ligados à Fábrica Bangú e à Fábrica Cruzeiro é o amigo Nei Santos Junior, que estou tendo o prazer de orientar no Programa de Pós-Graduação em História Comparada. Em breve teremos um belo trabalho na praça!

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Devido a motivos profissionais, ficaremos duas semanas sem atualização. Voltamos no dia 30 de outubro com o post “Leblon – um bairro esportivo”.

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Por onde concentram os jogadores?

01/10/2011

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A concentração é um dos redutos sagrados e espaços mais polêmicos do futebol. Ao seu redor persistem dúvidas (o que fazem os jogadores?), levantam-se controvérsias (será mesmo necessário?), divulgam-se escândalos (sempre ligados a “estratégias” dos atletas para fugir do controle da equipe técnica).

Não tem jeito, desde que se profissionalizou o esporte, e a exigência de resultados passou a ser progressivamente algo cercado de interesses comerciais, lá está ela pautando a vida dos múltiplos interessados na prática esportiva de alta competição.

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Foto de jogadores do Corinthians no tempo da famosa “Democracia Corinthiana”, que, entre outras coisas, ao redor de uma posição política mais clara, reivindicou o relaxamento das exigências de concentração. Disponível em: http://fielalagoas.blogspot.com/2011/07/democracia-corinthiana.html

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Pois bem, os diferentes locais nos quais os jogadores de futebol de diferentes equipes se concentraram permitem-nos um passeio pela nossa maravilhosa cidade do Rio de Janeiro.

Por exemplo, um dos mais notáveis e belos locais da cidade que acolheu equipes de futebol, inclusive a seleção brasileira, foi o Hotel Paineiras.

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Bem no meio da imagem, à frente do trem, o Hotel Paineiras na década de 1910. Disponível em: http://www.fotolog.com.br/tumminelli/8602242

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Fundado em 1884, junto com a implantação da Estrada de Ferro do Corcovado, depois de um período de dificuldades econômicas, após ter passado por reformas, a partir da década de 1930 hospedou muita gente famosa.

Não surpreende o Hotel Paineira ter sido utilizado como concentração: o ambiente era tranquilo e era relativamente longe do fervo da cidade (ao mesmo tempo em que era próximo para chegar ao lugar de treino ou jogo).

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Também por suas características, por ser aprazível, tranquila e relativamente distante/próximo, a Ilha do Governador abrigou várias concentrações de atletas. Na imagem abaixo, de 1955, vemos uma foto de jogadores (um deles é Pinga, que atuou pelo Vasco da Gama) que na ocasião defendiam a seleção carioca, em frente ao Hotel Miramar, em uma Freguesia da qual pouco restou.

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Imagem do acervo do jornal Ultima Hora. Disponível em: http://fotolog.terra.com.br/ilhadogovernador:1202

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Alguns locais de concentração eram bem inusitados, como, por exemplo, a Casa da Gávea, localizada em São Conrado. O espaço era utilizado mais para realização de retiros espirituais ou atividades promovidas pela Igreja Católica. Foi utilizada pela seleção brasileira nas décadas de 1960 e 1970.

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Será tão distante assim o uso religioso do uso profano dos atletas? De um lado, a concentração pode ser vista, idealmente, quase como um mosteiro. De outro, informa Luiz D’ em seu fotolog que quando fora aluno do Santo Inácio, e para ali era levado com sua turma para aprimorar seus valores espirituais, na verdade as noites eram dedicadas a festas escondidas.

Será que os “eventualmente” alguns jogadores não tornam o “sagrado” espaço da concentração em algo mais próximo do profano? É provável…

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Próximo post: Fábricas – celeiros de jogadores

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Nas páginas dos jornais, nas ondas do rádio

24/09/2011

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Em função de ter desempenhado o papel de mediação, os meios de comunicação foram de grande importância na configuração do esporte, obviamente não de forma independente e alheia, mas sim traduzindo de forma ativa (isso é, também interferindo) os diversos vetores de poder que compõem qualquer quadro social.

Nosso post de hoje é dedicado a apresentar algumas cenas curiosas da imprensa esportiva do Rio de Janeiro, que desde o século XIX se estruturava, seja no âmbito dos periódicos de grande circulação, seja com a criação de jornais integralmente dedicados ao tema.

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Fotos de regatas realizadas na Praia de Botafogo, publicadas em Careta, ano 1, número 2, junho de 1908

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Abaixo vemos uma guarnição do Clube de Regatas Boqueirão do Passeio, vencedora de um páreo denominado “Imprensa”, promovido em regatas realizadas em 1912, na Baía de Guanabara, na altura do Pavilhão de Regatas (Praia de Botafogo).

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Páreos em homenagem à imprensa são realizados desde o século XIX, em competições de turfe e de remo. Na verdade, havia uma relação ambígua entre clubes e jornalistas. De um lado, os segundos eram acarinhados e valorizados pelos primeiros, já que eram de importância para a difusão das atividades: a publicação nos periódicos trazia público e aumentava o prestígio. De outro, os conflitos eram frequentes, ocorrendo quando eram denunciados os problemas de organização dos certames esportivos.

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Jornalistas no varandim da imprensa, que dispunha de boa visibilidade e era cercado de conforto, do Hipódromo do Derby Club

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Outra cena curiosa é a da Gruta da Imprensa. A construção se deu na gestão do prefeito Alaor Prata e a denominação tem relação com os jornalistas que ali se posicionavam quando começaram a ser realizadas provas de automobilismo na região, o famoso Circuito da Gávea. Os jornalistas eram fundamentais na difusão das imagens heróicas construídas ao redor das disputas.

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Outra história incrível é narrada por André Decourt em seu magnífico “Foi um Rio que Passou”. Em 1931, a Rádio Clube do Brasil tentava transmitir os jogos realizados no Estádio São Januário. Como os dirigentes do Vasco da Gama queriam cobrar para tal, o que era inviável nos momentos iniciais da rádio no país, só restou aos radialistas transmitir as partidas de uma casa que se situava nas redondezas, usando binóculos para tal.

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Amador Santos e a equipe da Rádio Clube do Brasil. Disponível em http://www.rioquepassou.com.br/2007/07/23/a-imprensa-e-o-futebol/

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O rádio, muito antes da televisão, e talvez até os dias de hoje, se transformou no grande companheiro de quem acompanha o futebol. As vozes dos grandes locutores fazem parte da memória afetiva de muitos brasileiros e brasileiras. Mesmo para muitos que iam para os estádios assistir aos jogos, os aparelhos eram companhias fundamentais, como podemos ver na belíssima imagem abaixo.

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Disponível, com uma linda descrição, no fotolog Saudades do Rio, de Luiz D’: http://fotolog.terra.com.br/luizd:2487

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O rádio foi também um importante veículo para a difusão da ginástica. Um dos principais nomes ligados a tal iniciativa foi o do professor Oswaldo Diniz Magalhães, que marcou a vida de muita gente que acompanhava diariamente suas aulas. Foram incríveis mais de 50 anos no ar.

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Professor Oswaldo ministrando suas aulas na Rádio MEC. Disponível em http://lilianzaremba.blog.uol.com.br/arch2007-07-08_2007-07-14.html

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Não tem jeito. É falar de futebol e de rádio e imediatamente vem à cabeça a imagem do velho João, meu pai, “assistindo” angustiado o jogo do mengão, andando ao redor da vitrola de luz verde. O novo João, meu filho, certamente não adotará prática semelhante, mas não deixa de ser motivo de orgulho que mais uma geração da família seja rubro-negra.

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Próximo post – Por onde concentram os jogadores?

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A velocidade invade as ruas

01/09/2011

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Encarado como substituto e superação da natureza (de cavalos e da força humana), o automóvel é um dos símbolos mais importantes do século XX. O automobilismo, em grande medida, é entendido como o exponencial dessa representação simbólica.

Em 1909,  promove-se a primeira prova automobilística do Rio de Janeiro: o Circuito de São Gonçalo. A ideia era realizar a corrida no Alto da Boavista, mas o prefeito à época, Souza Aguiar, com apoio da Câmara Legislativa, proíbe a realização na cidade, levando o Automóvel Clube do Brasil a transferi-la para o município vizinho.

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O autódromo de Jacarepaguá somente seria inaugurado em 1978. Entre os dois eventos, muitas corridas foram realizadas pelas ruas do Rio de Janeiro. Façamos um passeio por essas provas a bordo das fascinantes máquinas velozes.

A primeira imagem é de uma prova de 1925, promovida por ocasião da 1ª Exposição Automobilística do Rio de Janeiro. A pista foi instalada na região que fora construída com o arrasamento do Morro do Castelo, realizado por ocasião das comemorações de 1922. Atrás do público, à direita, temos a Baía de Guanabara.

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De 1935 temos uma bela foto do Circuito da Amendoeira, que se disputava ao redor do Morro da Viúva, numa das regiões mais valorizadas da cidade. No centro da imagem vemos a estátua de Cuauhtémoc, pelo México oferecida ao Brasil por ocasião das celebrações de 1922.

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Foto do acervo de Paulo Scali, disponível em: http://fotolog.terra.com.br/luizd:212

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Já o circuito da Gávea, disputado entre 1933 e 1954, com uma interrupção por ocasião da 2ª Grande Guerra, foi uma das mais importantes (se não a mais importante) provas do automobilismo brasileiro. No futuro, retomaremos o tema em um post exclusivo.

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Um breve filme de Adhemar Gonzaga sobre a edição de 1937 do Circuito da Gávea pode ser visto abaixo.

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Até a década de 1950 essa prova reinou absoluta, quando foi proibida por questões de segurança. A partir de então, vários locais da cidade, alguns inclusive inusitados, abrigaram as competições.

Por exemplo, durante alguns anos foi disputado o Circuito do Castelo, no centro da cidade. Na imagem abaixo, relativa à 4ª edição, realizada em 1954, podemos ver alguns dos prédios que ainda hoje se impõe na paisagem daquela região

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Nessa mesma década algumas provas foram realizadas em Botafogo, reunindo grande número de interessados. Abaixo uma imagem de 1956.

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Segundo Luiz D., o Circuito de Botafogo tinha início na Rui Barbosa, seguia pela enseada, passando pela frente do Cinema Guanabara (esquina com Voluntários da Pátria), seguia para a Pasteur, retornando para a Praia de Botafogo, de onde seguia em direção à partida.

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A Quinta da Boa vista também teve seu circuito, como podemos ver na imagem abaixo, da prova de 1957. Segundo informa Luiz D., o piloto do carro que aparece no canto inferior esquerdo é o lendário Juan Manuel Fangio, habituée participante do Circuito da Gávea.

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Da mesma forma, a na época ainda pouco habitada e distante Barra da Tijuca sediou algumas competições, entre as quais os 500 Quilômetros da Guanabara, que podemos ver abaixo numa foto de 1964 (disponível em http://www.fotolog.com.br/tumminelli/8709771). Essa prova reuniu grandes pilotos do automobilismo nacional.

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Até mesmo a Ilha do Fundão, já no seu formato atual, fruto da junção de várias ilhas para receber a cidade universitária, recebeu provas de automobilismo. Ao fundo podemos ver as primeiras construções da atual Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Até a construção do autódromo, destaca-se a forma precária da organização das provas, pelo menos no que se refere à segurança de público e pilotos, verdadeiros aventureiros, portadores da mensagem do progresso e da modernidade.

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Houve também na cidade corridas de motos, também apreciadas pela população. Vejamos uma imagem de uma prova disputada em 1955 ao redor do Maracanã.

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Os carros fascinam as mais diferentes faixas etárias. Se os adultos têm suas máquinas velozes, as crianças têm seus carrinhos de brinquedo e, para os mais ricos, seus autoramas.

Fascinante é um brinquedo que antes era mais comum entre as crianças mais humildes: o carrinho de rolimã, hoje menos presente no cotidiano das cidades.

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Por motivos profissionais, ficaremos duas semanas sem atualizar nosso blog.

O próximo post será publicado em 24 de setembro – O turfe pela cidade

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Germânia: o mais antigo clube

27/08/2011

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190 anos. A Sociedade Germânia, fundada antes mesmo da independência, em 1821, por um grupo de alemães que se estabelecera no Rio de Janeiro, é o mais antigo clube da cidade e provavelmente do país.

 O impulso era compreensível. Os alemães, desde o século XVIII, estavam acostumados a se reunir em associações recreativas, enquanto no Brasil das primeiras décadas do XIX ainda era comum a diversão em casa, em família. A agremiação, assim, dava conta do desejo de um grupo de estrangeiros, estabelecendo laços de identidade e oportunidades de sociabilidade.

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Atual sede do Germânia. Fonte: sítio do clube (http://www.sociedadegermania.com.br/)

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Sua sede atual localiza-se no bairro da Gávea, numa antiga residência de Epitácio Pessoa Filho, mas foi longa sua trajetória pela cidade, expressão das diversas mudanças pelas quais passou e de distintos momentos de nossa história.

Um passeio pelas sedes do clube é possível graças ao incrível trabalho de Roberto Tumminelli no fotolog Carioca da Gema.

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Rua dos Ourives, entre a Rua da Alfandega e Rua do Hospício. Foto de Augusto Malta

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O clube foi fundado em um restaurante localizado na antiga Rua dos Ourives (atual Miguel Couto). No decorrer do século XIX, as sedes foram instaladas na Rua Fresca (1841), na Rua da Alfândega (1891), até chegar em 1920 à Praia do Flamengo.

Fiquei com a impressão de que a imagem abaixo seria da Rua da Alfândega, mas Tumminelli informa que se trata da primeira sede localizada na Praia do Flamengo.

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O clube cada vez mais iria se afirmar como um espaço de um estrato das elites cariocas. Vejamos a beleza da segunda sede do clube na Praia do Flamengo, na época um dos lugares mais fashions da cidade.

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Essa sede entrou para a história por ter sido invadida por estudantes, em 1942, em função dos conflitos ocasionados pela 2ª Grande Guerra. Criada há menos de 5 anos, a União Nacional dos Estudantes desencadeou uma campanha contra o fascismo e exigia que o governo confiscasse os bens de alemães. Nesse contexto, ocupou o prédio onde viveu seus grandes momentos, até ser destruído em 1964.

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À esquerda, sede do Germânia ocupada pelos estudantes/1943. À direita, sede da Une incendiada em 1964. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema_2:195 e http://www.rioquepassou.com.br/2005/04/01/incendio-do-predio-da-une-1964/

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Com a perda da sede da Praia do Flamengo, depois de mais de 10 anos, o clube transfere-se, em 1953, para terrenos na Rua Real Grandeza (onde hoje se localiza o prédio de Furnas), em Botafogo, e muda de nome: Beira Mar.

ATENÇÃO: RECEBI A MENSAGEM ABAIXO, DE AUTORIA DE CARLOS VAN DEN BOSCH, A QUEM AGRADEÇO PELA GENEROSA INFORMAÇÃO

“O Clube Beira Mar já existia há anos no casarão onde hj está Furnas, o Germânia, que estava sem sede social desde a invasão dos estudantes, migrou para o Beira Mar quando recebeu a indenização pela invasão. Pelo menos é o que meus pais me diziam, eles eram sócios do Beira Mar”

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Sede do Beira Mar. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/carioca_da_gema_2:198

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Por lá o Germânia ficou até a transferência para a atual sede. Enquanto isso, o antigo prédio da UNE foi definitivamente destruído na década de 1980, dando lugar a um estacionamento. Só recentemente o governo federal devolveu o terreno para a entidade, comprometendo-se a construir um novo prédio, ainda uma promessa.

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No próximo post – Os Estádios do Rio

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O pólo aquático: um esporte coletivo nas águas da Baía de Guanabara

20/08/2011

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De novo a Praia de Santa Luzia, em “Rio, Cidade Sportiva” já citada em outras ocasiões (ver “O Hotel Central e os banhos de mar“, “Braços fortes: o remo e a celebração da cidade moderna“, “Sítios sportivos: a Praia de Santa Luzia“). Essa parte do litoral carioca, localizada bem no centro da cidade, foi mesmo um dos locais pioneiros da prática esportiva no Rio de Janeiro: o hábito dos banhos de mar, ali comuns, acabou por gerar sociabilidades que deram origem a clubes cujos sócios se dedicavam ao remo, à natação e à modalidade-tema de nosso post de hoje: o pólo aquático.

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Fonte: Careta, ano 7, número 306, 2 de maio de 1914

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            Acima vemos duas fotos do Club de Natação e Regatas, fundado em 1896, cuja sede se localizava na Rua de Santa Luzia. Foram sócios dessa agremiação, já envolvidos com o remo e com a natação, alguns dos primeiros a protagonizar os pioneiros jogos de pólo aquático no país, uma modalidade que na Europa, por vezes chamada de rugby ou futebol aquático, já atraía grande público e envolvia muitos praticantes, tendo inclusive feito parte da programação dos Jogos Olímpicos desde a edição de 1900 (Paris), o primeiro esporte coletivo a integrar esse evento.

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Fonte: Les Sports Illustres (Librairie Larousse, 1905). Disponível em http://www.sunrisemusics.com/olimpiadas.htm

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Como podemos ver na imagem acima, um flagrante de uma partida disputada nos Jogos Olímpicos de 1900 (Paris), o pólo aquático era jogado no mar ou em rios, com um material ainda improvisado (pelo menos se compararmos ao atual).

No caso do Rio de Janeiro, depois de muitos jogos disputados na Praia de Santa Luzia, as partidas começaram a ser realizadas na Urca, na Praia Vermelha e na Praia da Saudade, notadamente após 1908, quando o bairro começou a se consolidar por ter recebido importantes obras de urbanização ligadas à Exposição Nacional, realizada para comemorar o centenário da abertura dos portos.

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Cais da Urca por ocasião da Exposição Nacional de 1908. Postal da Companhia Lith. Hartmann-Reichenbach. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:2013

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Abaixo vemos imagens de um evento realizado na Praia da Saudade em 1914. Destacam-se, na primeira foto, os barcos de remo estabelecendo os limites do espaço de jogo. Os árbitros se postam na parte inferior direita, em cima de uma bancada, e ao centro, em um palanque, ambos montados no mar. Na segunda foto podemos ver o público ocupando o que hoje é a ponte que compõe o Quadrado da Urca.

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Fonte: Careta, ano 7, número 294, 17 de janeiro de 1914

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As fotos dos jogadores reforçam as noções de masculinidade e vigor físico, tão comuns nas imagens de homens esportistas difundidas naquele momento. Se o remo já se apresentara como a modalidade ajustada a tal construção simbólica, o pólo aquático a exacerbara, até mesmo porque os choques corporais são comuns nesse esporte que exige grande esforço. Entende-se, assim, o imaginário de violência construído ao redor da prática.

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Equipes do Club Internacional, Guanabara, São Cristóvão e Icaraí. Fonte: Careta, ano 7, número 294, 17 de janeiro de 1914

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As praias da Urca seguiram sendo durante anos o principal lugar do pólo aquático na cidade, ainda mais com as reformas realizadas por ocasião da Exposição Internacional de 1922, que delinearam o Quadrado da Urca, especialmente construído para servir de piscina às competições internacionais promovidas no âmbito dos festejos de celebração da independência (os Jogos do Centenário) (já discutimos esse tema em post anterior).

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Piscina/Quadrado da Urca/1922. Fonte: Revista da Semana, 23 de setembro de 1922. Disponível em “Foi um Rio que Passou”, de André Decourt, http://www.rioquepassou.com.br/2006/08/11/quadrado-piscina-da-urca-campeonato-nautico-sulamericano-1922/

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Nesse momento, o Brasil já tinha enviado uma equipe de pólo aquático para os Jogos Olímpicos de 1920 (Antuérpia), na primeira participação do país no evento. A equipe foi formada por Adhemar Ferreira Serpa (que também participou das provas de natação), Agostinho de Sá, Alcides de Barros Paiva, Angelo Gammaro (que também participou das provas de natação), Carlos Lopes, Edgard Leite Ribeiro, João Jório (que também participou das provas de natação e remo), Orlando Amendola (que também participou das provas de natação e remo), Victorino Ramos Fernandes e Abrahão Saliture (que, já com 37 anos, também participou das provas de natação; sobre esse incrível atleta brasileiro, ver post em De Olho no Sport).

Mesmo com muitas dificuldades, a equipe brasileira chegou as quartas de final. Depois de vencer a França na fase eliminatória (1 x 1 no tempo normal, 6 x 2 na prorrogação), foi eliminada pela Suécia (7 x 3), obtendo o 6º lugar.

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Foto da equipe brasileira de pólo aquático nos Jogos Olímpicos de 1922 (sem Adhemar Ferreira Serpa, Carlos Lopes e Abrahão Saliture). Fonte: Atlas do Esporte no Brasil. Disponível em http://www.atlasesportebrasil.org.br/textos/215.pdf

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 Nas décadas de 1920 e 1930, o pólo aquático seguiria sendo disputado nas águas da Baía de Guanabara. A foto abaixo, de 1926, disponível no belíssimo fotolog “Carioca da Gema”, de Roberto Tumminelli, é informada como sendo de um campeonato disputado na Lagoa Rodrigo de Freitas. Os comentários no post contestam tal informação, sugerindo que trata-se da enseada de Botafogo, em frente à antiga sede do Clube de Regatas Botafogo. Ao fundo, veríamos o Morro do Pasmado. É fato que a Lagoa nunca possuiu boas condições para o pólo aquático, em função do fundo muito lodoso. De qualquer forma, trata-se de uma linda imagem.

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 A modalidade teria novo impulso quando passou a ser praticada nas piscinas, que no Rio de Janeiro foram construídas a partir da década de 1930. Aqui devemos falar do Clube de Regatas Guanabara, que até hoje mantém suas equipes de pólo aquático.

 Fundado em 1899, às margens da enseada de Botafogo, por um grupo de sócios dissidentes do Clube de Regatas Vasco da Gama, o Guanabara, em 1935, inaugurou a primeira piscina olímpica do Brasil, palco de muitas glórias dos esportes aquáticos nacionais.

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Piscina do Clube de Regatas Guanabara. Disponível em: http://www.rioquepassou.com.br/2005/06/03/clube-de-regatas-guanabara-iii/

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 Como se pode ver, a piscina foi instalada dentro da Baía de Guanabara. As águas salgadas privilegiavam a flutuação, atraindo atletas que buscavam bater recordes. Na foto abaixo, de 1935, podemos ter uma ideia melhor de como a piscina se inseria na paisagem da enseada.

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Disponível no fotolog Saudades do Rio, de Luiz D’: http://fotolog.terra.com.br/luizd:1282

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Essa paisagem mudou completamente a partir da década de 1950, com a construção do Túnel do Pasmado, de novas pistas na Praia de Botafogo e de novos aterros na enseada. A essa altura, os jogos de pólo aquático já eram disputados nas muitas piscinas que foram construídas pela cidade, até porque as águas da Baía de Guanabara já estavam mais poluídas (além do que eram menos confortáveis do que as instalações em clubes).

O pólo aquático teria grande desenvolvimento quando pela cidade se instalara o húngaro Aladar Szabo, já no final da década de 1950. Mas isso é assunto para outro post.

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O Club de Natação e Regatas existe até os dias de hoje com outro nome: Clube de Natação e Regatas Santa Luzia. Sua sede se localiza nas proximidades do Aeroporto Santos Dumont e do Museu de Arte Moderna.

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O Natação e Regatas, entre tantos outros antigos clubes que ainda existem, merecem mais atenção por sua importância para a memória não só do esporte como da cidade como um todo.

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No próximo post – O Germânia


O Hotel Central e os banhos de mar

13/08/2011

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Em “A Conquista”, romance publicado em 1899, assim Coelho Neto descreve um amanhecer no Rio de Janeiro:

 O dia raiava.
(…)
Chilros vibravam no ar. Passavam, chalrando, os banhistas que se dirigiam à praia, aos casais, famílias completas, com cestas, os olhos ainda empapuçados de sono.
(…)
Na praia branca, o mar liso, metálico, rutilava.
Uma multidão chapinhava na areia úmida que guardava a pegada funda até que a onda, subindo preguiçosamente, a desmanchava. Havia barracas de lona como brancas pirâmides, mas a maioria dos que mergulhavam vinha já pronta nas roupas de flanela dos estabelecimentos balneários.
As senhoras, sorrindo, esfregando as mãos, iam timidamente para o mar que mandava à praia as suas ondas como para buscá-las, curvavam-se, tomavam nos dedos um pouco de água, como se se benzessem naquela imensa pia verde e, friorentas, dando-se as mãos, entravam, aos saltinhos, quando a onda rolava cheia, espumosa, desdobrando-se na praia com suave marulho.
Cabeças apareciam longe e gente saía gotejante, gente entrava a correr e todo o mar fervilhava de banhistas. Ao longo da praia e no terraço do Passeio apinhavam-se curiosos. Um bote negro, remado lentamente, bordejava. Tresandava a maresia. De repente Anselmo gritou:
– Olha, Fortúnio! Era o sol, o grande, o magnífico, o esbraseado sol americano que subia. O céu estava encandecido, era de ouro líquido (…). A água voluptuosa tornou-se mais lânguida. Gaivotas cruzavam-se contentes (…)
(…)
Os que se banhavam pareciam incrustados na superfície serena e rútila das águas vastas e longe
(…)
A alegria do céu comunicou-se aos que nadavam e gritos alegres vinham do mar, e sempre a sair gente ansiosa para a onda: velhos, senhoras, crianças (…)
Fortúnio, com os olhos no paquete, suspirou:
– Ah! Pudesse eu ir ali!
– Ora qual! Deixa-te disso, homem! Olha para aquele sol, admira aquela beleza e dize se é possível que Deus estrague tão formosa auréola numa terra destinada à miséria e ao abandono. Uma pátria que tem este sol há de ser grande por força. Viva a nossa terra, deixa lá, homem! A nossa manhã há de vir, descansa. E os dois, extasiados, ficaram a olhar o astro deslumbrante que remontava majestosamente.

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Praia de Copacabana lotada em dia de verão. Disponível em http://www.meupalco.com.br/2010/11/imagem-do-dia-onde-esta-wally.html

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A imagem acima, de um dia de sol no Rio de Janeiro dos dias de hoje, parece se ajustar, guardadas as devidas proporções, às palavras de Coelho Neto. O gosto pela praia é sem dúvida um dos traços pelo qual o carioca é identificado. Mas nem sempre foi assim.

Até meados do século XIX, os banhos de mar não eram um hábito comum entre os cariocas. Eles somente começaram a ser valorizados quando cresceram na cidade as preocupações com a saúde e com a higiene. A princípio eram regulados pelos desígnios dos médicos e causavam preocupações no que se refere à segurança e ao pudor

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Como vemos na imagem acima, nos banhos de mar as roupas utilizadas eram bastante rigorosas, notadamente para as mulheres. Ainda assim, não eram consideradas adequadas para transitar pelas ruas. Por isso, foram instaladas nas redondezas das praias as casas de banho, que serviam para a troca da vestimenta, para a guarda dos pertences, algumas até mesmo oferecendo alguma estrutura de segurança para os banhistas (os primeiros salva-vidas da cidade).

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Casa de Banho na Rua Santa Luzia. Foto de Augusto Malta. Acervo George Ermakoff. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/sdorio:2096

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Entre os balneários, um se notabilizou pelo conforto e pelo luxo, contribuindo para a Praia do Flamengo tornar-se a mais chic da ocasião: o Hotel Central

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O Hotel Central é o de esquina, bem no centro da imagem. Foto de Preising. Acervo de George Ermakoff. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:247

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Localizado na Avenida Beira Mar, bem no ponto em que a Paissandu encontra a Barão do Flamengo, situava-se em frente ao único espaço da Praia do Flamengo que dispunha de areia. Construído em 1915, substituindo outro balneário, o High Life, oferecia boas instalações, entre as quais uma área para ginástica e terraços com bela vista para a Baía de Guanabara.

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Terraço e Sala de refeições do Hotel Central. Década de 1910. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/bfg1:113

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O Hotel oferecia quartos para hospedagem, vestiários para os banhistas se trocarem e pacotes que incluíam as refeições, sem a necessidade de hospedagem. Os frequentadores aproveitavam a proximidade do mar e o fato de que a Avenida Beira-Mar tornara-se um local fashionable.

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Banhistas em frente ao Hotel Central. 1917. Acervo de Aurelino Gonçalves. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:102

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 Na imagem abaixo podemos ter outra noção do espaço em frente ao Hotel Central. Vemos como era curta a faixa de areia. Além disso, vemos a desembocadura do mítico Rio Carioca.

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Acervo de Francisco Patrício. Disponível em http://fotolog.terra.com.br/luizd:541

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As mudanças no local, o deslocamento do eixo preferido para banhos para Copacabana e Ipanema, a poluição da Baía de Gunabara e mesmo a distensão dos costumes (já não eram mais necessários balneários já que se tornou aceito as pessoas se apresentarem nas ruas em trajes de praia) levou à destruição do Hotel Central, em 1951. No mesmo espaço foi construído o Edifício Conde de Nassau.

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Hotel em processo de destruição, em 1952; e Espaço do Hotel já vago, em 1953. Disponíveis em http://fotolog.terra.com.br/luizd:2289 e http://fotolog.terra.com.br/sdorio:2369

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Devemos lembrar que a popularização dos banhos de mar foi importante para a conformação e consolidação de certas práticas como o remo e a natação. Ter passado de uma prática relacionada diretamente à saúde para uma opção generalizada de diversão foi um salto de grande importância para que o esporte assumisse novos contornos, dialogando com uma nova cidade que se pretendia moderna, com um novo conjunto de hábitos e com uma construção identitária que elegia o espaço público como lócus por excelência do carioca. 

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Na imagem abaixo, um quadro de Fachinetti, de 1886, vemos o antigo balneário High Life.

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Óleo sobre madeira; 17,5 x 29,5cm. Coleção Museu Imperial/Maria Cecília e Paulo Fontainha Geyer, RJ

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Quem quiser ainda ver uma estrutura parecida aos antigos balneários, basta dar uma chegada à Ilha de Paquetá, para mim ainda hoje um dos mais belos recantos do Rio de Janeiro. 

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No próximo post – O tamborete

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